Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

PAPA FRANCISCO - DEUS DEVE SER ENCONTRADO NO HOJE

23 de junho de 2017


Aí está 4a. parte - e penúltima - da entrevista de Papa Francisco ao Padre Jesuíta Antonio Spadaro. Aqui, são tratados os seguintes temas: o lugar dos religiosos e das religiosas na Igreja;  os dicastérios;  a unidade da Igreja; o papel da mulher na Igreja; o Concílio Vaticano II; onde procurar e encontrar Deus.
 
Os parênteses e os negritos são de responsabilidade da edição do texto neste espaço. As respostas do Papa  estão iniciadas e finalizadas entre parênteses, de acordo com o texto reproduzido do jornal "Osservatore Romano". Segue abaixo:

Papa Francisco é o primeiro pontífice proveniente de uma ordem religiosa, desde há 182 anos... Depois de Gregório XVI – um camaldolense eleito papa em 1831. Pergunto-lhe, pois:

Qual a condição dos religiosos na Igreja hoje?

"Os religiosos são profetas. São os que escolheram um seguimento de Jesus, que imitam a sua vida com a obediência ao Pai, a pobreza, a vida de comunidade e a castidade. Neste sentido, os votos não podem cair em caricaturas; de outro modo, por exemplo, a vida comunitária torna-se um inferno e a castidade um modo de viver como solteirões. O voto de castidade deve ser um voto de fecundidade

Na Igreja os religiosos são chamados em particular a  ser profetas que testemunham como Jesus viveu nesta terra, e anunciam como o Reino de Deus será na sua perfeição. Um  religioso  nunca  deve renunciar  à profecia. Isto não significa contrapor-se  à  parte hierárquica da Igreja, mesmo se a função profética e a estrutura hierárquica não coincidem. 

Estou  a  falar de uma proposta sempre positiva  que, no entanto, não deve  ser  tímida. Pensemos  naquilo  que  fizeram  tantos  grandes santos monges, religiosos  e  religiosas, desde  Santo Antão, o  abade. Ser profeta pode significar, por vezes, fazer ruído, não sei como dizer. A profecia  faz  ruído,  alarido,  alguns  chamam  “escarcéu". Mas, o seu carisma na realidade é o de ser fermento: a profecia anuncia o espírito do Evangelho".

Considerando a referência à hierarquia, pergunto ao Papa:  

O que pensa dos 'dicastérios'?

"Os dicastérios da Igreja  estão ao serviço do Papa  e dos bispos: devem ajudar as  Igrejas particulares  e  também às Conferências  Episcopais.  São  seus mecanismos de apoio. Nalguns casos,  quando não são bem entendidos, correm o risco de se tornarem, ao contrário,  organismos  de  censura. 

É  impressionante  ver as denúncias de falta de ortodoxia que chegam a Roma. Creio que os casos devem ser estudados pelas Conferências Episcopais locais, às quais  pode chegar uma válida  ajuda de Roma. De fato, os casos são tratados melhor no local. Os dicastérios romanos são mediadores, nem intermediários nem gestores".

Recordo ao Papa que por ocasião da bênção e da imposição do palio (29/06/2012), a 34 bispos metropolitas – ele havia afirmado "o caminho da "sinodalidade" (colegialidade episcopal) como o caminho que leva a Igreja unida a «crescer em harmonia com o serviço do primado». Eis então as perguntas:



Como conciliar em harmonia o primado petrino e o conjunto das resoluções  sinodais? 





E que caminhos seriam praticáveis, numa perspectiva ecumênica?

"Devemos caminhar juntos: as pessoas, os bispos e o papa. A representação sinodal vive-se a vários níveis. Talvez seja tempo de mudar a metodologia do sínodo, porque a atual parece-me estática. Isto poderá também ter valor ecumênico, especialmente com os nossos irmãos ortodoxos. Deles se pode aprender mais sobre o sentido da colegialidade episcopal e sobre a tradição da "sinodalidade". O esforço de reflexão comum, vendo o modo como se governava a Igreja nos primeiros séculos, antes da ruptura entre Oriente e Ocidente, dará frutos a seu tempo. Nas relações ecumênicas isto é importante: não só conhecer-se melhor, mas também reconhecer o que o Espírito semeou nos outros um dom que é também para nós. Quero prosseguir a reflexão sobre como exercitar o primado petrino já iniciada em 2007 pela Comissão Mista que levou à assinatura do documento de Ravena. É preciso continuar neste caminho".



Como vê o futuro da unidade da Igreja? 

"Devemos caminhar unidos nas diferenças: não há outro caminho para nos unirmos. Este é o caminho de Jesus".


Em várias ocasiões o papa falou sobre o papel da mulher na Igreja. Numa entrevista tinha afirmado que a presença feminina na Igreja não emergiu mais, porque a tentação do machismo não deixou espaço para tornar visível o papel que compete às mulheres na comunidade. Retomou à questão durante a viagem de regresso do Rio de Janeiro, afirmando que ainda não foi feita uma teologia profunda da mulher.  Então lhe pergunto:

Qual deve ser o papel da mulher na Igreja? 

E como fazer para tornar esse seu papel mais visível?

"É necessário ampliar os espaços de uma presença feminina mais incisiva na Igreja. Temo a solução do 'machismo de saias', porque, na verdade a mulher tem uma estrutura diferente do homem. E, pelo contrário, os argumentos que ouço sobre o papel da mulher são muitas vezes inspirados precisamente numa ideologia machista. 

As  mulheres  têm vindo a colocar perguntas profundas que devem ser tratadas. A Igreja não pode ser ela própria sem a mulher e o seu papel. A mulher,  é imprescindível para a Igreja. Maria, que é uma mulher,  é mais importante que os bispos. Digo isto, porque não se deve confundir a  função  com a dignidade. É  necessário,  pois,  aprofundar melhor  a figura da mulher na Igreja.  É  preciso  trabalhar  mais  para fazer uma teologia profunda da mulher. Só  realizando  esta etapa se poderá refletir melhor sobre a função da mulher no interior da Igreja. O  gênio feminino  é  necessário  nos  lugares em que se tomam as importantes decisões. O desafio hoje é exatamente esse: refletir sobre o lugar específico da mulher, precisamente também onde se exerce a autoridade nos vários âmbitos da Igreja. É preciso trabalhar mais para fazer uma teologia profunda da mulher."

O Concílio Vaticano II

À luz das suas afirmações precedentes se poderia imaginar uma resposta longa e articulada. Tenho como que a impressão de que o Papa simplesmente  considera o Concílio como um fato de tal modo indiscutível que para sublinhar a sua importância não vale a pena falar disso demasiado tempo.

O que o Concílio Vaticano II realizou na Igreja? 

"O Vaticano II foi uma releitura do Evangelho à luz da cultura contemporânea. Produziu um movimento de renovação que vem simplesmente do próprio Evangelho. Os frutos são enormes. Basta recordar a liturgia. O trabalho da reforma litúrgica foi um serviço ao povo como releitura do Evangelho a partir de uma situação histórica concreta. Sim, existem linhas de hermenêutica de continuidade e de descontinuidade. Todavia, uma coisa é clara: a dinâmica de leitura do Evangelho no hoje,  que é própria do Concílio, é absolutamente irreversível. Depois existem questões particulares, como a liturgia segundo o Vetus Ordo (a Velha Ordem). Penso que a escolha do Papa Bento XVI foi prudente, ligada à ajudar a algumas pessoas que têm esta sensibilidade particular. Considero, no entanto, preocupante o risco de ideologização do Vetus Ordo, a sua instrumentalização.


O discurso do Papa Francisco sobre os desafios de hoje é muito desconcertante. Há uns anos ele havia escrito que para ver a realidade é necessário o olhar da fé; de outra forma, vê-se uma realidade aos pedaços, fragmentada. É este também um dos temas da Encíclica Lumen Fidei. Tenho em mente algumas passagens dos discursos do Papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Cito-lhos: «Deus é real se Se manifesta no hoje»; «Deus está em toda a parte». São frases que fazem eco da expressão inaciana: «procurar e encontrar Deus em todas as coisas». Pergunto então ao Papa:

Santidade, como se faz para procurar encontrar Deus em todas as coisas? 

"O que eu disse no Rio tem um valor temporal. Existe, de fato, a tentação de procurar Deus no passado ou no futuro. Deus está, certamente, no passado porque está nas pegadas que deixou. E está também no futuro como promessa. Mas o Deus “concreto”, digamos assim, é hoje. Por isso, os queixumes nunca, nunca nos ajudam a encontrar Deus. As queixas de hoje  sobre como o mundo anda “bárbaro”, acabam por fazer nascer dentro da Igreja desejos de ordem entendidos como pura conservação, defesa. Não. Deus deve ser encontrado no hoje.

Deus Se manifesta numa revelação histórica, no tempo. O tempo inicia os processos, o espaço cristaliza-os.Deus Se encontra no tempo, nos processos em curso. Não é preciso privilegiar os espaços de poder relativamente aos tempos, mesmo longos, dos processos. Devemos encaminhar processos, mais que ocupar espaços. Deus Se manifesta  no tempo e está presente nos processos da História. Isto faz privilegiar as ações que geram dinâmicas novas. E exige paciência, espera.

Encontrar Deus em todas as coisas não é um eureka empírico. No fundo, quando desejamos encontrar Deus, quereríamos constatá-lo de imediato com um método empírico. Assim não se encontra Deus. Ele Se encontra na brisa ligeira sentida por Elias. Os sentidos que constatam Deus são os que Santo Inácio designa por “sentidos espirituais”. Inácio nos pede para abrir a sensibilidade espiritual para encontrar Deus para além de uma abordagem puramente empírica. É necessária uma atitude contemplativa: é o sentir que se vai pelo bom caminho da compreensão e do afeto no que diz respeito  às  coisas e às situações. O sinal de que se está neste bom caminho é o sinal da paz profunda, da consolação espiritual, do amor de Deus e de todas as coisas em Deus".

Certezas e erros


Se o encontro com Deus  em todas as coisas  não  é  um «eureka empírico» — digo ao Papa — e se, portanto, se trata de um caminho que lê a história, é possível  cometer-se erros... 

Ele me responde:
"Sim, neste procurar e encontrar Deus em todas as coisas fica sempre uma zona de incertezas. Tem que ser assim. Se uma  pessoa diz que encontrou Deus com certeza total e não aflora uma margem de incerteza, então não está bem. Para mim, esta é uma chave importante. Se alguém tem a resposta a todas as perguntas, esta é a prova de que Deus não está com ela. Quer dizer que é um falso profeta, que usa a religião para si próprio. Os grandes guias do povo de Deus, como Moisés, sempre  deixaram espaço para a dúvida. Devemos deixar espaço ao Senhor, não às nossas certezas. É necessário ser humilde. A incerteza existe em cada discernimento verdadeiro que se abre à confirmação da consolação espiritual.

«O risco no procurar e encontrar Deus em todas as coisas é, pois, a vontade de explicar demasiado, de dizer com certeza humana e arrogância: “Deus está aqui”. Encontraremos somente um deus à nossa medida. A atitude correta é a agostiniana: procurar a Deus para O encontrar e encontrá-lo para O procurar sempre. E muitas vezes procura-se por tentativas, como se lê na Bíblia. 

"É esta a experiência dos grandes Pais da Fé, que são o nosso modelo. É necessário reler o capítulo 11 da  Carta aos Hebreus. Abraão partiu sem saber para onde ia, pela fé. Todos os nossos antepassados da fé morreram vendo os bens prometidos, mas longe... A nossa vida não nos é dada como um libreto de ópera onde está tudo escrito, mas é ir,  caminhar, fazer, procurar, ver... Deve-se entrar na aventura da procura do encontro e do deixar-se procurar e deixar-se  encontrar por Deus. Porque Deus está antes, Deus está sempre antes, Deus antecede. Deus é um pouco como a flor da amendoeira da tua Sicília, Antonio, que floresce sempre antes. Lemo-lo nos profetas. Portanto, encontra-se Deus caminhando, no caminho

"Neste ponto alguém poderia dizer que isto é relativismo. É relativismo? Sim, se é mal interpretado, como espécie de panteísmo indistinto. Não, se é interpretado em sentido bíblico, onde Deus é sempre uma surpresa e, portanto,  não sabes nunca onde e como O encontras, não és tu a fixar os tempos e os lugares do encontro com Ele. É necessário,  portanto, discernir o encontro. Por isso, o discernimento é fundamental".

"Se o cristão é "restauracionista", legalista, se quer tudo claro e seguro, então não encontra nada. A tradição e a memória do passado devem ajudar-nos a ter a coragem de abrir novos espaços para Deus. Quem hoje procura sempre soluções disciplinares, quem tende de modo exagerado à “segurança” doutrinal, quem procura obstinadamente recuperar o passado perdido, tem uma visão estática e involutiva. E deste modo a fé torna-se uma ideologia entre tantas. 

Tenho uma certeza dogmática: Deus está na vida de cada pessoa. Deus está na vida de cada um. Mesmo se a vida de uma pessoa foi um desastre, se se encontra destruída pelos vícios, pela droga ou por qualquer outra coisa, Deus está na sua vida. Pode-se e deve-se  procurar Deus na vida humana. Mesmo se a vida de uma pessoa é um terreno cheio de espinhos e ervas daninhas, há sempre um espaço onde a semente boa pode crescer. É preciso confiar em Deus».

O otimismo

Estas palavras do Papa recordam-me algumas reflexões suas do passado, nas quais o então cardeal Bergoglio escreveu que Deus vive já na cidade, vitalmente misturado no meio de todos e unido a cada um. É um outro modo, na minha opinião, para  dizer o que Santo Inácio escreve nos Exercícios Espirituais , ou seja, que Deus «trabalha e opera» no nosso mundo.   Pergunto-lhe então: 

Devemos ser otimistas? Quais são os sinais de esperança no mundo de hoje? Como conseguir ser otimista num mundo em crise?

"Não gosto de usar a palavra “otimismo”, porque indica uma atitude psicológica. Gosto, pelo contrário, de usar a palavra “Esperança”, segundo aquilo que se lê no capítulo 11 da Carta aos Hebreus , como já citei. Os pais continuaram a caminhar,  atravessando grandes dificuldades. E a esperança não engana, como lemos na Carta aos Romanos. Pensa, pelo contrário, no primeiro enigma da ópera Turandot, de Puccini",  sugere-me o Papa.

 Naquele momento recordei, um pouco de memória, os versos daquele enigma da princesa que tem como resposta a esperança:

Na noite escura voa 
Um fantasma iluminado. 
Sobe e abre as asas
Sobre a negra infinita humanidade.
Todo o mundo o invoca
E todo mundo o implora. 
Mas o fantasma desaparece com a Aurora para renascer no coração
E cada noite nasce 
E cada dia morre! 

E concluo: São versos que revelam o desejo de uma esperança que aqui, no entanto, é um fantasma cintilante e que desaparece com a aurora.


"Aqui está — esclarece o Papaa Esperança cristã não é um fantasma e não engana. É uma virtude teologal e portanto é,  definitivamente, um presente de Deus que não se pode reduzir ao otimismo, que é apenas humano. Deus não defrauda nem nega a  Esperança, não pode negar-se a Si mesmo. Deus é todo promessa".

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Créditos das Imagens:

1. Papa Francisco - www.alx_mundo-papa-francisco-america-latina- 05.07.2015
2. Audiência aos representantes da União Europeia - 24.03.2017
3. Papa Francisco em Manila - dez./2015 - Coheryly Ravelo - Reuter.
4. Ruim é o Racismo - Manifestação de mulheres negras no Brasil 
5. Audiência do Patriarca Atenágora a Chiara Lubich em 1967 - www.focolari.org
6. Partilha fraterna - www.youtoube.com.br.jpg
7. Caminhos - imagem de: www.canstockphoto.com.br
8. Caminhantes na cidade - www.canstockphoto.com.br
9. Esboço de cenografia para a Ópera Turandot de Puccini - 
www.wikimidia.commons

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