Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

MEMÓRIAS DO SERTÃO

4 de julho de 2014

Assim, elas chegam sem avisar, as memórias, e nos levam de volta à infância, a minha lá no sertão do Moxotó, banho de bica no calçadão da igreja, correria às tanajuras em buliçosa cortina esvoaçante, (fartura de macaxeira, jerimum, melancia e goiaba) – jumentos amarrados nos pés de algaroba, pão-doce mordido no caminho de casa, brinquedos de barro e bonecas de pano na feira de rua (um shopping center esparramado na poeira do chão), e quanta alegria!


Às seis da tarde o badalo triste do sino, a melodia a se espalhar num céu azul brilhante e sem nuvens, se não chover como fica a plantação, em março nem sinal, essa esperança da festa de São José (inda vejo a correria ao primeiro sinal de luz, nove da noite todo mundo pra casa, vão desligar o motor!) e a misturança de sabores do doce de mamão com coco, goiabada e bananada, rapadura com farinha, a meninada a rodear a praça ao som da rádio difusora - índia teus cabelos nos ombros caídos, negros como a noite que não tem luar! - e os ecos tristes de folhas mortas, você é jornal de ontem... Nem uma carta deixou!




Os namorados de minha irmã – como eram bonitos! – tão vivos nos sonhos da menina mulher; e as serenatas, ah, as serenatas na calçada da igreja, ao lado de casa, os sonhos embalados nas cordas do violão, e as canções que minha mãe cantava: Sertaneja se eu pudesse,  se papai do céu me desse o espaço pra voar... Eu corria a natureza, acabava com a tristeza só pra não te ver chorar!  E o burburinho da máquina Singer a me ver crescer...

Quero banhar-me na água trazida por Dona Quitéria, subindo a escada, lata       d´água na cabeça - contemplar Maria Grande na cozinha espaçosa (o fogão a carvão, colher de pau a se enroscar na panela de barro e os bolinhos de feijão amassados nas mãos, tão saborosos!), e tornar aos cuidados de Maria Pequena – éramos sete, as crianças, ela a nos fazer o lavapés, à tardinha, vivíamos descalços.


Vou seguir em direção à fazenda de Teté, (um longo corredor de avelós embrenhado no cipó retorcido da cerca); sentir a gostosa acolhida da boa gente de Custódia, sair nos pastoris – Viva o azul! Viva o encarnado! – (a minha irmã do azul, eu a contramestra), e os teatros ensaiados em casa: Seu doutor eu mandei lhe chamar, pra o senhor uma receita passar: dói-me aqui e dói-me cá!

Volver a los siete ...  Sentir o ardor das chineladas da minha mãe, nas palmas das mãos, o cheiro do café torrado no tacho, o gosto da paçoca de carne seca e farinha, pisada no pilão, (minha avó e seu longo rosário azul, absorta, a rezar por todos nós); voltar às férias em Tabira, no Pajeú, favos de mel lambidos num doce prazer, as laranjeiras carregadas no quintal do meu avô, bastava tirar e a mãe descascava deixando a pele inteira, apenas um corte para sugá-la (Mãe Velha, paciente e cuidadosa, a costurar camisas de homem) e, no quintal de Tia Emília, as rodas alegres de assar castanhas e a doce amizade de Josete, até hoje tão presente!  




Vontade de subir no caminhão pra ir à fonte de Sabá, de tomar banho de rio como todo mundo fazia, e, como todo mundo, montar a cavalo, correr pelas ruas e me chafurdar feito moleque... Mas, era proibido!

A casa tão grande e comprida, a casa limpa e arrumada, e minha mãe que sabia de tudo: onde está o meu livro, a tesoura, o cordão, o lápis, onde está? E minha mãe sabia! Quero de volta meus vestidos de organdi, minha saia rodada com babados e sianinha, e o São João caipira da minha infância, a faca na bananeira, a fogueira em frente de casa, o nosso olhar curioso na bacia d´água, pra ver o rosto, que ninguém queria morrer naquele ano.  




Vou correr dos papangus na festa de carnaval, sair gritando com o palhaço do circo, (Hoje tem espetáculo? Tem, sim senhor! ) cantar as modinhas das eleições (torcidas acirradas em grande suspeição), acompanhar a procissão de ramos e a malhação do Judas na semana santa, e volver às danças animadas do bar Fênix, eu a rodopiar, levemente índia, o coração em solavancos! 



Ai, com essas lembranças tantas e tão boas, como pensar alguma coisa que era ruim?


Crédito de Imagens:

1. Igreja de Custódia - www.diocesedefloresta.wordpress.com

2. Máquina de costura -  www.canstockphoto.com.br/foto-imagens
3. Sertanejo com jumento - www.canindesoares.com/fotojornalismo
4. Banho de rio -  www.cnstockphoto.com.br/foto-imagens
5. Malhação Judas - www.riodejaneiroaqui.com.br 


Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre  em contato com vrblog@hotmail.com 

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