Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

MEMÓRIAS - TEMPOS DE CELEBRAR

22 de março de 2017

Há situações das quais se demora a entender o porquê, o sentido que elas carregam no percurso da vida. Feito quando a terra se vê árida,  na proximidade de um rio, sedenta de chuva e de cuidado. 

Meses e meses sem cair um pingo d´água a dessedentá-la, a plantação ressequida, os riachos a minguar dos afluentes aflitos. 

Quando um umbuzeiro se entrega à estiagem, desnudo e seco,  é porque não há mais na terra o que tirar, e o céu insiste na sua limpidez ensolarada, num azul mortal de abandono.

Muitas vezes contemplei paisagem semelhante no Sertão do Moxotó, e também à beira do São Francisco. Como agora. A expectativa das águas de março, a fechar o verão, é a esperança última de um chão em agonia no grande Sertão.  

Há algum tempo não visito minha terra natal, e vivo nas vizinhanças dos arrecifes banhados pelo Capibaribe. Distanciei-me dos pesares da seca e das alegrias das chuvas de São José e do São João. 


Uma recente experiência pessoal me trouxe não diria a tristeza braba da paisagem da seca, mas a nostalgia transmitida por um vazio arrasador na pequena paisagem da minha janela. 

Estava habituada a contemplar as minhas plantas, dia após dia, na ampla sacada do quarto. Ali, plantei e vi crescer uma vasta trepadeira de buganvília, com seus cachos lilases, ao lado de uma planta de folhas miúdas encantadoras.





A elas se ajuntara um grande pé de jasmim brilhante e viçoso, que me oferecia o perfume de suas brancas flores até dentro do quarto. As ramas da buganvília, de tão exuberantes, entravam pela janela do banheiro, enfeitando-a de cor e beleza.



Mas, chegou o dia em que foi necessário fazer uma poda radical, para desobstruir os canos entupidos pelas raízes de tanta flora. Então, percebi a perda de algo que, - nesse tempo da velhice - tornara-se parte de minha vida como coisa muito amada. E me ressenti como se fora a secura do Sertão. 




Para coroar minhas emoções, uma trepadeira da família alamanda, - que se expandia vigorosa no canto da sacada - surpreendeu-me com uma flor amarela, delicada e única, a coroar a despedida do meu jardim, com sua beleza.

Uma ocasião para descobrir, mais uma vez, que certas perdas e as súbitas mudanças, na vida, podem sugerir a oportunidade de novas potencialidades. 

A buganvília poderá ressuscitar numa grande jarra da varanda. A planta de folhas miúdas poderá brincar de cor e beleza ao seu lado. As raízes da alamanda foram transplantadas, e estão a exigir outro tempo de espera para que eu me surpreenda, quando a flor amarela entender que será novo tempo de celebrar. 


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Crédito das imagens:

1. Umbuzeiro ressequido - arquivo privado do blog.
2. Buganvília - https://pixbay.com/pt/photo/buganvílias.
3. Rama da buganvília entrando pela janela... - arquivo privado do blog.
3. Alamanda amarela em flor - arquivo privado de imagens.

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre  em contato com vrblog@hotmail.com 



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