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MULHERES ESCRITORAS NA LITERATURA BRASILEIRA

26 de abril de 2018



"Venho de longe, conquistei o mundo de pés descalços. Quero encorajar o meu povo, as mulheres da minha terra: por muito difícil que as condições sejam, caminhem descalças e vençam".  
Paulina Chiziane, romancista moçambicana.


Aos caros leitores do Espaço Poese, trago uma boa notícia neste mês que se insere na comemoração do Dia do Livro: está sendo finalizada, em maio próximo, a produção do meu primeiro livro: Acasos e  Silêncios - Editora Mariposa Cartonera  uma proposta alternativa de editoria. O livro se apresenta com duas partes: uma, de ficção, a outra de poesias. É um sonho que estou realizando ao fazer 80 anos! 

Em comemoração, irei apresentá-lo, na segunda quinzena de julho que vem, aos familiares, amigos, e amigos dos meus amigos. Para os leitores do Espaço Poese, estou em busca de uma forma de oferecê-lo à venda, através de um site confiável. Voltaremos a falar sobre o assunto mais adiante.

Há um mês atrás fui selecionada em primeiro lugar no concurso: I Prêmio de Literatura da Mulher  Idosa  do Estado de Pernambuco, na  modalidade conto, com o título: "A surpreendente Clarice". Diz-se que virá publicado, pela CEPE, junto a mais nove obras premiadas, em prosa e poesia.   Entre as mulheres que concorreram com poesias, o primeiro lugar coube a Marli Marques Pereira Marques, também residente no Recife.

Percebendo como as escritoras do nosso país têm sido “esquecidas” nas antologias brasileiras de literatura, venho pensando como mobilizar nosso interesse pela literatura escrita por mulheres. Nesse meu intento, e na condição de leitora, me ponho as seguintes questões:

— Será que existe apenas o ponto de vista feminino, quando uma autora imagina situações que enredam as relações humanas?

 Além das características pessoais de cada autor, no ofício da escrita, se percebe a presença de uma sensibilidade mulher, no seu modo de engendrar suas histórias e de versejar?  

Sabe-se que a mulher brasileira marcou sua presença bem mais tarde, na história da literatura do país — somando a sua substantiva presença junto aos seus parceiros homens. Embora tenham-se afirmado com excelentes obras — inclusive no exterior  o registro da  presença da mulher, quando se folheia as antologias de literatura brasileira, apresenta um grande descompasso. 

Seguem algumas observações iniciais:

No livro da série Folha Explica  Literatura Brasileira Hojecom 164 páginas, Publifolha, 2004  o professor Manuel da Costa Pinto (mestre em literatura comparada pela USP), apresenta um panorama da literatura brasileira contemporânea. Foi selecionado um total de 60 escritores, entre os quais apenas 6 mulheres (citadas, aqui, em ordem alfabética): Adélia Prado, Ana Miranda, Claudia Roquete Pinto, Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles e Zulmira Ribeiro Tavares. Nessa obra, a relação é de uma escritora para cada dez escritores homens.

Oito anos depois (2012), na importante antologia: A Literatura Brasileira Através dos Textos  29ª edição "revista e ampliada", do professor titular da USP, Massaud Moisés (Ed. Cultrix, 2012), não aparece um só poema da insigne Adélia Prado, e  como no Folha Explica de 2004 não são registrados os significativos contos de Nélida Piñon, nem a escrita surpreendente de Cora Coralina, entre outras graves ausências.

O livro,citado apresenta textos de 90 escritores, em 660 páginas. Um registro  significativo, que inicia com a histórica carta de Pero Vaz de Caminha. E tão minguado é o número das mulheres  honradas com a publicação de trechos de suas obras que podem ser nomeadas aqui: Cecília Meireles, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Raquel de Queiroz. 

Na minha observação de leitora  muito longe do acesso à informação que terá o reconhecido professor da USP, nessa área  a sua edição “revista e ampliada”, do ano de 2012, deixa de registrar significativas obras de reconhecidas escritoras brasileiras. 

Tendo presente a data da edição revista da antologia (2012), vê-se que são anteriores as datas de obras das escritoras "esquecidas".   

— A Global Editora já havia lançado a 2ª. edição (1986) do livro: Estórias da Casa Velha da Ponte, de Cora Coralina;
— A Siciliano já havia lançado Poesia Reunida (1991), da insigne poetisa Adélia Prado;
— A Ática já havia lançado Quarto de Despejo (1992) de Carolina Maria de Jesus;
— A LP&M já havia lançado, em 2000: Cortejo do Divino e Outros Contos Escolhidos, de Nélida Piñon;
— A Record, já estava na 3ª. edição do livro: Pensar é transgredir (2004) de Lya Luft.
— Toda a bibliografia de Clarice Lispector já estava disponível.


Fiquei a pensar numa situação hipotética: alguém decide escrever sobre  obras musicais brasileiras e vem a citar Carlos Gomes e Villa Lobos, mas, no entremeio, deixa de nomear Chiquinha Gonzaga e outros, da época. 

Então, me pergunto: a que serviria as antologias, se os autores decidissem apresentar apenas as obras de sua preferência, deixando de lado a justeza e a abrangência do registro?

No caso da literatura brasileira, se respeitáveis professores não reconhecem obras de prosa e poesia — que efetivamente enriquecem e qualificam a literatura brasileira  imagine se haverá lugar para que as novas gerações de  escritoras seja lembrada, nas antologias que virão.

Pego outro livro, com um referencial histórico específico: Presença da Literatura Brasileira: Modernismo — História e Antologia, dos conhecidos professores Antônio Cândido e José Aderaldo Castello (Ed. Bertrand Brasil, 2015, 15ª edição). São apresentados 20 escritores. Entre esses, estão duas vanguardistas do modernismo no Brasil: Cecília Meirelles Raquel de Queiroz. Os números referenciais são: uma escritora para cada dez escritores homens. A história confirma como as mulheres chegaram devagar, na trilha da literatura do país. Curiosamente, a bibliografia dessa obra inscreve, entre os livros consultados — dos longínquos 1952  o da crítica literária Lúcia Miguel Pereira.
    
Recentemente, encontrei um artigo no acervo da Revista Carta Capital (2016), da jovem escritora Aline Valek. Ela fala de forma contundente sobre a questão que levantamos aqui:

 "(...) é um machismo que se manifesta de forma sutil, empurrando as autoras para as margens. É o machismo de tornar as mulheres invisíveis. É o machismo da ausência de oportunidades”, sustenta. "E isso vem desde muito cedo, desde quando as jovens mulheres, ainda mais quando são pobres, especialmente quando são negras, são desmotivadas a escrever; quando escrevem, têm dificuldade de ser publicadas; quando são publicadas não recebem tanta projeção". E conclui: "Então, é sobretudo para as ausências que precisamos prestar atenção". 

O que queremos sublinhar, aqui, não parte da ingênua pretensão de se insurgir contra a grande contribuição e o valor alcançado pelos escritores, homens, na história da literatura do país. Não é disso que estamos falando. Estamos falando de uma necessária tomada de atitude, para  no dizer da escritora Aline Valek   prestar mais atenção nas ausências. Prestar mais atenção, e tentar incentivar as preciosas escritas femininas da língua portuguesa, onde quer que apareçam. 

Cada um de nós — mulheres e homens — pode fazer a sua parte para divulgar  a literatura brasileira de uma forma mais justa e inclusiva. Homens e mulheres podem fazer isso, colaborando com as bibliotecas populares de sua cidade, participando das rodas de leitura, pesquisando a produção das editoras e das revistas especializadas, e incentivando atividades nas bibliotecas públicas e nas Academias de Literatura estaduais e interioranas. Essas, surgem e ressurgem, muita vez com o impulso criativo de mulheres, a promover grandes esperanças. 

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Texto citado, de Aline Valeck – publicado em Carta Capital, 27/07/2016.


Créditos das Imagens:

1. Pauline Chiziane - escritora moçambicana, membro do CSCS 
www.folhademaputo.co.mz/pt/noticia/nacional/
2. Vanise Rezende - participando de evento da EdC-Economia de Comunhão: uma audiência com o Papa Francisco - Vaticano-2017.
3. Vanise Rezende - durante evento do Governo do estado de Pernambuco, no momento de receber o I Prêmio Literatura da Mulhe Idosa - 1º lugar/conto.
4. Adelia Prado - escritora brasileira - www.essaseoutras.com.br/adelia-prado-biografia-da-escritora-poemas-melhores-obras-e-fotos.
5.  Clarice Lispector - escritora brasileira - foto da Editora Rocco, no livro: Clarice Lispector - Todos os Contos - 2016.
6.  Lya Luft - escritora brasileira - http://www1.folha.uol.commbr/ilustrada/2017/
7.  Chiquinha Gonzaga - musicista brasileira - http://youtube.com
8.  Aline Valeck - escritora brasileira - www.camillices.com.br


Nota: As imagens aqui publicadas pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com


















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