Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

CONVERSAS EM FAMÍLIA

1 de agosto de 2014

Almoçamos na cidade. A ideia foi conversar com calma sobre as nossas três, que continuam a crescer... Estamos convencidos de que é necessário assumir caminhar em busca de alcançarmos uma vida mais sóbria. E cuidar melhor do afeto e do espaço de liberdade das crianças. Se formos pensar nos hábitos que adquirimos até aqui, não será fácil engendrar pelo caminho da sobriedade, da temperança, da atenção com os excessos.


Entendemos que Letícia, agora com oito anos, precisaria participar mais das tarefas de casa. Assim, pensamos em transferi-la para o turno da tarde, na escola. Além de fazê-la assumir as tarefas que lhe cabem, o período da manhã em casa lhe dará mais chance de estudar, sem ser interrompida com as brincadeiras das irmãs menores.  Conversei com ela e lhe falei dessa possibilidade, lembrando que talvez, de início, ela teria uma dificuldade: não iria encontrar seus coleguinhas do ano passado. Ela comentou: – Não tem problema: eu posso fazer novos amigos na outra classe. 

Essa segurança tranquila de Letícia me fez pensar o quanto minhas filhas têm demonstrado firmeza naquilo que querem. É o que me fazem perceber no dia a dia. Outros fatos têm sido um alerta para que eu aprenda a conviver com elas, repensando, com cuidado, o meu modo de ser.

Dia desses, no horário de dormir, Verinha (seis anos), não queria tomar banho nem por a camisola. E me disse: – Você sabe que eu não nasci pra ser obrigada!  Não ficou por ai: explicou-me que não gosta dessa história de ter que tomar banho todos os dias, dormir todos os dias, comer todos os dias... Tudo obrigado!


Carlinha (cinco anos) se expressou quanto ao meu jeito de falar com ela. Eu lhe havia dito pra fazer alguma coisa, e ela me respondeu:   Não quero fazer isso não. Ao que insisti que me obedecesse. E Ela: Você não é minha dona, você é somente minha mãe! 

Recordo que ainda aos quatro anos, essa minha caçula me deu outra forte lição de vida: fui levá-la à escola e, alterando a rotina, segui com ela até a sala de aula. No caminho, ela me perguntou: Por que você está indo até a sala de aula?  – Porque preciso explicar à sua professora o motivo de você ter faltado ontem. Ela me olhou de frente e disse: Eu sei explicar à professora que fui ao dentista. Se ela não acreditar em mim, o que é que a gente pode fazer?


Era a hora do almoço e estávamos todos assentados em torno da mesa. Mas, Letícia continuava no quarto a preguiçar na cama. Ao nosso chamado, não atendeu; fui até lá e lhe expliquei que estávamos a esperá-la para iniciar a refeição. Ela demorou um pouco a reagir. Depois, ainda deitada, comentou:  Vocês adultos podem chegar do trabalho e ir direto para o quarto, e até deixam pra almoçar mais tarde, quando querem. Por que as crianças não têm esse direito? 


Fiquei pasma. Recuperando-me, disse que tudo bem, se ela estava cansada poderia almoçar mais tarde. Curioso é que após alguns minutos a vimos chegar e participar conosco da refeição.

Cada vez que elas me dão essas lições de vida, deixam-me profundamente pensativa. Escrevo essas memórias para buscar entender melhor os caminhos a tomar. Acredito que é tempo de reconsiderar os trejeitos do meu caráter forte, esse meu jeito de querer organizar tudo, prever tudo, e às vezes de pensar por todos. Há muito ainda que aprender com as minhas filhas!

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(*) Texto de 1981

Fotos - arquivo pessoal (sem permissão de uso).







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