Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

LITERATURA - LÁZARO RAMOS

12 de abril de 2017





No Recife, finalmente, teremos a alegria de ver em cena dois importantes atores de TV, teatro e cinema: a atriz Taís Araújo, e o ator Lázaro Ramos. Como se sabe, eles formam um dos mais admirados casais no âmbito das artes cênicas. E foram reconhecidos, numa pesquisa da revista Veja, os mais admirados do Brasil.

Foi em busca de mais informações sobre a peça “O Topo da Montanha” que fiquei sabendo dos livros infantis escritos por Lázaro Ramos, inspirado em suas conversas com o filho João. Quis saber mais. A sua última publicação infantil - Caderno de Rimas do João - foi lançada em Salvador na Livraria Cultura, em maio de 2016.  



O livro apresenta-se como um dicionário ilustrado, para crianças, de excelente qualidade. Diria, até, que gente grande deveria lê-lo com atenção, pois há que se aprender a conversar com os pequenos e responder-lhes os porquês. Seus verbetes são explicados a partir de uma clara  visão cidadã, sobre as relações humanas contemporâneas e as diferentes diferenças que enriquecem e ampliam nossa visão de mundo. O renomado Maurício Negro assina as ilustrações. É o terceiro livro infantil do autor. 


Em uma qualificada crítica sobre a obra, comenta-se que Lázaro Ramos "descobriu que, assim como as crianças, as palavras têm grande vontade de se divertir. Por isso, no livro, o autor brinca com o significado das palavras, construindo um dicionário intuitivo de João. A obra mescla temas importantes para a infância, como família, valores, vida e morte, e temas cotidianos e contemporâneos. Palavras como “Amizade”, “Candidato”, “Sonegar”, “Sotaque”, entre outras, são passadas para as crianças de uma forma leve e ao mesmo tempo didática. O livro ainda conta com a ilustração de personagens negros e com menções a Gilberto Gil e à capoeira."


No seu livro anterior, A Velha Sentada, "Edith é uma menina que vive alheia ao mundo. Ao seu redor alguma coisa sempre está acontecendo, mas ela só tem olhos para a tela do computador. Edith não brinca, não se relaciona e é completamente... sem graça. Segundo uma vizinha, parece até que ela tem uma velha sentada dentro de sua cabeça. Ao ouvir isso, Edith inicia uma viagem de autoconhecimento, em busca da causa de seu desânimo". (i)

Ainda aos 20 anos Lázaro Ramos escreveu "Paparutas". Os dois livros, A Velha Sentada e Paparutas foram adaptados pelo autor para o teatro, sob a sua direção.  

Reproduzo aqui a entrevista dada a Júlia Barban (ii), na época do lançamento do "Caderno de Rimas do João":

Folhinha - Como surgiu a ideia desse novo livro?

Lázaro Ramos - Depois que lancei "A Velha Sentada", escrevi um monte de coisa, mas nenhuma ideia ia para frente. Tendo filho, você começa a brincar de várias coisas, e a própria criança vai te induzindo. Tinha uma brincadeira que eu fazia com o João. Quando ele me perguntava alguma coisa, eu começava a fazer rimas para explicar, porque não tem jeito, tem significado que não dá para explicar para a criança. Então eu pensei: vou fazer um dicionariozinho com alguns verbetes – alguns de uma maneira engraçada, outros de maneira poética ou lúdica. Aí fui deixando a criatividade falar. Eu queria também falar sobre o tema amizade, que é o que costura os poemas, porque eu estava observando muito o meu filho na maneira como ele formava amizades: às vezes brigava, e daqui a pouco já fazia as pazes.

As ilustrações do livro têm muitas referências à cultura negra. Foi algo que você combinou com o ilustrador?
Lázaro Ramos - Não, eu dei o livro para o Mauricio Negro ilustrar, sem falar nada. Não vi quase nada antes de ficar pronto. E achei que ficou muito legal, o que tem de cultura negra vem de maneira bem natural.

Acha que faltam livros infantis com protagonistas negros ou que mostrem a cultura africana?
Lázaro Ramos - Nem todas as livrarias têm a preocupação de colocar esses livros em suas prateleiras, mas um pai que esteja atento, que queira que seu filho conviva com a diversidade, consegue encontrar um bom catálogo. Muito do que eu faço é procurar as editoras na internet e às vezes mandar entregar em casa. Temos ótimos autores que estão contando novas histórias. Tem uma coleção por exemplo, da editora Mazza, que são os contos infantis contados da mesma maneira, só que em todas as ilustrações os meninos são negros. É isso, a lição de moral está lá e a estética é outra, o que é bacana para os nossos filhos.

Você tem essa preocupação com o seu filho?
Lázaro Ramos - Tenho sim, e vejo que faz toda a diferença. Ele lê pelo menos um livro por dia, e quando se vê representado ou quando vê a diversidade, ele se sente incluído no mundo, com a possibilidade de ser herói também. Porque muitas vezes o que falta são essas referências. E esse rosto diverso é fundamental para a infância, não só para uma criança negra, mas para toda e qualquer criança. Porque o mundo é essa diversidade, e aprender a ver isso na infância já é meio caminho andado para ser um adulto legal. Isso em todos os tipos de diversidade, não só étnica.

Qual foi a reação do João quando viu o livro?
Lázaro Ramos - Está todo metido, né! Fala para todo mundo: "Sabia que meu pai fez um livro para mim?". O livro dele já está todo amassado, aí o pessoal vai em casa e ele pega, mostra. Ele não sabe fazer a rima ainda, isso é o mais engraçado, porque ele tenta ler e faz a rima dele [risos]. Mas ainda não levou para a escola, porque estou pensando em dar de surpresa para todos os colegas no aniversário dele.

Você já tinha escrito dois livros para crianças. O que acha que mudou entre um trabalho e outro?
Lázaro Ramos - Os dois primeiros livros me ensinaram coisas. Acho que o primeiro era muito "verdinho", escrevi com 21 anos de idade. Tem uma inocência ali, era só um pós-adolescente tentando dar uma explicação para uma memória afetiva de infância, não tem uma linguagem. Já  "A Velha Sentada" tem uma pesquisa. Enquanto escrevia, tive muita certeza de que a minha maneira de escrever para criança não é pensando que estou escrevendo para criança. Todas as vezes que eu pensava: "Esse capítulo eu vou escrever porque as crianças de quatro anos...", só saía porcaria. Não saía, porque eu ficava ali tentando imaginar o que uma criança ia desejar ou gostar de ler. Eu vou escrever uma história e, se for para criança, será. Mas, se não for, não será.

Você se envolveu em vários projetos relacionados a crianças. Os livros, as peças, a Unicef. De onde surgiu esse interesse pela infância?
Lázaro Ramos - [Silêncio]. Eu acho que desde sempre gostei disso. Desde sempre gastei muito tempo com criança e idoso. Eu pequeno ficava do lado do velhinhos perguntando, estimulando. Mesmo quando era adolescente, que é uma época em que você meio que rejeita as crianças, eu adorava levar papo. Eu adoro cabeça de criança, a sinceridade da criança e como ela te põe contra a parede. Isso me deixa estimulado. Vez por outra também faço personagens que têm comportamento de criança, que são brincalhões, lúdicos, inventivos, e as crianças se identificam muito com isso. A cabeça da criança é uma coisa sensacional.
A Unicef já é uma questão política, porque eu tenho uma grande preocupação em como a infância está sendo tratada. Eu poderia ficar aqui desfilando dados para você. Mas eu acho que, se eu tenho o microfone na mão, eu tenho que falar em prol de uma causa que faça diferença, e acho que falar em nome das crianças é muito importante.

E a sua infância, como foi?
Lázaro Ramos - Foi o máximo. Meu pai e minha mãe trabalhavam muito, mas tenho uma tia-avó – a primeira da família a sair do interior da Bahia e ter uma vida um pouco melhor – que tinha uma casa em Salvador, para onde ela acabou levando todas as crianças para estudar. Nessa casa tinha quintal, e para mim isso fez toda a diferença na minha infância. Foi pisando com o pé no chão de terra, subindo em árvore, brincando com os primos de correr de lá para cá, muitas brincadeiras artesanais. Nunca tive o Atari, o brinquedo mais caro da época, mas eu tinha ali um universo em que eu podia criar o que quisesse. Brincar de castelo, brincar de floresta no quintal da minha tia, essa é a memória de infância que eu mais tenho.

Você costumava ler ou ouvir histórias?
Lázaro Ramos - Não, eu comecei a ler quando comecei a fazer teatro, com 15 anos de idade. Eu lia aqueles livros indicados pela escola, mas fui aprender a ter o gosto pela leitura com 15 anos, já tarde. Meu tio contava histórias. Ele foi um dos fundadores dos Filhos de Gandhy, bloco de Carnaval lá de Salvador, então não contava histórias infantis, mas de família, de como foi fundar o bloco, de como era trabalhar como estivador. Ele adorava. E eu ficava imaginando tudo o que ele dizia.

Você ainda é um pouco criança?
Lázaro Ramos - Eu sou bem bobinho. Meu filho fala "Papai você é tão engraçado", porque eu acho que é o que deixa meu dia a dia leve. Eu tenho uma rotina bem pesada, minha vida de adulto é bem de adulto mesmo. Se eu não fugir um pouco para esse universo lúdico, brincalhão, deitar no chão com os meus filhos, esquecer de outros assuntos para me permitir isso, acho que eu seria uma pessoa muito sofrida.

Você disse que escreveu várias coisas, mas nenhuma deu certo. Que tipo de coisas?
Lázaro Ramos - Estou com mais dois livros infantis prontos, que fiz depois desse. Não sei quando nem por qual editora vou lançar. O outro é sobre a conquista da independência, seja de aprender a comer sozinho ou ter coragem para fazer alguma coisa. O outro acho que não é infantil. Está terminado, mas estou achando que é um livro para mulheres de 30 anos. Quando eu escrevo eu nunca sei o que vai virar. O meu primeiro livro eu não sabia que era infantil. Quando eu terminei, pensei: "Ih, isso dá para criança."

Pretende escrever mais?
Lázaro Ramos - Eu vou escrevendo, não acho que essa vida de autor vai ser uma coisa planejada. Acho que eu tenho que escrever, se eu tiver alguma coisa útil para falar. Se eu não tiver, eu não vou falar.
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Texto original da entrevista: 'Faltam heróis negros', diz Lázaro Ramos ao lançar seu 3º livro infantil. Por: Júlia Barbaon, de São Paulo, publicado na ‘Folhinha’ em 11.11.2015.

"Cadernos de Rima do João" - Ed. Pallos - 2016 
"A Velha Sentada" - Ed. Uirapuru - 2010. 

LAZARO RAMOS - Nascido em 1978, em Salvador, Lázaro Ramos é ator, apresentador, cineasta e escritor. Atuou em diversos filmes, peças de teatros, minisséries e novelas, como Cobras & Lagartos, da Rede Globo — atuação que lhe rendeu indicação ao Emmy Awards 2007, umas das principais premiações da TV internacional. Desde 2006, dirige e apresenta o programa Espelho, no Canal Brasil. Estreou na literatura infantil em 2010, quando publicou A velha sentada (2010) e, cinco anos depois, lançou sua segunda obra do gênero, Caderno de rimas do João (2015).(iii)


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(i)  Sinopse - Livraria Travessa - www.travessa.com.br
(ii) http://www1.folha.uol.com.br/folhinha/2015/11
(iii) Biografia do autor - Livraria Travessa - www.travessa.com.br

Créditos Imagens:

1. Foto Taís Araújo e Lázaro Ramos - www.claudia.abril.com.br/famosos/6-vezes-em-que-taís-araújo-e-lázaro-ramos-derretem-nossos-corações/06.06.2016
2, 3, 4 - Imagens de divulgação 
5. Foto do autor in: www.travessa.com.br

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre  em contato com vrblog@hotmail.com 









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