Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

FRANCISCO : "UMA TRÁGICA FOME DE ESPERANÇA"

8 de junho de 2020

Dada a importância do conteúdo da homilia de Papa Francisco, por ocasião da celebração de Pentecostes, transmitida da Catedral de São Pedro - no domingo 31/05/2020 - reproduzimos aqui o texto na sua íntegra, divulgado pelo Vaticano. 

Introduzimos o seu discurso com trechos de uma fala de Papa Francisco por ocasião da celebração anual de oração pela evangelização, que reuniu expoentes de diferentes Igrejas Cristãs de todo o mundo. Este ano a celebração foi realizada online, devido a pandemia do Covid-19.(*)



Participaram da cerimônia  Papa FranciscoJustin 
Welby, arcebispo de 
Canterbury Cantuária, em Londres; o arcebispo de  York, Dr. John Sentamu; 
o arcebispo Angaelos, da Igreja Copta Ortodoxa de Londres; o pastor Agu Irukwu, presidente pentecostal da Churches Together, na Inglaterra;  Heidi  Crowter,  defensora das pessoas com síndrome de DownThelma Commey, presidente da Juventude Metodista.

Na ocasião, Papa Francisco convidou a todos os seguidores de Cristo, a serem “mais profundamente unidos como testemunhas da misericórdia para a família humana tão severamente provada nestes dias” e a “pedir ao Espírito o dom da unidade, pois somente se vivermos como irmãos e irmãs poderemos espalhar o espírito da fraternidade”. E exorta todos os cristãos a buscarem um novo derramamento do Espírito Santo, a fim de serem portadores do amor, da luz e da esperança de Cristo, em um mundo “que está experimentando uma trágica fome de esperança”, mas também a exigirem o afastamento da “busca egoísta de sucesso sem cuidar dos que são deixados para trás e a estarem unidos para enfrentar as “pandemias do vírus e da fome, da guerra, do desprezo pela vida e da indiferença aos outros”.

O nosso mundo está experimentando uma trágica fome de esperança. Quanta dor está à nossa volta, quanto vazio, quanto sofrimento inconsolável. Tornemo-nos, então, mensageiros do conforto concedido pelo Espírito. Irradiemos esperança, e o Senhor abrirá novos caminhos enquanto avançamos para o futuro.”

Acesse o vídeo do evento ecumênicohttps://youtu.be/ncN_RJM7pqA

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HOMILIA DO PAPA FRANCISCO
NA SOLENIDADE DE PENTECOSTES

Basílica de São Pedro
Domingo, 31 de maio de 2020





«Há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo»: assim escreve Paulo aos Coríntios. E continua: «Há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; e há diversos modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos» (1 Cor 12, 4-6). Diversidade e o mesmo, diversos e um só: o Apóstolo insiste em juntar duas palavras que parecem opostas. Quer-nos dizer que este um só que junta os diversos é o Espírito Santo. E a Igreja nasceu assim: diversos, unidos pelo Espírito Santo.

Recuemos até aos inícios da Igreja, no dia de Pentecostes, e fixemos os Apóstolos: entre eles, temos pessoas simples, habituadas a viver do trabalho das suas mãos, como os pescadores, e está Mateus, certamente dotado de instrução pois fora cobrador de impostos. Existem origens e contextos sociais diversos, nomes hebraicos e nomes gregos, temperamentos pacatos e outros ardorosos, ideias e sensibilidades diferentes. 

Eram todos diferentes. Jesus não os mudara, nem os uniformizara, tornando-os modelos em série. Não. Deixara as suas diversidades; e agora une-os, ungindo-os com o Espírito Santo. A união – a união deles que eram diversos – vem com a unção. No Pentecostes, os Apóstolos compreendem a força unificadora do Espírito. Veem-na com os próprios olhos, ao constatar que todos, apesar de falar línguas diversas, formam um só povo: o povo de Deus, plasmado pelo Espírito, que tece a unidade com as nossas diferenças, que dá harmonia porque, no Espírito, há harmonia. Ele é a harmonia.

Mas voltemos à Igreja de hoje. Podemos interrogar-nos: «O que é que nos une, em que se baseia a nossa unidade?» Também entre nós existem diversidades, por exemplo de opinião, preferência, sensibilidade. A tentação, porém, é defender sempre de espada desembainhada as nossas ideias, considerando-as boas para todos e pactuando apenas com quem pensa como nós. E esta é uma tentação ruim, que divide. 

Mas, esta é uma fé à nossa imagem, não é aquilo que deseja o Espírito. Nesse caso, poder-se-ia pensar que aquilo que nos une fossem as próprias coisas em que acreditamos e os próprios comportamentos que adotamos. Mas não! Há muito mais: o nosso princípio de unidade é o Espírito Santo. E a primeira coisa que Ele nos lembra é que somos filhos amados de Deus; nisto, todos iguais e, todavia, somos todos diferentes. O Espírito vem a nós, com todas as nossas diversidades e misérias, para nos dizer que temos um só e mesmo Senhor, Jesus, um só e mesmo Pai; por isso, somos irmãos e irmãs. 

Partamos daqui! Olhemos a Igreja como faz o Espírito, não como faz o mundo. O mundo vê-nos de direita e de esquerda, com esta ideologia, com aquela; o Espírito vê-nos do Pai e de Jesus. O mundo vê conservadores e progressistas; o Espírito vê filhos de Deus. O olhar do mundo vê estruturas, que se devem tornar mais eficientes; o olhar espiritual vê irmãos e irmãs implorando misericórdia. O Espírito ama-nos e conhece o lugar de cada um no todo: para Ele não somos papelinhos coloridos levados pelo vento, mas ladrilhos insubstituíveis do seu mosaico.

Tornamos ao dia de Pentecostes e descobrimos a primeira obra da Igreja: o anúncio. Vemos, porém, que os Apóstolos não preparam uma estratégia; quando estavam fechados lá, no Cenáculo, não montavam a estratégia, não; não preparavam um plano pastoral. Teriam podido dividir as pessoas por grupos segundo os vários povos, falar primeiro aos de perto e depois aos que eram de longe, tudo bem ordenado... 

Teriam podido temporizar um pouco no anúncio e, entretanto, aprofundar os ensinamentos de Jesus, para evitar riscos... Mas não! O Espírito não quer que a recordação do Mestre seja cultivada em grupos fechados, em cenáculos onde tendemos a «fazer o ninho». E esta é uma doença má que pode vir à Igreja: uma Igreja não comunidade, nem família, nem mãe, mas ninho. O Espírito abre, relança, impele para além do que já foi dito e feito, Ele impele para além dos recintos duma fé tímida e cautelosa. No mundo, sem uma estrutura compacta e uma estratégia calculada é um fracasso. Na Igreja, ao contrário, o Espírito assegura ao arauto a unidade. E os Apóstolos partem: sem preparação, lançam-se, saem. Anima-os um único desejo: dar o que receberam. Como é belo aquele princípio da Primeira Carta de João: aquilo que nós recebemos e vimos, damo-lo a vós! (cf. 1, 3)

Finalmente chegamos a compreender qual é o segredo da unidade, o segredo do Espírito. O segredo da unidade da Igreja, o segredo do Espírito é o dom. Porque Ele é dom, vive doando-Se e, assim, nos mantém unidos, fazendo-nos participantes do mesmo dom. É importante acreditar que Deus é dom, que não se comporta tomando, mas dando. E por que é importante? Porque o nosso modo de ser crentes depende de como entendermos Deus. Se tivermos em mente um Deus que toma, que Se impõe, desejaremos também nós tomar e impor-nos: ocupar espaços, reivindicar importância, procurar poder. Mas, se tivermos no coração que Deus é dom, muda tudo. 

Se nos dermos conta de que aquilo que somos é dom d’Ele, dom gratuito e imerecido, então também nós quereremos fazer da própria vida um dom. E amando humildemente, servindo gratuitamente e com alegria, ofereceremos ao mundo a verdadeira imagem de Deus. O Espírito, memória viva da Igreja, lembra-nos que nascemos de um dom e crescemos doando-nos; não poupando-nos, mas dando-nos.

Queridos irmãos e irmãs, olhemos no íntimo de nós mesmos e perguntemo-nos o que é que impede de nos darmos. Há – por assim dizer – três inimigos do dom; os principais são três, sempre deitados à porta do coração: o narcisismo, a vitimização e o pessimismo. 

narcisismo leva a idolatrar-me a mim mesmo, a comprazer-me apenas com o lucro próprio. O narcisista pensa: «A vida é boa, se eu ganho com ela». E assim chega a dizer: «Por que deveria eu doar-me aos outros?» Nesta pandemia, faz um mal imenso o narcisismo, o debruçar-se apenas sobre as próprias carências, insensível às dos outros, o não admitir as próprias fragilidades e erros. 

Mas o segundo inimigo, a vitimização, também é perigoso. A vítima lamenta-se todos os dias do seu próximo: «Ninguém me compreende, ninguém me ajuda, ninguém me quer bem, estão todos contra mim!» Quantas vezes ouvimos estas lamentações! E o seu coração fecha-se, enquanto se interroga: «Por que não se doam a mim os outros?» No drama que vivemos, como é má a vitimização! Como é mau pensar que ninguém nos compreende e sente aquilo que sentimos nós! Isto é o fazer a vítima. 

Por fim, temos o pessimismo. Neste caso, a ladainha diária é: «Nada vai bem, a sociedade, a política, a Igreja...» O pessimista insurge-se contra o mundo, mas fica inerte e pensa: «Assim para que serve doar-se? É inútil». Agora, no grande esforço de recomeçar, como é prejudicial o pessimismo, ver tudo negro, repetir que nada voltará a ser como antes! Pensando assim, aquilo que seguramente não volta é a esperança. Nestes três – o ídolo narcisista do espelho, o deus-espelho; o deus-lamentação: «sinto-me alguém nas lamentações»; e o deus-negatividade: «é tudo negro, é tudo escuro» – encontramo-nos na carestia da esperança e precisamos de apreciar o dom da vida, o dom que é cada um de nós. Por isso, necessitamos do Espírito Santo, dom de Deus que nos cura do narcisismo, da vitimização e do pessimismo; cura do espelho, das lamentações e da escuridão.

Irmãos e irmãs, peçamos: Espírito Santo, memória de Deus, reavivai em nós a lembrança do dom recebido. Libertai-nos das paralisias do egoísmo e acendei em nós o desejo de servir, de fazer bem. Porque pior do que esta crise, só o drama de a desperdiçar fechando-nos em nós mesmos. Vinde, Espírito Santo! Vós que sois harmonia, tornai-nos construtores de unidade; Vós que sempre Vos doais, dai-nos a coragem de sair de nós mesmos, de nos amar e ajudar, para nos tornarmos uma única família. Amém!

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* Fonte das informações sobre o evento midiático de 29/05/2020:

Moisés Sbardelotto é jornalista, graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, com estágio doutoral (bolsa PDSE/Capes) na Università di Roma "La Sapienza", Itália.

Homilia do Papa – Domingo de Pentecostes – 31/05/2020


Crédito das imagens:

1. Detalhe do altar central da Basílica de São Pedro - divulgação
2. Heidi Crowter - liveaction.org.jpg
3. Papa Francisco - Foto de Daniel Ibanez - aciprensa - 04.06.2019.


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