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CUIDAR DAS NOSSAS RELAÇÕES - AMIZADE E AMOR - LEONARDO BOFF

12 de abril de 2020



Neste domingo de Páscoa chegamos ao capítulo final do texto de Leonardo Boff sobre o cuidado de si e do outro, as relações humanas, a Amizade e o Amor. 
Continuamos a sugerir que os leitores deste blog deixem os seus comentários, mesmo se anônimos, de modo que possamos entender sobre os temas de seu interesse.




CUIDAR DAS NOSSAS RELAÇÕES
                    
                      A AMIZADE E O AMOR



Por: Leonardo Boff
                       
O cuidado como precaução especial, também, nas nossas relações. Essas devem estar sempre abertas a serem construtoras de pontes.

Tal propósito implica superar as estranhezas e os preconceitos. Aqui importa sermos vigilantes e travarmos uma luta forte contra nós mesmos e os hábitos culturas estabelecidos. Albert Einstein, sabedor das dificuldades inerentes a este esforço, ponderou, não sem razão, que “é mais fácil desintegrar um átomo, que remover um preconceito da cabeça de uma pessoa”.
Cada vez que encontramos alguém, estamos diante de uma emergência nova, oferecida pelo universo ou por Deus, uma mensagem que somente esta pessoa pode pronunciar, e que pode significar uma luz em nosso caminho.
Nós passamos uma única vez por este planeta. Se eu puder fazer algum bem ao outro, não devo postergá-lo ou negligenciá-lo. Dificilmente o irei encontrar outra vez sobre o mesmo caminho. Isso vale como disposição de fundo de nosso projeto de vida.
Importante é preocupar-nos com a nossa linguagem.
Somos os únicos seres de fala. Pela fala, como nos ensinaram Maturana e Wigenstein, organizamos as nossas experiências, colocamos ordem nas coisas e criamos a arquitetônica dos saberes. Bem cantam os membros das Comunidades Eclesiais de Base do Brasil: ”Palavra não foi feita para dividir ninguém/Palavra é a ponte onde o amor vai e vem”.
Pela palavra construímos ou destruímos, consolamos ou amarguramos, criamos sentidos de vida ou de morte. As palavras, antes de definirem um objeto ou dirigirem-se a alguém, nos definem a nós mesmos. Falam sobre quem somos e revelam em que mundo habitamos.

Cuidado com nossa relação maior:
                    a amizade 

Há um cuidado especial que devemos cultivar sobre duas realidades fundamentais em nossa vida: a amizade e o amor.   Muito se tem escrito sobre elas. Aqui, nos restringimos ao mínimo.  

A amizade é aquela relação que nasce de uma ignota afinidade,  de  uma simpatia de todo inexplicável, de uma proximidade afetuosa para com a outra pessoa. Entre os amigos e amigas cria-se como que uma comunidade de destino. A amizade vive do desinteresse, da confiança e da lealdade. A amizade possui raízes tão profundas que, mesmo passados muitos anos, ao reencontrarem-se, os amigos ou amigas, os tempos se anulam e se reatam os laços e até a recordação da última conversa.


Cuidar das amizades é preocupar-se pela vida, pelas penas e alegrias do
amigo ou amiga.

É oferecer-lhe um ombro, quando a vulnerabilidade o visita, e o desconsolo lhe
rouba as estrelas-guias. É no sofrimento e no fracasso existencial, profissional ou amoroso que se comprovam os verdadeiros amigos ou amigas. Eles são como uma torre fortíssima que defende o castelo de nossas vidas peregrinas.




Cuidado com a nossa relação maior: o amor

Relação mais profunda e a que mais realizações de felicidade traz ou de mais dolorosas frustrações é a experiência do amor. Nada é mais precioso e apreciável do que o amor. Ele vive do encontro entre duas pessoas que se trocaram olhares, e sentiram uma misteriosa atração mútua  que moveram os seus corações. Resolveram fundir as vidas, unir os destinos, compartir as fragilidades e as benquerenças da vida.
Estes valores, por serem os mais preciosos, são os mais frágeis, porque são os mais expostos às contradições da humana existência.
Cada qual é portador de luz e de sombras, de histórias familiares e pessoais, cujas raízes alcançam arquétipos ancestrais, marcados, também, pelas experiências felizes ou dramáticas que deixaram marcas na memória genética de cada um.
O amor é uma arte combinatória de todos estes fatores, feita com sutileza que demanda capacidade de compreensão, de renúncia, de paciência e de perdão e, ao mesmo tempo, de desfrute comum do encontro amoroso, da intimidade sexual, da entrega confiante de um ao outro, experiência que serve de base para entendermos a natureza de Deus, pois Ele é amor incondicional e essencial.
Quanto mais alguém é capaz de uma entrega total, maior e mais forte é o amor. Tal entrega supõe extrema coragem, uma experiência de morte, pois não se retém nada e se mergulha totalmente no outro.
O homem possui especial dificuldade para este gesto extremo, talvez pela herança de machismo, patriarcalismo e racionalismo de séculos que carrega dentro de si e que limitam, em si, a capacidade desta confiança extrema.
A mulher é mais radical: vai até o extremo da entrega no amor, sem resto e sem retenção. Por isso seu amor é mais pleno e realizador e, quando é frustrado, a vida revela contornos de tragédia e de um vazio abissal.

O segredo maior para cuidar do amor reside nisso: singelamente, cultivar a ternura mútua. A ternura vive de gentileza, de pequenos gestos simbólicos que revelam o carinho, de sinais pequenos, como recolher da praia uma concha e levá-la à pessoa amada e dizer-lhe que, naquele momento, pensou carinhosamente nela.
Tais “banalidades” têm um peso maior do que a mais preciosa joia. Assim como uma estrela não brilha sem uma aura ao seu redor, da mesma forma, o amor não vive nem sobrevive sem uma atmosfera de afeto, de enternecimento e cuidado.

 O cuidado é uma arte. Como pertence à essência do humano, sempre está disponível. Tudo o que vive, precisa ser alimentado. Assim, o cuidado se alimenta de ternura e de vigilante preocupação pelo futuro de si próprio e especialmente do outro.
Isso se alcança reservando-se, às vezes, momentos de reflexão sobre si mesmo, fazendo silêncio ao seu redor, concentrando-se nalguma leitura que alimente o espírito e, não em último lugar, entregando-se à meditação e à abertura Àquele maior que detém o sentido de nossas vidas e conhece todos os nossos segredos.

Conclusão: o cuidado é tudo
O cuidado é tudo. Sem ele, ninguém de nós existiria. Quem cuida ama, quem ama cuida. Cuidemo-nos uns aos outros, particularmente nestes momentos dramáticos de nossas vidas, pois elas correm perigo e podem afetar o futuro da vida e da humanidade sobre esse pequeno planeta, que é a única Casa Comum que temos.
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Leonardo Boff escreveu Saber cuidar: ética do humano-compaixão pela Terra, Vozes muitas edições 2018 e A força da ternura, Mar de Ideias, Rio 2016.

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Fonte do texto:



Créditos das imagens

1. Imagem de: www.canstockphoto.com.br
2. Leonardo Boff - reprodução.
Imagens 3,4,5,6 e 7 - www.canstockphoto.com.br


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