Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

MENSAGEM TARDIA A JULIO CORTÁZAR

22 de novembro de 2016


Deu-me vontade de enviar essa mensagem a você, você que há anos se foi e agora "está "... Pra falar daquela sensação tão viva que você descreveu sobre o seu amigo Paco, que morrera há trinta e um anos e ainda estava aí, não lá em cima nem na estratosfera, mas estava aí enquanto você acordava ou escovava os dentes, o amigo tão especial, os outros presentes nos sonhos, mas ele sempre. 

Eu também tenho essa sensação da presença viva de pessoas que amei e que se foram há tantos idos anos. E, como você, Cortázar, sei que a Mara, minha amiga Mara "está aí". Quem sabe vocês se encontraram na Argentina, ela estava lá no tempo de Allende, e depois como você foi morar em Paris. Ela e o Phillipe, você e a sua Carol, quem sabe chegaram a conversar um dia, quem sabe...

Mara vive. Vejo-a chegando à minha casa com suas malas de repente, sem dizer quando nem por que... Ainda sei dos contatos que ela tinha lá em casa, e não me falava nada... A ditadura em pleno rigor... Ela sequer uma explicação.    

O tempo passou... Um dia ela mandou me chamar depressa, morava no Rio de Janeiro e estava partindo, - dessa vez não para cooperar com o governo de Moçambique – ia de férias a Paris, tinha a passagem comprada, tudo pronto...

De repente, não mais. Viera a leucemia, eu ali junto a massagear seus pés ou acarinhar seu rosto pálido, e aquela sua expressão amorosa de cuidado com os amigos que chegavam para visitá-la.  


Na sua crônica, caro Cortázar, você dedica ao Paco aquele quadro de René Margritte: um cachimbo... Ou um caminho sinuoso, uma ponte e não um cachimbo. O que você escreveu eu sei que é assim, a Mara todavia está pra chegar com suas grandes malas, viva e sorridente, maravilhosamente ela,  (a saudade me avisa quando o amigo que partiu está aí). 

Como você, Cortázar, a gente não sabe como nem onde... Só sabe que não é lá em cima, quiçá ao lado, cá dentro, está aí, eu sei, a Mara. Mesmo depois de anos que nem contei quantos!




Aquele seu rosto grande e cheio, como uma índia morena, olhos brilhantes de vida, cabelos lisos  e um vestido leve e solto de algodão florido, como se usava então, e ela aí... ativa, atenta a todos os meus senões. A vida a fluir e a sua presença delicada, ela aqui, e ainda sabe amar como ninguém...


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Texto inspirado no conto de Julio Florencio Cotázar - romancista, contista e cronista argentino (*26/08/1914 +12/02/1984): "Aí, mas onde, como". Livro de contos "Octaedro", Edições BestBolso, Editora Best Seller Ltda. Rio de Janeio, RJ


Créditos das Imagens

1. Imagem - www.ihu.usininus.br/entrevistas/557209
2. Foto de Marluza Correia Lima - arquivo deste blog
3. Cachimbo - Pintura de René Magritte - www.obviousmag.org
4. Rosto de índia publicado por www.avaaz.com.br - divulgação.

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens e deseja que ela seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com

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