Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

MEMÓRIAS - ESTER PIRES DE REZENDE

19 de junho de 2017

Estive relendo Julio Cortázar. Das das tantas destrezas na arte da escrita com que nos presenteia, (cópias de suas Aulas de Literatura em Berkeley - 1980), assimilei melhor como, em certos momentos, é possível experimentar a duplicidade do tempo presente e passado, eterno e fugaz, alegre e sofrido um tempo duplo, um sobre o outro e do lado, a nos fazer experimentar amor e  desassossego,  quimera e esperança, o antes e o depois um sobre o outro, feito um momento único.
 

E tão encantada fiquei de lembrar essa possibilidade - eu que tanto gosto de manejar o imaginário no tempo ao revés - que, sem mais nem menos  me deparei menina na minha terra natal. 

Alguns sabem que acabo de  contar setenta e nove poentes e alvoreceres de encontros e desencontros,  venturas e adeuses, e tantas impossíveis alegrias...  O fato é que - como disse - me achei menina, na casa de então, uma casa grande que cabia Ester, minha mãe, e Né Marinho, meu pai, os sete irmãos que fomos, mais duas Marias que estavam a nos cuidar.


 
... Fui entrando sem pedir licença no tempo distanciado, a vida no remoto e no improvável, lá estava eu a escutar de novo o doce barulho da  máquina Singer de Ester a costurar as roupas de tantos filhos, eu junto dela, ela pertinho de mim, - no tempo do que já fora, inteiro, sem sofreguidão - sentindo a mesma plenitude da sua presença doce. 



 
Quem sabe por que o momento foi-se esfumando como se esfuma, em toda parte, o tempo ligeiro e o agora, e eu queria cantar com ela mas não sabia quê, sentada, papel e lápis na mão (não é a primeira vez, tenho sempre ali) e me acudiu um sentimento ingênuo de menina triste a escrever:    




Repara que lindo dia
   Nesse bonito sertão
     Menina agora eu vivia
        Lá na casa sertaneja
          Brincadeira...redenção!

                                                      
                                             Zomp zomp zomp zom
                                             Zarp zarp zarp zar
                                             Era o som do motorzinho
                                             De uma Singer a costurar...
                                                  

Que alegre viveu ela
  Sete filhos a cuidar
    Feito uma leve gazela

     A cantar... Sempre a cantar
       E nunca a se lamentar!


                                               Zomp zomp zomp zom
                                               Zarp zarp zarp zar    
                                               Era o som do motorzinho        
                                               De uma Singer a costurar.
                                                 
     
Hoje de lá bem distante
  Chegou a me consolar:
    Que na vida tudo frange
      E que eu cantasse... cantasse
       Que um dia vem me buscar!





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Créditos das Imagens:

1. Ester e Seu Né - arquivos privados de família.
2. Máquina Singer - pinterest 
3. Sertão - Filipe Alessio

Nota - As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre  em contato com vrblog@hotmail.com





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