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GABRIELA MISTRAL - EL IMAGINERO / O SANTEIRO / L' ARTIGIANO

1 de julho de 2020



Neste período de pandemia, os festejos religiosos tradicionais, em quase todo o país, se restringiram à passagem solitária da Custódia, no dia de Corpus Christi, e das imagens de Santo Antônio, São João e São Pedro, pelas ruas das cidades, sem nenhuma procissão. Mas as famílias do Nordeste não dispensaram a tradição das canjicas e bolos, mesmo sem fogueiras, para celebrar a boa colheita do milho.
Em relação a essa tradição das imagens, ainda muito viva na tradição da Igreja Católica, há um raro poema da grande poetisa chilena, Gabriela Mistral (1889/1957) que, já em sua época, questionava essa tradição das imagens religiosas. Escrito em espanhol, o poema intitula-se "El Imaginero". Para os leitores deste blog, fiz uma versão livre, em português (O Santeiro), e em italiano ( L'artigiano). 

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Gabriela Mistral (1889/1957) – pseudônimo de Lucila Godoy Alcayaga – foi uma ilustre chilena que alcançou o respeito de insigne poeta, experiente pedagoga e ilustre pensadora da sua época. Foi a primeira mulher diplomata ibero-americana a receber o Prêmio Nobel de Literatura (1945). Na ocasião, ela afirmou:
«Por um acaso que me ultrapassa, sou neste momento a voz direta dos poetas da minha raça e a voz indireta das nobres línguas espanhola e portuguesa. Ambas se alegram por terem sido convidadas ao convívio da vida nórdica, toda ela assistida por seu folclore e sua poesia milenários».
Gabriela Mistral foi cônsul chilena em Los Angeles, Nova York e no Brasil. Em 1954, a convite do presidente chileno Carlos Ibáñez, ela foi recebida com honrarias no palácio da Moneda, e recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade do Chile.  É considerada uma das figuras mais relevantes da literatura chilena e latino-americana. Dos seus livros se destacam: Desolación (1922), Ternura (canciones para los niños)-1923; Nubles Blancas - 1930; Tala - 1938. Mistral morreu aos 68 anos, em janeiro de 1957, na cidade de Nova York.
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El Imaginero                           

      Poema de: Gabriela Mistral
       Prêmio Nobel de Literatura-1945

       ¡De qué quiere Usted la imagen?
Preguntó el imaginero:
Tenemos santos de pino,
Hay imágenes de yeso,
     
       Mire este Cristo yacente,
Madera de puro cedro,
Depende de quién la encarga,
Una familia o un templo,
O si el único objetivo
Es ponerla en un museo.
Déjeme, pues, que le explique,
Lo que de verdad deseo.
Yo necesito una imagen
De Jesús El Galileo,
Que refleje su fracaso
Intentando un mundo nuevo,
Que conmueva las conciencias
Y cambie los pensamientos.

Yo no la quiero encerrada
En iglesias y conventos.
Ni en casa de una familia
Para presidir sus rezos,
No es para llevarla en andas
Cargada por costaleros.

       Que ilumine a quien la mire
El corazón y el cerebro.
Que den ganas de bajarlo
De su cruz y del tormento,
Y quien contemple esa imagen
No quede mirando un muerto,
Ni que con ojos de artista
Sólo contemple un objeto,
Ante el que exclame admirado
¡Qué torturado mas bello!
Perdóneme si le digo,
Responde el imaginero,
Que aquí no hallará seguro
La imagen del Nazareno.
Vaya a buscarla en las calles
Entre las gentes sin techo,
En hospicios y hospitales
Donde haya gente muriendo
En los centros de acogida
En que abandonan a viejos,
En el pueblo marginado,
Entre los niños hambrientos,
En mujeres maltratadas,
En personas sin empleo.
Pero la imagen de Cristo
No la busque en los museos,
No la busque en las estatuas,
En los altares y templos.
Ni siga en las procesiones
Los pasos del Nazareno,
No la busque de madera,
De bronce de piedra o yeso,
¡mejor busque entre los pobres
Su imagen de carne y hueso!
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      O Santeiro
       Por: Gabriela Mistral 
       Versão portuguesa de: Vanise Rezende

       

De que quer você a imagem?
Perguntou-lhe o santeiro:
Temos santos de pino,
Há imagens só de gesso
Olhe este Cristo jacente,
Madeira pura de cedro,
Quem encomenda decide,
Uma família, uma igreja,
Ou se apenas o desejo
É expô-lo em um museu.
Deixe-me, pois, que lhe explique,
O que penso de verdade.

Eu necessito uma imagem
De Jesus, o Galileu,
Que reflete o seu fracasso
Em busca de um mundo novo,
Que comova as consciências,
E mude os pensamentos.


     


       
       Eu não a quero guardada
Em igrejas e conventos.
Nem em casas de família
A presidir orações,
E que não siga em andores
Nas costas de voluntários. 
       Que ilumina a quem o olhe 
       
       O coração e o cérebro.
       Que o queiras retirá-lo      
       De sua cruz e tormento,
       E quem contemple a imagem
       Não pare a olhar um morto,
       Nem com os olhos de artista
       Só contemple a figura
       Diante da qual exclame
       “Que belo esse torturado!”
       Perdoe-me se inda lhe digo,
       - responde ainda o santeiro –

Aqui não estará segura
A imagem do Nazareno.
Vá procurá-la nas ruas
Entre o povo sem abrigo,
Nos hospitais e hospícios
Onde há gente morrendo,
Nos centros de acolhida
Onde abandonam os velhos,
No povo com fome e medo,
Entre as crianças famintas,
Nas mulheres maltratadas,
E em pessoas sem emprego.
Mas a imagem de Cristo
Não a cerques nos museus,
E nem mesmo nas estátuas
Dos altares e dos templos.
Não sigas nas procissões
Os passos do Nazareno,
Nem o busques de madeira,
De bronze, de pedra ou gesso,
O encontrarás entre os pobres 
       Sua imagem em carne e osso! 

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L’artigiano


Poesia de Gabriela Mistral
Premio Nobel de Literatura-1945
Versione in italiano di Vanise Rezende 



Come volete l’immagine?
Le domandò l’artigiano:
Abbiamo santi di pino,
Ci sono quelli di gesso,
Guarda il Cristo giacente,
Un legno di puro cedro.
Dipende di chi lo vuole,
Una famiglia o un templo,
Oppure se l’obbiettivo
Sia portarlo in museo.

Intanto lascia-mi dirti
Il che di fatto desidero. 


Ho bisogno di una immagine
Di Gesù, Il Galileo,
Che ritratti il suo fiasco
Costruendo un mondo nuovo,
Che commuova coscienze
E cambi anche i pensieri.
Io non lo voglio raccolto
Nelle chiese e conventi.
Neppure con le famiglie
Per presiedere orazioni.
Né per essere portato
Dagli uomini devoti.

Voglio una immagine viva
Di Gesù Uomo, soffrente,
Che il cuore e la mente 
Di chi lo guardi, s’illumini.
Che ci vadano a toglierlo
Dalla croce e del tormento,
E chi contempli il suo volto
Non resti a vederlo morto,
Né con occhi di uno artista
Solo contempli l’oggetto,
E si esprima ammirato:
“Che bello, il torturato!”


Mi perdoni se gli dico,
Spiega l’uomo artigiano,
Qui non starebbe sicura
L’immagine del Nazareno!

Vai cercarlo per le strade
Tra la gente senza tetto
Negli ospizi e ospedali
Dove c’è gente morenti.
Là nei centri d’accoglienza
Dove abbandonano i vecchi,
Tra i bambini affamati
Tra le donne maltrattate
E persone senza impiego.

Però l’immagine di Cristo
Non la cerchi nei musei
Né la ricerchi in statue
Negli altari e nei templi.
Né segua in processione
I passi del Nazareno.
Non Lo troverai di legno
Di bronzo, pietra o gesso.
Meglio è cercarlo trai poveri

Suo viso in carne ed osso! 

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 Fonte das informações:  https://es.wikipedia.org/wiki/gabriela_mistral#mw-head
                  
  Principais prêmios recebidos:

                        1945: Premio Nobel de Literatura
             1947: Doctor Honoris Causa por el Mills College of Oakland (California)
              1950: Premio Serra de las Américas
              1951: Premio Nacional de Literatura de Chile

Entre los muitos doutorados honoris causa que recebeu, destacam-se os da  Universidad Nacional de Guatemalade California em Los Ángeles y de Florença, além do que lhe foi outorgado pela Universidad de Chile, em 1953 .


Crédito das imagens:
                            
        1. "La ciudad de Santiago a Gabriela Mistral" - mural de Fernando Daza, 
             em cerâmica - 1971.
        2.  Gabriela Mistral - www.folha.uol.com.br.jpg
        3.  Imagem de Cristo crucificado - www.pinterest.com
        4.  Moisés de Michelangelo - Igreja de San Pietro in Vincola (Roma).
        5.  A San Damiano - www.a.muse.arte.jpg
        
Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas, e deseja que seja retirada desta publicação, por favor entre em contato conosco fazendo um comentário nesta postagem.


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