Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

REVISITANDO AS DIMENSÕES DO AMOR - A ATENÇÃO PELO OUTRO

18 de abril de 2020


Hoje, revisitando as minhas postagens neste blog, encontrei algo que talvez nos ajude a vivenciar, com maior cuidado, a atenção pelo outro nesses dias de convivência permanente, enclausurados em nosso isolamento. 

De início, é importante que consideremos o dom de poder estar em nossos refúgios domésticos,
alguns poucos ainda em casas com jardins,  mas as varandas dos nossos apartamentos nos dão a possibilidade de ver os  retalhos de luar, o céu estrelado, o sol nascente nas madrugadas insones, e um poente avermelhado, na despedida do dia. 

Nesse tempo dominado pelo Covid-19 há quem, por razões profissionais (como médicos, enfermeiros e diversos agentes de saúde) esteja sem poder voltar à sua casa e, mesmo quando voltam, é para se recolherem sem abraços nem beijos, num quarto isolado, até que a pandemia os devolva ao convívio com a família. 

Por outro lado, há milhares de pessoas que - por inúmeras razões resultantes da má distribuição de renda e de oportunidades - fazem dos bancos de praças e beiras de rua o seu lugar de sobrevivência. Sabemos muito bem que, mesmo que tenhamos ralado para chegar onde queríamos, não é culpa dos outros, os descartados sociais, estarem no fundo do poço, ou, para ser mais realista, na lama, por trás dos tapumes que chamamos favela.

A nossa "oração" carece de mais atitude do que de palavras, precisa ser mais pé no chão, mais solidária e atenta ao clamor dos empobrecidos. 


E, por favor, não deixem soar dentro de si, o eco do homem que rezava - segundo os Evangelhos - para  agradecer a Deus por ele "não ser como os outros"... Hoje, ainda há os que vivem a olhar para si, contemplando-se feito Narciso, uma figura mítica que buscava o outro, igual a si, no espelho das águas.

O que trago hoje para vocês são dizeres de poetas e pensadores da modernidade, e das páginas encardidas das escrituras das religiões mais antigas, sobre o amor pelo outro, quem quer que ele seja. 

Que essa leitura nos ajude a rever as nossas ações no dia a dia, e os nossos pensares recônditos.

Mais do que isto.
Precisamos enxergar o julgamento inadequado que, por vezes, fazemos de alguém com quem dividimos tarefas, ou que estão ao nosso serviço, como os domésticos, porteiros, taxistas, o pessoal da limpeza das ruas, e os muitos jovens que hoje vivem sem contrato de trabalho, no vaivém das entregas em domicílio, arriscando suas vidas para sobreviverem.

O que o amor fraterno nos sugere, neste momento, quando essas pessoas continuam a nos servir? 

Esta poderia, também, ser uma boa ocasião para revermos nossas atitudes com quem compartilhamos os ideais humanitários de fraternidade, de justiça, de igualdade e de paz. A ideia de alcançar o poder "para fazer o bem" "para dar um jeito no país" pode nos encantar de tal modo, que esquecemos de começar a construir laços de diálogo e fraternização com outros, que estão do mesmo lado, mas não é do mesmo partido, ou não parte da mesma proposta que desejaríamos. Sairemos todos perdedores por esse grande equívoco.

Em casa, podemos aproveitar esse tempo de maior convivência,  sem o estresse do trabalho, para repensar o nosso jeito de amar o companheiro ou a companheira de vida, quando for o caso. É sempre tempo de enxergar os nossos exageros de querer que o outro pense e aja como nós, sem deixar a ele ou a ela o espaço de ser o que são, como são, para que o amor amadureça no diálogo e na reciprocidade. 

Se ficarmos esperando que seja o outro a dar o primeiro passo,(companheiro ou companheira, pai ou mãe, filho ou filha, namorado ou namorada, vizinho ou amigo)  esse cálculo pode ser um indicativo de que não não é o amor que me move. Pode-se chamar de competição, negociação, ato civilizatório de convivência. Aqui, no entanto, propõe-se o amor e a reciprocidade.

Vejamos o que dizem escritores e líderes religiosos, profetas ou deuses, a depender da nossa fé pessoal.

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Clarice Lispector - Sou como você me vê. / Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania / Depende de quando e como você me vê passar. (i)

Chiara LubichSe tentares viver de amor verás que, nesta terra, convém que faças a tua parte – a outra nunca sabes se virá, nem é necessário que venha. Por vezes ficarás decepcionado, mas jamais perderás a coragem se te convenceres de que, no amor, o que vale é amar”. (ii)

João Guimarães Rosa - Deus nos dá pessoas e coisas para aprendermos a alegria... / Depois, retoma coisas e pessoas, para ver se já somos capazes da alegria sozinhos... / Essa, a alegria que ele quer. (iii)

Sophia de Mello B. Andresen – “E a caridade de que ele falava não era a conhecida e pacífica praxe das comedidas esmolas regulamentares. Era um mandamento de Deus solene e rigoroso, uma palavra nua de Deus atravessando o espírito do homem”. (iv- p.57)  
“E, de repente, pareceu ao velho bispo que todo o abandono do mundo, todo o sofrimento, toda a solidão, o olhavam de frente, no rosto daquele homem. Coisa difícil de olhar de frente”. (iv-p.94) 
“Muitos anos passaram. O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas”. (iv-p.161)


Eduardo Galeano - "Nem dez pessoas iam aos últimos recitais do poeta espanhol Blas de Otero. Mas quando Blas de Otero morreu, muitos milhares de pessoas foram à homenagem fúnebre, feita na arena de touros em Madri. Ele não ficou sabendo". (v) 

"Sim, sim, por mais machucado e fodido que a gente possa estar, sempre é possível encontrar contemporâneos em qualquer lugar do tempo e compatriotas em qualquer lugar do mundo. E sempre que isso acontece, e enquanto isso dura, a gente tem a sorte de sentir que é algo na infinita solidão do universo: alguma coisa a mais que uma ridícula partícula de pó, alguma coisa além de um momentinho fugaz". (vi)



Leonardo Boff - "O amor é uma arte combinatória feita com sutileza, que demanda capacidade de compreensão, de renúncia, de paciência e de perdão e, ao mesmo tempo, de desfrute comum do encontro amoroso, da intimidade sexual, da entrega confiante de um ao outro, experiência que serve de base para entendermos a natureza de Deus, pois Ele é amor incondicional e essencial". (vii)




Abaixo, abriremos uma brecha, nas janelas de religiões e de antigas filosofias, ainda presentes na vida de milhares de pessoas no mundo contemporâneo:

Budismo - Não firas os outros, para que depois não venhas a reencontrar-te ferido. (vii)

Confucionismo - O máximo da amável benevolência é: não fazer aos outros aquilo que não gostarias que eles fizessem contigo. (viii)

Taoismo - Respeita a vitória do teu próximo como se fosse a tua, e a desgraça do teu próximo como se fosse a tua. (ix)

Induísmo - Este é o cerne do dever: não fazer aos outros aquilo que te faria mal. (x)

Islamismo - Nenhum de vós é verdadeiro crente se não desejar para o seu irmão aquilo que deseja para si mesmo. (xi)

Provérbio Ruandês - Aquilo que deres aos outros será dado a ti. (xii)

Antigo Testamento - Aquilo que é odioso para ti, não o faças ao teu semelhante.  Esta é toda a lei. (xiii)

Cristianismo - Tudo o que vocês desejarem que os outros façam a vocês, façam também a eles. Pois nisso consistem a Lei e os Profetas. (xiv)

Ubuntu – “Eu sou aquilo que tu és em mim”. (xv)

Concluo com a singela e profunda percepção de Mario Quintana, quando afirma:  "A arte de viver é simplesmente a arte de conviver... Simplesmente, disse eu? Mas, como é difícil!" (xvi)

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Fontes das Citações:

(i) As frases citadas de Clarice Lispector e de Guimarães Rosa foram retiradas de: www.pensador.uol.com.br/frase; 
(ii)  Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares. In: Ideal e Luz. 
(iii) Sophia de Mello Breyner Andersen, poetisa portuguesa - In: Contos Exemplares, Ed. Figueirinhas (Lisboa (PT), 15ª edição, 1985.
(iv) Galeano, Eduardo. O livro dos abraços, Lp&M Pocket, p.211
(v) Galeano, Eduardo. O livro dos abraços, Lp&M Pocket, p.245
(vi) The Buddha Vadanararga – 5,18 – “O Budismo  é um  sistema  filosófico  e religioso indiano, fundado por Siddharta Gautama (563-483 a.C.), o Buda, que parte da constatação do sofrimento como a condição fundamental de toda existência, e afirma a possibilidade de superá-lo através da obtenção de um estado de bem-aventurança integral, o nirvana. O budismo não professa a existência de nenhum deus”.
(vii) Confucio, Analects (25,23) – Confucianismo –  “Designação atribuída no Ocidente às doutrinas e ao sistema de pensamento elaborado pelo filósofo e teórico político chinês K'ung ch'iu (tb. dito Khong-Fon-Tseu, K'ung-fu-tzu, K'ung-tzu ou, no Ocidente, Confucio [551 a.C.- 479 a.C.]) e por seus continuadores [Foi doutrina política, religião e código de ética oficial do império chinês de 136 a.C. até 1912.]”.
(viii) Loo Tzu Tai Shang Kan Ying Phen – 213-218 –  O Taoismo da cultura chinesa, é uma “doutrina mística e filosófica formulada no Século VI a.C. por Lao Tse e desenvolvida a partir de então por inúmeros epígonos, que enfatiza a integração do ser humano à realidade cósmica primordial, o tau, por meio de uma existência natural   espontânea e serena [Seu caráter contemplativo, na vida religiosa chinesa, é o principal rival do racionalismo pragmático que caracteriza o confucianismo.]”.
(ix) Mahabharata Islamismo (Maometanismo, Mulçumanismo) – diz-se de “religião caracterizada por monoteísmo estrito e síntese entre fé religiosa e organização sociopolítica, fundada pelo profeta árabe Maomé (570 ou 580-632), que codificou sua doutrina em um livro sagrado, o Corão, que se tornou o fundamento escrito da fé muçulmana”.
(x) Provérbio Ruandês - Religião tradicional da República Ruandesa (Ruanda), país do Centro-Leste africano.
(xi) Ubuntu – Filosofia seguida por alguns povos africanos, prestigiada por Mandela e pelo cardeal Desmond Tutu, cuja centralidade é “o respeito pelo outro”;
(xii) Maomé, 13º dos 40 Hadiths Nawawi – Ver "islamismo".
(xiii) 31, Sabbat Ta Iaud Babilonese – O hebraico é a língua da família semítica falada pelos hebreus, na qual foi escrito quase todo o Velho Testamento (a Bíblia aceita pelo judaísmo); No século XIX, após transformações históricas, o hebraico ressurgiu com o movimento sionista e tornou-se língua oficial do Estado de Israel;
(xiv)  Jesus Cristo, no Evangelho segundo Mt. 7,12
(xvi) Mário Quintana - www.pensador.uol.com.br/frase 

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Crédito das Imagens:

1. Abelardo da Hora - "Enamoramento" - foto de exposição realizada no Recife.
2.Narciso - Caravaggio - https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Narcissus-Caravaggio_(1594-96).jpg
3. Clarice Lispector - www.lounge.obviousmag.org
4. Chiara Lubich - www.focolares.org  - foto divulgação
5. Eduardo Galeano - www.escritores.org.index.jpg 
6. Leonardo Boff - twitter.com.jpg


Nota:  As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas, e deseja que seja retirada desta publicação, por favor entre em contato conosco fazendo um comentário nesta postagem.

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