Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

HISTÓRIA DE UM CASAMENTO

2 de agosto de 2014

Gostaria de saber dizer, em poucas palavras, os bons momentos que vivi ao lado do meu companheiro e pai das minhas filhas, da forma mais aproximada possível da realidade – um tempo especial de troca, de afeto, de respeito e de cooperação nas questões da família e do nosso trabalho. Quando estávamos a sós, a conversa era rica e instigante, cheia de intuições e boas ideias.  

De início éramos duas pessoas inexperientes, vivíamos na expectativa permanente de atenção e afeto: nossa compreensão do amor flutuava à procura de uma unidade de visão; o outro devia ceder o seu ponto de vista em benefício da harmonia conjugal, como se nos prendessem laços quebradiços e frágeis – os dois ainda em busca da profundeza do sentimento.

Que elementos, que graça, que passos nos levaram ao momento do encontro?  
Caminhamos na direção da sensatez, do equilíbrio, da ponderação e, no diálogo, fomos aprendendo a nos ver de forma diversa, a valorizar o outro na liberdade de ser ele mesmo, de pensar ao seu jeito, de ser diferente de mim.  

Aos poucos, aprendemos jeitos e oportunidades de estar juntos e de estar a sós; ouvíamos as preferências de lazer entre nós, e com os amigos, respeitando, também, nossas amizades ou eventos pessoais. Entendemos que não éramos nem podíamos ser "um só", forçando as nossas identidades. Vez por outra o bem-querer nos levava a ceder, e escolher a preferência do outro, no momento de sair juntos ou nos permitindo de sair sozinhos, quando devíamos escolher como nos divertir.  E assim, descobrimos que, curtir o que o outro gosta é gesto de amor, e não uma obrigação. 

Foi no respeito mútuo e no aprendizado da reciprocidade que nos encontramos na profundeza do sentimento. O casamento por si só não promove o encontro – carece de uma sincera convivência, dia após dia, e de atitudes de atenção sincera e amizade. 

Tive por companheiro uma pessoa que não gostava da superficialidade, e buscava a profundidade nas coisas que procurava. E quando lhe chegavam certas intuições na vida, deixava-se levar intensamente.  Eu me expressava de outra forma: sou inquieta, obstinada, gosto de planejar, sempre em busca de ensaiar a fraternidade, uma filosofia de vida que se entranhou em mim desde os tempos da adolescência. E, para me divertir, sou sensível às artes que sempre me iluminam nos diferentes momentos da vida.  

As diferenças entre nós nos fizeram viver dias bonitos e alegrias em amorosa cumplicidade.  À medida que  fomos amadurecendo nos sentíamos mais livres e mais companheiros de jornada. 

Hoje celebro um momento de gratidão à Vida, por tudo o que vivenciamos juntos, pelos tempos de amor que nos permitimos, pelas filhas que tivermos. E aceito em paz o grande impacto da nossa separação. Restou-me respeitar o mistério que cada um carrega em si, e que nos induz a tomar novos caminhos. 

Terá sido a sua fiel coerência consigo mesmo que o fez mudar?
Terá sido a minha obstinação de não me acomodar, não cerrar as porteiras da vida, me permitindo enveredar por caminhos imprevisíveis?

Estou certa de que não foram os fatos que nos separaram. Havia a escolha do diálogo e do perdão. Mas... embora envidando os esforços possíveis - cada um como lhe foi possível - já não conseguíamos nos reconhecer nem nos tratar como antes.  

Anos depois houve um momento solene do nosso reencontro, quando a doença e a dor o colocava diante do chamamento final da vida. Fui me despedir, no seu novo lar. Deixaram-nos a sós por um momento. Fisicamente não parecia ser a pessoa que eu amava, mas o encontrei essencialmente ele mesmo. Tomou as minhas mãos, e o nosso olhar se encontrou na carícia essencial daquele momento. Ele assumiu a sua posição de cuidador, de quem sabia amar como sempre fez, e me disse, solene:
- Fica tranquila, eu já fiz as pazes com Ele e comigo mesmo. 
Agora estou preparado para partir em paz. 


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Texto original - 1981.

Fonte das imagens:   1.  Obra de Rodin - fotografia
                               2.  Foto: arquivo da família.


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