Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

ECONOMIA DE COMUNHÃO - ASSENTAMENTO BRANQUINHA - AL

10 de junho de 2016

Há cerca de vinte anos começou uma história de trabalhadores rurais que foram expulsos das terras devolutas ocupadas por eles, para plantar e viver da sua produção, no município de Branquinha (estado de Alagoas), no Nordeste do Brasil. 


Da mesma forma que  nos tempos  da  colonização “descobridores”  da  Terra de Santa  Cruz expulsaram os povos indígenas dos campos que a cultivavam, hoje os posseiros que cultivam terras devolutas são expulsos por grileiros, de forma ilegal e violenta.




O nome  Zumbi dos Palmares  dado ao assentamento um dia conquistado por aqueles trabalhadores  homenageia um dos grandes líderes da resistência dos escravos negros no Quilombo dos Palmares, também em Alagoas. No  dia  de  sua morte  – 20 de novembro – é  comemorado  o  dia  da consciência negra. 






A história do assentamento – onde passa o Rio da Branca, na cidade de Branquinha  – inicia em 1996. As famílias dos trabalhadores rurais estão habituadas a contá-la, e não esquecem os inúmeros apoios que receberam desde quando foi realizada uma pesquisa, nos anos 2000, pela professora Cristina Lira da Universidade Federal de Alagoas. 

Tudo começou com uma ousada questão, levantada pelos posseiros, ao término da pesquisa.  Ao  agradecer  a  colaboração  dos  assentados,  a  professora foi desafiada: – Agora que  conheceu a gente e sabe a nossa situação, vai nos deixar sozinhos?


Não foram abandonados. 
A pesquisa se reverteu em busca de apoios de toda 
ordem para aquela comunidade. Além da UFAL, receberam apoios da Seagri – Secretaria de Agricultura de Alagoas, do Sebrae – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas e da EMATER-AL. 

Mais tarde, o Instituto Mundo Unido concebeu um projeto para estruturar as atividades da Aproagro – Associação Agroecológica de uma das comunidades do mesmo assentamento, que conta hoje com cerca de vinte famílias de produtores agroecológicos, alguns deles  com  certificação  para  vender produtos nas feiras orgânicas dos municípios vizinhos.


A Aproagro recentemente foi premiada com um caminhão, para transportar seus produtos às feiras dos municípios vizinhos. Parece uma conquista inusitada num processo de luta tão desigual.  Mas  foi  justamente  o  reconhecimento  da sua  história  de  resistência  e  de  conquistas,  que  a  colocaram  entre  as associações merecedoras  da  premiação. Contudo,  a comunidade ainda tem necessidades latentes.


Em conversa com as mulheres, perguntei qual foi o apoio que elas receberam para aprenderem como organizar sua produção e a venda de seus produtos. A resposta foi imediata e muito clara: - A professora Cristina foi uma ponte pra gente. Tudo começou com ela. 

"Antes, a gente já tava organizada, mas não sabia como melhorar, pensar no negócio concreto da terra. Ela foi procurar formação pra gente aprender a chegar onde queria. A gente queria, mas não sabia como chegar lá".   – “Tivemos cursos para aprender a cuidar do negócio, até pra esse assunto de plantar, colher, calcular o valor e colocar no marcado... No preço você joga o trabalho da produção e a energia que a gente botou pra cuidar”.  

No percurso dessa história, as lideranças femininas locais tiveram que enfrentar “inimigos” muito espertos, como os atuais membros da Associação Zumbi dos Pallmares da qual também elas fazem parte. Trata-se de alguns homens que – fundados na herança profunda do machismo cultural resistente e violento – não suportam ver as mulheres se organizarem e crescerem por conta própria, o que provoca atitudes de inveja e de maldade contra elas.


Por ocasião de nossa visita ao assentamento, eles chegaram sem avisar, e derrubaram o muro iniciado pela comunidade para proteger a pequena capela do assentamento, construída próxima à sede da Aproagro.  
Uma das mulheres os enfrentou de forma firme e corajosa.  Mesmo  assim, fiquei a me perguntar quando as duas partes terão mais coragem ainda para enfrentar o diálogo, a construção da concórdia e da mútua colaboração entre a Aproagro e a associação do assentamento Zumbi dos Palmares. 

A pequena capela e a sede da associação (uma sala, um arremedo de cozinha e um sanitário)  foram  edificadas  na  área  comum  do  acampamento  para  os equipamentos sociais. A sede – embora simples – está bem equipada para a realização de reuniões, e o funcionamento da secretaria da associação.

A Aproagro é incorporada ao sistema de Arranjo Produtivo Local, adotado pela prefeitura para a produção de laranja lima e de banana

Algumas famílias da Aproagro possuem o selo de produção de orgânicos, com direito a vender nas feiras municipais.
Os bons resultados da produção nos lotes do assentamento,  e da venda nas feiras são visíveis. A qualidade das residências das famílias dos produtores da Aproagro é uma prova inconteste dos resultados financeiros dessa atividade, embora a demanda nas feiras de orgânicos dos municípios, ainda seja maior que a oferta.




A partilha é uma atitude presente na cultura da associação. O caminhão, por exemplo, – além de concorrer à mobilidade dos produtos para as feiras nas cidades vizinhas – é um bem utilizado também pelos produtores agroecológicos de outros assentamentos, que aproveitam para levar seus produtos às feiras, junto às famílias da associação.


Conhecer esse projeto é uma experiência que enseja grandes esperanças. 
Especialmente por se tratar de produtores e produtoras rurais que aprendem a desenvolver seus negócios e, ao mesmo tempo, exercitam os valores da partilha e da solidariedade. O apoio do movimento Economia de Comunhão levou essas pessoas ao aprendizado de mobilizar ideias, informações, equipamentos, talentos e bens relacionais, e a manter sempre viva a força de construírem juntos dias melhores.   












[i] Zumbi dos Palmares  nasceu no estado de Alagoas no ano de 1655. Foi um dos líderes da resistência negra à escravidão, no Quilombo dos Palmares, um dos locais para onde os escravos fugiam em busca da liberdade. Ele é considerado hoje uma grande figura da historia brasileira. O dia  de sua morte  – 20 de novembro – é comemorado o dia da consciência negra. 

Crédito das Imagens

1. Ocupação de terras - www.g1.globo.com - foto de Jonathan Lins.
2. Equipamentos Sociais do assentamento - pt.slideshare.net - Majaalfor
3. Laranjal - foto de mmcbrasil.com.br
4. Ideais desenhadas e escritas por produtores da Aproagro. Carlos Xavier. 
5. Homens da Associação Zumbi dos Palmares, chegam sem avisar e derrubam       a proteção feita em torno da pequena igreja. Foto de Williams Souza. 
6 e 7 - Feira dos produtos agroecológicos e orgânicos das famílias da Aproagro - na UFAL - divulgação.

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