Pensar é tarefa da filosofia.
O entrevistado é o filósofo e professor italiano Massimo Cacciari, também
conhecido, na Itália, como um político ateu, ligado ao partido comunista.
Pareceu-me oportuno traduzir a entrevista, porque Carciari nos coloca (e, ao que parece, a ele próprio)
contra a parede, ao repensar a influência profunda dos valores cristãos na civilização.
Mais importante, ainda, é quando o filósofo levanta questões sobre o que estamos habituados a vivenciar, acomodados que somos ao pensamento vigente, que não parece refletir em profundidade a dimensão profunda da vida, do afeto, da solidariedade, do mistério e, no caso desta entrevista, sobre a espiritualidade cristã como matriz significante da nossa civilização.
Na tradução, a designação de "católico", usada pelo entrevistado, foi traduzida por "cristão", em respeito à nossa experiência latino-americana, claramente ecumênica.
Na tradução, a designação de "católico", usada pelo entrevistado, foi traduzida por "cristão", em respeito à nossa experiência latino-americana, claramente ecumênica.
O entrevistador, Stefano Zuro, pareceu-me instigante e arguto. A temática é
atual. O Natal hoje, pode nos passar a sensação de uma "festinha" entre amigos e familiares, com troca de presentes e um bom jantar, regado a vinho ou cerveja. É uma festa encharcada pela desatenção do nosso tempo à experiência do essencial, da solidariedade e da sobriedade que, aqui e ali, levemente se manifesta.
atual. O Natal hoje, pode nos passar a sensação de uma "festinha" entre amigos e familiares, com troca de presentes e um bom jantar, regado a vinho ou cerveja. É uma festa encharcada pela desatenção do nosso tempo à experiência do essencial, da solidariedade e da sobriedade que, aqui e ali, levemente se manifesta.
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O Natal não é só dos cristãos, mas permeia a nossa civilização.
“A indiferença envolve cristão e não cristãos. Não têm presente o
significado perturbador da festa”.
Por: Stefano Zurlo
Versão portuguesa: Vanise Rezende
NATAL. Massimo Cacciari é
um crescendo de irritação, quase uma cantilena de insultos: “O Natal do panetone, o Natal da publicidade, o Natal do dinheiro. O Natal hoje é uma
festinha”. E, ao dizer isto, vê-se em seu rosto os sinais do seu desgosto.
A crônica é uma sequência de episódios mortificantes: a escola que abole
o presépio em sinal do politicamente correto, o pároco que teme celebrar a missa da meia-noite, a comunidade que renuncia aos cantos tradicionais para
não perturbar a sensibilidade alheia. O filósofo fica impaciente, depois vai fundo como uma guilhotina: “Foram os cristãos os primeiros a abolir
o Natal”.
Professor, quer provocar?
“Não, a verdade é que a indiferença reina soberana e envolve quase todos: os os cristãos e não cristãos".
Está bem, existe um Natal
dos pacotes e dos presentes. E depois?
“Depois, eu que não sou crente me interrogo: há um símbolo que trouxe
uma contribuição extraordinária à nossa história, à nossa civilização, à nossa
sensibilidade”.
Para o senhor, o que é o
cristianismo?
“O cristianismo é uma parte fundamental do meu percurso, da minha
trajetória, é algo com que me confronto todos os dias”.
Por que os leigos e os
católicos de hoje balbuciam diante de um evento que cingiu em duas a história?
“Porque não refletem, porque não respeitam a memória dessa história tão
perturbadora”.
Deus que se fez homem.
“Percebes? Não Deus que estabelece uma relação com os homens, mas Deus
que vem à terra através de Cristo. É vertiginoso”.
Talvez o seja para o senhor e poucos outros.
“Justamente. A nossa sociedade está anestesiada. O Natal se tornou uma fábula
qualquer, uma espécie de historinha edificante que apaga as inquietudes”.
Ou seja, não se defende mais
o Natal, (...) talvez porque não
se saiba mais o que é o Natal?
“Exatamente. Se posso generalizar - e sei que em toda parte existem as
exceções – o leigo não se permite ser atingido por esse escândalo; o professor
de religião não transmite mais a força dessa história, mas faz apenas um aceno
na aula de educação cívica; e o padre, quase sempre declama prédicas
cômodas, cômodas e tranquilizantes, que são um convite ao ateísmo”.
Um desastre.
“O abc foi descartado. A primeira distinção não é entre cristãos e não cristãos, mas entre pensantes e não pensantes. Se alguém pensa, como pensava o
cardeal Martini, então se interroga. E se se interroga, antes ou depois vê-se
fascinado pelo cristianismo, pelo Deus que se faz homem, escandalizando os
hebreus e o Islam”.
Estamos às voltas com um
choque de civilização?
“E que choque! Da parte deles,
também se perdeu o valor profundo do fato religioso. Vivemos em um mundo que
esquece a dimensão espiritual”.
De onde pode partir o
diálogo com as outras religiões?
“O diálogo parte da compreensão, mas se não houver compreensão, então
nos preparemos para o pior. E, de fato, os cristãos sabem, e eu sei que, de
alguma parte, há sempre um resto de Israel, servos ingênuos do nosso tempo".
Na verdade, o que está
faltando?
“Falta o arrepio diante de um fato tão grandioso, incomensurável. Observo isso nos museus, quando estudantes param diante de quadros com sujeito religioso”.
Está implicando também com
os estudantes?
“Não, implico com os seus professores e não só com eles. Esses jovens recebem
noções de natureza estética, mas depois, se chegas perto e perguntas a eles:
quem é aquele santo? É o Batista? É Paulo? É João? Eles te olham estupefatos,
não sabem nada, estão desmemoriados como o nosso tempo”.
Cacciari, o senhor está
mesmo certo de que não crê?
“O filósofo não pode crer”.
Com todo o respeito, isto é
o senhor quem afirma.
“O filósofo não pode aceitar a lição cristã, mas é um inquieto e
reflete”.
Então, o senhor reza?
“A busca a um certo ponto se avizinha da oração. É certo que o fiel está
convencido de que a sua oração será escutada. O filósofo pede o nada. Mas, fica
estupefato diante do mistério. E o absorve, como aconteceu no meu último livro,
sobre Maria: Gerar Deus. Pense, uma jovenzinha que se torna mãe de Deus. É de não
acreditar, mesmo para aqueles que creem”.
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Fonte
do texto:
Créditos das imagens:
1. Foto de abertura - www.mondi.it.jpg
2. Imagem da entrevista realizada pelo "Il Giornale", em 2017.
3. Foto divulgada em: www.ilglobo.globo.com.jpg
Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores.
Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que sejam removidas deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com
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Notas biográficas:
Massimo Cacciari nasceu em Veneza em 5/06/1944. É um político italiano ex-prefeito de Veneza, professor e filósofo. Atualmente é docente do pensamento filosófico
e metafísica na Faculdade de Filosofia da “Università Vita Salute di San
Raffaelle”, fundada por ele, em 2002, e da qual é pró-reitor. Foi
eleito prefeito de Veneza em 2005 e abandonou a política ativa após a conclusão
do seu mandado, em abril de 2010. Em 2016 publicou, pela editora “Il Mulino”, o livro
“Ocidente senza utopie”, escrito com
Paolo Prodi.
Fonte: http://www.mondi.it/almanacco/voce/16015
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