Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

ATITUDE ÉTICA - QUEM FEZ MINHAS ROUPAS?

4 de junho de 2016



Responsabilidade para tecer tramas do pensar, agir e vestir com ética.
Hoje, trazemos a este espaço um tema já abordado neste blog, sobre a responsabilidade ética de nossas escolhas no momento de adquirir roupas prontas para nosso uso pessoal ou para presentear os que amamos. Trata-se de uma entrevista feita por por Leslie Chaves a Fernanda Simon - e copiada aqui, em parte, de modo a possibilitar a sua publicação neste espaço. (i)
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Entrevista com Fernanda Simon
Por: Leslie Chaves





Fernanda Simon é consultora de moda, graduada pela Faculdade Santa Marcelina, de São Paulo. Morou durante sete anos em Londres (Inglaterra), e se especializou na área de moda sustentável. Hoje coordena o Fashion Revolution Brasil. É consultora e também sócia-fundadora da agência brasileira UN Moda Sustentável.

Este ano o Fashion Revolution está promovendo a campanha Quem faz as minhas roupas? com o intuito de chamar a atenção para as condições de trabalho na indústria da confecção de moda, e exigir transparência e ética no circuito de produção e circulação dos produtos. Além disso, pretende construir um elo de corresponsabilidade ética entre  costureiro e consumidor.

A importância de se retomar esse elo – diz a entrevistada - é a de aprender a valorizar as pessoas que produziram as roupas que compramos. E afirma: O trabalho desses profissionais é muito importante mas, em geral, essas pessoas acabam escondidas atrás da roupa que produzem, e não pensamos em como se dá todo o processo de produção e em que condições e ambientes essa produção aconteceu.

Seguem trechos da entrevista:

IHU On-Line – A moda pode ser um agente político? De que maneira?

Fernanda Simon – Com certeza a moda é um ato político, pois somos responsáveis por tudo que compramos. Ao adquirirmos algo, passamos a fazer parte do “carma” daquele produto.  Quando o compramos, estamos compactuando não só com sua origem, mas também com seu destino após o uso. Quando compramos um produto feito por mão de obra escrava ou produzido com matéria-prima que provoca impactos ambientais, estamos alimentando esse processo e contribuindo para que ele continue acontecendo. Da mesma forma temos que pensar no seu pós-uso.  O produto que estou comprando pode ser reciclado, ou vai virar lixo? Para onde ele vai? São questões com as quais precisamos nos preocupar. Ao tomar consciência desse processo, estamos começando a refletir sobre qual o tipo de mundo que queremos.

IHU On-Line – Quais são os custos e impactos da indústria da moda em seu ciclo desde a produção até o consumo?

Fernanda Simon – Há questões dos impactos ambientais e sociais que não são calculadas no preço final dos produtos. Em relação ao custo ambiental, a indústria da moda é a que mais polui no mundo. Cerca de 20% das águas contaminadas industrialmente são provenientes da indústria da moda. Fora isso, há ainda o problema das plantações de algodão, muitas são transgênicas e prejudicam o solo e também os trabalhadores. Por exemplo, na Índia  há estudos comprovando que - nos últimos 16 anos - cerca de 250 mil camponeses se suicidaram por problemas econômicos, em decorrência do monopólio da semente do algodão, originando uma crise humanitária  no país.

Ainda há o dilema dos resíduos que sobram dos processos de corte. Cerca de 15% dos resíduos de corte acaba indo para o lixo. Esse material poderia ser reaproveitado, mas na maior parte das vezes isso não acontece. No outro extremo da cadeia produtiva, as roupas que deixam de ser usadas pelos consumidores também acabam tendo como destino o lixo, sem reutilização. Então, há inúmeros fatores ambientais que não são considerados na hora da compra de uma roupa.

As questões sociais também geram um alto custo à produção da moda. Um dos exemplos é o acidente que aconteceu em Bangladesh, quando - em abril de 2013 - o complexo industrial Rana Plaza desabou, matando mais de mil pessoas e ferindo gravemente mais de duas mil. Infelizmente, esse tipo de acidente acontece com frequência. Em abril de 2016, também na Índia, houve um incêndio em um prédio onde funcionava uma fábrica de roupas, por falta de segurança no ambiente de trabalho.

Essa mesma realidade se reproduz no Brasil, onde há situações de trabalho análogas à escravidão, em diversas confecções. Em São Paulo isso é muito comum. Muitas vezes estão envolvidas marcas famosas, que são autuadas com bastante frequência. Nós geralmente não pensamos em como e por quem foram produzidas as roupas que compramos, se foi em uma confecção legal; se os trabalhadores eram tratados com dignidade; quais foram os impactos causados pelo tecido, como, por exemplo, o jeans, que passa por diversos processos de lavagem, além de toda a água que já é utilizada para a produção dessa matéria-prima, em seu tingimento e beneficiamento. O curioso é que grandes milionários do mundo são os donos das marcas que são autuadas por trabalho escravo, no processo de produção. (...) 

IHU On-Line - O que é moda sustentável? Esse conceito também inclui a dimensão social?

Fernanda Simon –  O conceito da moda sustentável também considera as  questões sociais, até mesmo porque o desenvolvimento sustentável consiste no equilíbrio dos âmbitos econômico, social e ambiental. Definir moda sustentável é um pouco difícil, porque é impossível esse setor ser totalmente sustentável. Na verdade, sustentável mesmo é manter as roupas que já existem, porque toda vez que se vai produzir um produto novo, algum impacto ele vai deixar. (...)

IHU On-Line – No Brasil, como está o desenvolvimento do conceito de moda sustentável?

Fernanda Simon – O desenvolvimento do conceito de  moda sustentável  ainda está começando, no Brasil, mas já existem profissionais brasileiros que trabalham com essa concepção, e que já criaram marcas com essa base. Isso é muito importante porque atualmente existem outras companhias que cresceram muito, mas que nunca tiveram esse conceito de sustentabilidade, então elas acabam precisando voltar atrás para rever todo o seu processo de organização e produção, e tentar seguir esse caminho. Algumas organizações têm uma preocupação mais social, outras se ocupam mais com a questão ambiental, como a gestão dos resíduos, e também há as que têm um conceito mais slow, isto é, produzem num ritmo menos acelerado, produtos com maior durabilidade, em ateliês menores etc. O conceito de sustentabilidade na moda é muito mais difundido e há mais tempo, em outros países. No entanto, nesses dois últimos anos, com a Fashion Revolution  atuando no país, tenho percebido um crescimento surpreendente da noção e produção sustentável na moda.

IHU On-Line – Em que consiste o Fashion Revolution? De onde partiu a iniciativa?

Fernanda Simon – O movimento Fashion Revolution iniciou em 2013, quando aconteceu o desastre em Bangladesh (...). A partir desse acontecimento, alguns profissionais da Inglaterra, que já tinham a preocupação em trabalhar com uma moda mais voltada à sustentabilidade, mais ética e interessada no bem-estar dos trabalhadores, se reuniram e decidiram organizar um movimento para ressaltar a gravidade do desastre e não permitir que ele fosse esquecido. Assim que esse grupo fundador se fortaleceu em Londres, em outros países pessoas que também tinham esse engajamento aderiram à mobilização. (...) Incentivamos os consumidores a se questionarem e também a questionarem as marcas de sua preferência. Nossa ideia é voltar a conectar o elo quebrado entre o consumidor e o costureiro, pois, muitas vezes, nem as próprias marcas sabem quem produziu a roupa que elas vendem.

Estamos há pouco mais de dois anos no Brasil. Atuamos nas frentes de conscientização e educação, em que temos nosso maior enfoque, com a realização de palestras nas universidades, cursos de moda e outras atividades, pois acreditamos que os novos profissionais são os responsáveis pelo futuro da cadeia produtiva da indústria da moda. Em abril nós tivemos a celebração da Fashion Revolution Week de 2016, quando foram promovidos mais de 40 eventos em 25 cidades diferentes, com a participação de 27 universidades nessas ações. (...)


IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Fernanda Simon – Gostaria de convidar as pessoas a se engajarem nesse movimento e a refletirem sobre esse tema, questionando as marcas sobre os processos de produção da indústria da moda e reivindicando que valores como sustentabilidade, colaboração, justiça e igualdade sejam considerados pelas companhias. E não só pelas companhias, mas também pelos consumidores, pois somos parte dos problemas e das soluções que envolvem a concepção e a circulação desses produtos. Assim, todos nós podemos exigir mais transparência e ética nessa cadeia produtiva e fazer com que as coisas aconteçam de um modo diferente.

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(i) Entrevista publicada na revista IHU On-Line no.486, de 30/05/2016, e republicada em “Carta Maior”, em 04/06/2016.

Confira a íntegra da entrevista em:
www.ihu.usininos.br/entrevistas/555936-responsabilidade-para-tecer-tramas

 Créditos das imagens:

1.    Faschion Revolution Brasil – ilustraçãodo do artigo in: www.ihu.usininos.br
3. Passeio no Parque - Claude Monet - divulgação.
4. Mulher ao espelho - Iman Malek (iraniano) - Galeria do pintor.
5. O japonês - Anita Mafaltti - www.enciclopediaitaucultural.org.br

Nota:  As  imagens  publicadas  neste  blog  pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas, e deseja que  seja removida deste espaço,  por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com


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