Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

BILIONÁRIOS COMEÇAM A PERCEBER QUE A DESIGUALDADE É UM ATRASO PARA A SAÚDE DE SUAS RIQUEZAS

3 de julho de 2021


Assim é a nova elite de bilionários 

que querem acabar com a desigualdade

 

Há cerca de um ano atrás, uma reportagem publicada por Oxfam, em 13.07.2020, e reproduzida em português pelo portal IHU-Unisinos, nos informava sobre uma carta assinada por 80 milionários de diferentes países, os quais solicitavam aos governos que “aumentassem os impostos sobre milionários e bilionários  para ajudar na recuperação global pós-pandemia. Segundo a reportagem, traduzida por Moisés Sbardelotto, “a carta elogia os trabalhadores essenciais que estiveram na linha de frente da crise, e destaca o papel que as pessoas mais ricas da sociedade podem desempenhar para ajudar a reequilibrar a economia mundial.” Entre os principais signatários da carta, “estavam o fundador do Warehouse Group, o neozelandês Sir Stephen Tindall, o roteirista e diretor britânico Richard Curtis, a produtora e herdeira estadunidense Abigail Disney, o empresário dinamarquês-iraniano Djaffar Shalchi, o cofundador estadunidense da Ben e Jerry’sJerry Greenfield, a investidora em startups e filantropa alemã Dra. Mariana Bozesan e o ex-diretor administrativo estadunidense da BlackrockMorris Pearl. O grupo divulgara seu apelo antes da reunião de ministros da Economia e dos governadores centrais do  G20  e da reunião do  Conselho Europeu Especial em Bruxelas, que discutiram sobre o esforço global para reconstruir as economias e enfrentar a desigualdade global em um mundo pós-Covid-19."

No final junho passado, há quase um ano do manifesto dos milionários, o jornalista espanhol Enrique Zamorano escreveu um artigo que retoma a mesma questão, no  El Confidencial - um jornal diário digital, com sede em Madrid, na Espanha. De acordo com dados elaborados pela Alexa, sua página oficial é uma das quarenta mais acessadas por toda a Espanha.   Segue o artigo:

  • Por: Enrique Zamorano
  • El Confidencial - 29/06/2021
  • Em: Revista IHU On-line - 2 de julho de 2021
  • Tradução: Cepap

"As organizações não governamentais seguem insistindo em que os governos garantam uma redistribuição da riqueza justa e mais equitativa para garantir o acesso da população aos serviços públicos e suas infraestruturas, caso contrário, chegará um momento em que a distância entre ricos e pobres será tão grande que o sistema se tornará insustentável”, escreve Enrique Zamorano, jornalista, em artigo publicado por El Confidencial, em Madrid.

Um dos efeitos mais paradoxais do capitalismo contemporâneo é que tende a produzir crises econômicas que diminuem os recursos e a qualidade de vida da população em geral, para depois se adaptar às circunstâncias e ver oportunidades de negócio e investimento por todas as partes. Ao final, esta ‘serpente ouroboros’, que morde sua própria cauda, busca transformar o existente para gerar mais situações de vantagens e que os atores mais relevantes adquiram mais poder. Não em vão, os países que mais cresceram economicamente, nos últimos anos, também foram aqueles em que a curva da desigualdade socioeconômica mais se ampliou.

Além disso, a pandemia serviu para aumentar essa lacuna. Os últimos relatórios da  Oxfam Intermón  preveem que a  pobreza  e, por conseguinte, a desigualdade, irão se agravar assim que a crise sanitária passar. Esta, apesar de não ter sido produzida pelo colapso de uma grande bolha imobiliária, como aconteceu em 2008, também servirá para reestruturar a ordem de poderes globais e engrossar ainda mais a lista de lucros e patrimônios daqueles que estão na parte de cima da pirâmide social.

Essa tendência poderá ser revertida?

Os mortais comuns gostariam de pensar que sim, mas o certo é que, ao final, como em todos esses anos, as elites econômicas continuarão  a corrida para acumular o máximo de capital ou taxa de lucro, em uma escalada da concorrência que voltará a abrir novas vias de negócio e de investimento.

Nas últimas semanas foram publicados dois livros nos Estados Unidos, o país que mais hasteia a bandeira do capitalismo global e que conta com um sistema tributário mais frouxo para aqueles que mais possuem renda. Tal situação traça um novo horizonte na percepção dos bilionários sobre sua própria riqueza. Mas, em alguns deles surge a vontade de alcançar uma redistribuição do dinheiro de uma forma mais justa e equitativa. Ou, o que dá no mesmo, de atuarem contra o seu próprio benefício pelo bem da sociedade como um todo.

Um tal projeto, mais do que utópico seria contraditório, a julgar pela insensibilidade que parece estar presente nas altas esferas, em relação a temas tributários, por conta da elevada ascensão do liberalismo radical que defende (entre outras coisas) o estado mínimo: a nula intervenção estatal na economia e, assim, impostos mais baixos.

O mal-estar psicológico dos ricos

Em primeiro lugar, o artigo do jornalista e escritor Michael Mechanic, intitulado Jackpot: How the Super-Rich Really Live and How Their Wealth Harms Us All, que analisa em profundidade a realidade cotidiana dos bilionários, chegando à conclusão de que seus altos níveis de riqueza não prejudicam apenas o resto da pirâmide social, mas também a eles próprios, na relação com sua família e amigos e, consequentemente, o seu bem-estar psicológico.

Em segundo lugar, o livro Tax The Rich!, de Erica Payne e Morris Pearl, ambos membros do clube de ultrarricos Patriotic Millionaires, defende uma redistribuição muito mais robusta e justa da riqueza, uma vez que, segundo a sua tese, se o sistema econômico quer sobreviver, e com ele todas as suas elites, aqueles com um alto padrão de vida precisarão se submeter a uma arrecadação tributária muito mais alta. Caso contrário, o aumento da desigualdade social tenderá a criar um clima de ira e descontentamento popular que produzirá uma explosão da insatisfação popular e atentará contra os privilégios ostentados por aqueles que atualmente estão na parte de cima. Um dos pontos mais polêmicos e interessantes do livro de Michael Mechanic é que tende a enxergar uma semelhança entre aqueles que têm um alto volume de capital e os que simplesmente não têm nada.

 A riqueza extrema - ele afirma, em um fragmento citado pela The New Republic - tem algo parecido com a pobreza, em relação ao mal-estar psicológico que inflige”.

A abordagem do jornalista é no mínimo curiosa, pois muitas pessoas que precisam trabalhar para ganhar a vida ou não têm acesso direto a uma fonte de renda digna, podem se sentir ofendidas com sua tese.

Mechanic se vale de um estudo de 2018 para argumentar que, uma vez superado um limite de riqueza ideal, a partir do qual o indivíduo já não precisa gerar mais dinheiro para viver, este tenderá a perceber a diminuição da sua qualidade de vida, bem como do seu bem-estar psicológico. Talvez aí esteja a explicação de porque os ricos querem seguir acumulando mais e mais dinheiro ou permanecer na carreira empresarial, apesar de terem o seu padrão de vida garantido.

Existem coisas que o dinheiro não pode comprar, e o fato de se possuir tal volume de riqueza, isso só faz com que você invista mais dinheiro em bens e serviços que nem sequer precisa e que, além disso, geram mais gastos correntes. Também pode acontecer que o seu círculo mais próximo se distancie, por considerar você um egoísta que não se deixa mais atrair pelos mesmos ambientes sociais de antes, aqueles mais humildes e ricos. Sem falar do mal presente na inveja e o medo de que, em um determinado momento, alguém queira se aproveitar de seus ganhos por bem (mediante a chantagem ou de um pedido forçado) ou por mal (espalhando que você tem uma fortuna, tornando-se alvo de ladrões ou pessoas malvadas).

É preciso levar em consideração que é difícil extrapolar essa teoria para a Espanha, pois nos Estados Unidos a fronteira entre o rico e o pobre pode ser muito estreita. Afinal, é uma nação que se alimenta do mito de que “a escada da ascensão social é muito rápida”. Sendo assim, você pode acumular uma boa fortuna que o faça decolar a toda velocidade, ou possuir todo o ouro do mundo, e, em um curto período, perdê-lo. De fato, Mechanic e Payne falam daquelas pessoas que por um afortunado golpe do destino se tornaram podres de ricas: ganhadores de loteria, herdeiros de grandes quantidades de dinheiro ou proprietários de empresas privadas que o Estado absorveu e se tornaram públicas. Então “você começa a se tornar insensível ao luxo”, escreve Mechanic. “Na realidade, aqueles ativos de grande valor como mansões, iates, obras de arte, jatos privados ou cavalos puro-sangue precisam de empregados para serem administrados. Um cavalo, por exemplo, pode ser comprado por um preço relativamente barato, mas precisa de uma manutenção constante. Cada mansão exige ao menos uma pessoa para a limpeza, quando não cinco, entre zeladores, técnicos de piscinas e socorristas. Quanto maior é a casa, maior será o número de funcionários. Uma grande riqueza dá muito trabalho, não importa o que você faça com ela”. E ainda há a paranoia pelo fato de se tanto dinheiro e bens para proteger. “Muitos viajam com segurança particular”, ressalta o jornalista. “Também há um serviço que treina as babás com técnicas de combate e vigilância, e entre muitas outras coisas, os empregados são incentivados a não publicar nada em redes sociais sobre suas férias, por medo da divulgação”. E, é claro, você terá que contar com uma boa infraestrutura de segurança que torne a sua casa um bunker para evitar qualquer ameaça de roubo. Mais ainda se você vive em um país como os Estados Unidos, que possui uma cultura armamentista. “Algumas das armas que eu vi nas casas dessas pessoas eram muito semelhantes às que saem nos noticiários quando falam do Iraque”, ressalta o escritor.

Ricos pela redistribuição de... sua própria riqueza?

Ao longo de todo o livro de Mechanic, há depoimentos de pessoas com um grande volume de riqueza que vivem completamente paranoicas, considerando que algo ruim possa lhes acontecer. Talvez esse medo constante seja uma das razões pelas quais surgiram, nos últimos anos, ‘lobbies’ e associações de ultrarricos como  Patriotic Millionaires, cujo presidente é justamente Morris Pearl, coautor de Tax the Rich! com Erica Payne. No livro, eles defendem uma reforma tributária urgente para mitigar os efeitos da desigualdade social e parar de se sentirem constantemente ameaçados por pessoas anônimas que, seja por questão de inveja ou vingança, podem atacar suas propriedades. Assim, o debate sobre aumentar a arrecadação tributária dos mais ricos está mais quente do que nunca, sobretudo na Espanha. Sem ir muito longe, existe uma grande divisão entre os grupos de esquerda  PSOE  e  Unidas Podemos,  para aumentar o imposto às grandes fortunas.

Nos Estados Unidos, a associação Patriotic Millionaires tenta, desde 2010, convencer as elites políticas, tanto democratas como republicanas, de que é necessário efetivar uma reforma tributária muito mais robusta, visando aquelas pessoas que possuem grandes somas de capital.

Em seu livro, Payne relata como “um pequeno grupo de pessoas muito ricas gastou um enorme volume de dinheiro para influenciar em um sistema político que redigisse leis tributárias em benefício delas”. Assim, “mesmo que estejam no poder partidos de ideologias diferentes, ocorram recessões econômicas ou explodam bolhas imobiliárias, eles, os ricos, possam assegurar os seus lucros”. Para Payne, os impostos são “um encontro entre a economia, a política e a ética”.

O que isso quer dizer? “Os impostos não são uma ferramenta que só serve para arrecadar receitas para o Estado, e depois são revertidas para o gasto público, já que o governo pode gastar e gastar sem levar em consideração a arrecadação”, argumenta a integrante de Patriotic Millionaires. “Os impostos - eles dizem - servem para restringir receitas muito altas, bem como para estabelecer normas de comportamento, entre outras coisas. A forma como tributamos as diferentes atividades econômicas fala sobre as nossas prioridades como sociedade”.Embora a solução possa parecer muito simples, como apontar para uma redistribuição da riqueza melhor e mais real, na sociedade norte-americana é um assunto mais complexo. Em primeiro lugar, porque nenhum partido político se mostra a favor de uma reforma tributária significativa. “Tanto os republicanos como os democratas, ao menos desde a era Reagan, perverteram o código tributário e geraram mais renda para os ricos”, afirma Payne. Nenhuma das duas correntes quer falar sobre impostos. “Não é uma opção que os cidadãos, atualmente, possam escolher nas urnas”, embora reconheçam que Biden prometeu um aumento dos impostos para as elites “como nenhum outro, em quase 30 anos”.

A crise sanitária que vivemos terá alguns efeitos socioeconômicos bem palpáveis nos níveis de desigualdade, que continuarão disparando. As organizações não governamentais seguem insistindo em que os governos garantam uma redistribuição da riqueza justa e mais equitativa a fim de garantir o acesso da população aos serviços públicos e suas infraestruturas, caso contrário, chegará um momento em que a distância entre ricos e pobres será tão grande que o sistema se tornará insustentável.

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Fonte das matérias reportadas:

Conheça o teor da carta e a relação dos signatários em: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/601064-mais-de-80-milionarios-pedem-impostos-sobre-a-riqueza-para-ajudar-na-recuperacao-global-pos-pandemia

 Artigo do El Confidencial:

 http://www.ihu.unisinos.br/610736-assim-e-a-nova-elite-de-bilionarios-que-querem-acabar-com-a-desigualdade -

Crédito Imagem: 

Desigualdade Social - www.mundoeducação.uol.com.br

 

 

 

 

  

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