Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

RELIGIÃO E EVANGELHO EM TEMPOS DO COVID-19

21 de abril de 2020





Neste período em que muitos temos procurado seguir a orientação de FICAR EM CASA - para nos proteger a nós e aos outros de contaminação - tenho buscado trazer aos leitores deste espaço textos mais reflexivos, que nos alimente interiormente de modo a nos fortalecer, nesta longa quarentena, para enfrentarmos os dias que virão. Um tempo que, certamente, não será como antes. O que se sabe é que uma catástrofe sanitária e social desta natureza - inserida na desastrosa e preocupante situação política que todavia nos atinge, no Brasil - nos aponta cenários que, até agora, os filósofos, sociólogos, historiadores, psicólogos e políticos apenas estão tateando para tentarem balbuciar as primeiras intuições.

Hoje trazemos da Espanha uma reflexão de forte densidade e iluminação. 
Eu ousaria traduzir o que o autor - José Maria Castillo - chama de Evangelho para Espiritualidade - a fonte de vida que dá sentido ao nosso viver, move o nosso agir em toda circunstância, fundamenta as nossas mais importantes e mais simples decisões, e nos convoca a viver o momento, como fosse o último

Segue o artigo citado.

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O CORONAVÍRUS NOS FAZ PERCEBER A
DIFERENÇA ENTRE RELIGIÃO E EVANGELHO
 

Religião e Evangelho são meio ou caminhos opostos para buscar a Deus. Foi preciso o coronavírus, para que as pessoas se dessem conta da diferença entre religião e evangelho”, escreve José María Castillo, teólogo espanhol. 



Artigo de: José Maria Castilho
Religión Digital.org
Tradução de: Wagner Fernandes de Azevedo.


Uma das coisas que estão se tornando mais evidentes nessa enorme desgraça que estamos sofrendo – a pandemia de coronavírus – é a diferença entre religião e evangelho. Porque são duas coisas muito diferentes. E, em alguns assuntos de enorme importância, são experiências e práticas contraditórias. Foi preciso uma desgraça assustadora, como o coronavírus, para muitas pessoas perceberem a diferença entre a religião e o evangelho.

Explico-me. Uma das coisas mais óbvias que estamos vendo, hoje em dia, é que manifestações públicas de religião (procissões, cerimônias religiosas solenes, funções sagradas nos templos etc.  são um obstáculo e até um perigo. Pelo contrário, (em alguns casos e até alguns dias atrás),  sentíamos falta de que, na vida e na convivência diária o evangelho estivesse mais presente na cura dos doentes, na atenção aos mais infelizes e vulneráveis, como aqueles que vivem em perigo de morte (mendigos, idosos, marginalizados, moribundos) ou mesmo os mortos.

O que é compreensível. Porque “religião” e “evangelhosão meios ou maneiras de buscar a Deus. Mas, são meios ou caminhos opostos. A "religião" é um conjunto de crenças, normas e ritos, para acalmar a consciência. O “evangelho” é um “modo de vida” que coloca todo o seu interesse em remediar o sofrimento daqueles que têm dificuldades. E tudo isso explica por que a “religião” tem o seu centro “no sagrado”, enquanto o “evangelho” tem o seu centro no “humano”.

Isto explica por que, segundo o Evangelho, Deus se encarnou. O que significa: Deus se humanizou. Antes de tudo, em Jesus de Nazaré. Assim, o próprio Jesus poderia dizer ao apóstolo Felipe: “Quem me viu, viu o Pai... Como é que você diz, mostra-nos o Pai?” (Jo 14, 9). No entanto, Deus não se encarnou só em Jesus. Deus está presente em cada ser humano. Por isso, o próprio Deus dirá a cada um no juízo final: Eu vos asseguro: o que fizestes a estes meus irmãos menores, a mim o fizestes”. (Mt 25,40).

O fundo da questão está em algo que não entra em nossa cabeça. Em nossa intimidade mais profunda, sempre nos colocamos questões que não encontram resposta. Muitas vezes fugimos de nós mesmos ou tentamos fugir, procurando soluções na diversão ou no egoísmo. Soluções de emergência que duram pouco. Mas, lá dentro de nós permanecem as questões e o vazio. 

Há, também, aqueles que buscam resposta na  religião. Embora os  ritos religiosos sejam ações que, devido ao rigor da observância das normas, acabam constituindo um fim em si mesmo. Com isso, nem resolvem seu problema, nem vão a lugar algum. Concluindo: quando focamos nossa vida no “ethos”, na conduta da honradez e da bondade, num projeto de vida que nos humaniza, que nos torna pessoas honestas e abertas para o outro, então nos encontramos no Evangelho.

É com um “projeto de vida” que humanizamos nossas vidas, e, com isso, nos contagiamos de bem-estar e paz, e seremos felizes, mesmo  aguentando as pandemias que podem nos invadir.

Que enorme equívoco se cometeu na Igreja quando, com o passar dos anos, se acabou fundindo e confundindo o Evangelho  com a Religião!

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Fonte da tradução do texto original: 


Texto original em espanhol:


Observação:  As citações dos evangelhos, nesta versão portuguesa aqui publicada, foram copiadas da Bíblia do Peregrino - Novo Testamento - Ed. Paulus, 3ª edição, 2005.

Créditos das Imagens:

1. Imagem de abertura - integrada no texto original in: www.religióndigital.org
2. Imagem do autor: José Castillo - www.castilho.publico.es.jpg
3. Papa Francisco recebe José Maria Castillo - www.redescristianas.net.jpg


Nota:  As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas, e deseja que seja retirada desta publicação, por favor entre em contato conosco fazendo um comentário nesta postagem.


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