Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

MENSAGEM DE NATAL

15 de dezembro de 2014

Estou muito feliz de poder trazer, aqui, um precioso texto de um também precioso e grande amigo de longa data, com quem tive a honra de trabalhar por algum tempo, e tenho a alegria de mantermos a amizade e o afeto fraterno desde que nos conhecemos. 

Roberto van der Ploeg nasceu na Holanda e veio ao Brasil, ainda jovem, para estudar teologia no ITER - Instituto de Teologia do Recife, uma fundação mantida por Dom Hélder Câmara, de quem ele foi amigo e irmão. Mas, Roberto não é só um teólogo, é também um excelente  pintor  reconhecido por suas telas de traços realistas e cores brasileiríssimas, que demonstram a sua especial sensibilidade de acolhimento e compreensão do povo nordestino brasileiro, a região em que ele vive hoje, e tanto ama. Deste seu texto que segue, abaixo, o melhor que eu poderia dizer é emprestado de outra grande amiga e teóloga brasileira, Ivone Gebara: "Vamos todas e todos tentar fazer o mesmo em tudo que fazemos". 


AMAR O PRÓXIMO
 *Roberto Ploeg

No Evangelho de Lucas (Lc.10,25-37) há um diálogo interessante entre um escriba e Jesus de Nazaré. Trata-se de uma discussão rabínica, típica do judaísmo, onde se aprende discutindo.

O escriba pergunta a Jesus: ”como herdar a vida eterna?” Parece que o homem enxerga a vida na terra em função da vida após a morte.

Jesus responde, como bom pedagogo, com uma pergunta, fazendo com que o interlocutor por si mesmo encontre a resposta: “O que diz a Torá e como lês?”

Muito bom, esse “como lês?” Ou “como interpretas?”, evitando qualquer fundamentalismo da única e excludente leitura ao pé da letra. O escriba responde citando o Shema Israel no livro de Deuteronômio (Dt.6,5) e um versículo do livro Levítico (Lv.19,18): “Amarás a teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua inteligência e com toda a tua força, e a teu próximo como a ti mesmo”. Acho mais pertinente a tradução desta última parte (Lv.19,18), por Franz Rosenzweig e Martin Buber, que diz: “Amarás a teu próximo que é igual a você.”

Beleza, meu véi ”, diria Jesus em bom pernambuquês, e continua: “Faça isto e viverás!”, citando Levítico 18,5.

O objetivo da conversa, do estudo da Torá, é o fazer, é a prática, a ética do amor. Jesus diz que terás vida (e não vida eterna). O céu está em função da terra. Eternidade não como quantidade infinita, mas como qualidade infinita de vida. Mas o homem não está satisfeito ainda. A discussão procede com o mesmo esquema: pergunta, pergunta (réplica), resposta (tréplica), afirmação e exortação. A pergunta agora é: “Se servir a Deus é amar o próximo, quem é meu próximo?”
Aí, Jesus conta a parábola do Bom Samaritano e termina com a pergunta:
“Qual dos três foi o próximo do homem que caiu na mão de assaltantes?” 
A resposta: “O que mostrou misericórdia”.  Exortação final: “Beleza, vá e faça o mesmo!”

Olhando com mais atenção percebemos que Jesus inverte a pergunta do escriba. “Quem é meu próximo?” Se transforma em: “Quem se fez próximo?” Quer dizer, eu não tenho um próximo, eu mesmo sou o próximo! Eu me faço próximo ao me aproximar do outro. Para que este movimento aconteça, precisa-se de uma qualidade. A estrutura da narrativa deixa bem clara qual é.

Temos a cena de um homem roubado e ferido na beira de uma estrada perigosíssima, a estrada de Jerusalém, em cima das montanhas para Jericó, a cidade em localização mais baixa do mundo (258 metros abaixo do nível do mar), um declínio terrível e cheio de curvas. Aí desce um sacerdote, vê o homem ferido e passa adiante. Logo depois desce um levita, vê e passa adiante. Nada de se admirar. A gente, provavelmente, faria a mesma coisa, desconfiando de uma armadilha com medo de ser assaltado. Com o samaritano acontece algo diferente. Ele desce a estrada, vê a cena, tem compaixão, se aproxima e ajuda o homem ferido. O que muda a direção do seu movimento, de passar adiante para aproximar-se, é a compaixão.

Tem no texto grego do Novo Testamento uma palavra esquisita para dizer “ter compaixão”. Os gregos encontraram dificuldade para traduzir o hebraico “nikmeru rachamav”, que, literalmente, significa “seu útero contraiu”. Misericórdia e útero tem em hebraico a mesma raiz: útero, colo materno, compaixão. Órgão que recebe a vida,  faz crescer a vida e dá a vida à luz, é expressão de compaixão, misericórdia. Para a gente amar o próximo, se tornar próximo do outro, precisamos saber amar não somente com nosso coração, nossa alma e nossa inteligência, mas, sobretudo, com nossas entranhas, nosso colo materno, nossa barriga.

Já pensou?!
Além da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, precisamos ter devoção ao Sagrado Útero de Maria! Trata-se da qualidade da empatia, da identificação e da consequente solidariedade criativa com o outro.
Jesus termina a conversa dizendo: “Vá e faça o mesmo!”
Pois bem, façamos! Um Natal com paixão!
Feliz Natal e tudo de bom para 2015!

----------------------------------------------------

* RobertoPloeg - texto enviado aos amigos pelo autor - Natal, 2014.
Imagem: Roberto Ploeg - "Dado à Luz",  óleo sobre tela, 30 x 35 cm, 2008. 

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens e deseja que ela seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com

Posts + Lidos

Desenho de AlternativoBrasil e-studio