Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

NÓS, AS MULHERES

9 de junho de 2014


Este ano o Dia da Mulher celebrou o seu centenário (19014/2014). A UBM - União Brasileira da Mulher comemorou a data em seu congresso anual, que se realizou nesse mês de junho, em Brasília.



Há inúmeras mulheres que se destacaram, em suas diferentes culturas, e que conquistaram o reconhecimento mundial, como, por ex., Maria Cury (1867/1934), Hannah Arendt (1906/1975), Olga Benário Prestes (1908/1942), Simone de Beauvoir (1908/1986) Simone Weil  (1909/1943) e Bethy Freadan (1921/2006). 

Suas histórias de vida repercutem, ainda hoje, como alento a todas as mulheres que precisam lutar para defender seus ideais na sociedade em que vivem. Dentre essas grandiosas mulheres do século passado, se sobressaem Olga Benário Prestes - uma jovem militante comunista alemã, de origem judaica, deportada pela ditadura de Getúlio Vargas, para a Alemanha, onde foi executada num campo de extermínio nazistas.



Simone Weil - escritora, mística e filosofa francesa, que decidiu ser operária da Renault, em Paris, a fim de conhecer o cotidiano dos operários de sua época e escrever sobre eles.

Ao rememorar algumas passagens da nossa história de intensas conquistas,  pode-se perceber que, no Brasil, houve um lento e contínuo processo de ideias e testemunhos, no qual as mulheres brasileiras começaram a definir,  por elas próprias, suas escolhas pessoais e profissionais, dando um passo de autonomia que as suas mães não conheceram.  

Muitas delas viveram longe de seus pais, para
continuar seus estudos em busca de carreiras que, até então, eram reservadas apenas aos homens.  Também ousaram seguir  profissões ligadas às artes, um campo de expressão que, até o início do século XIX não se podia cogitar. Enfim, elas foram mais além dos seus primeiros sonhos de concluir o curso do magistério, casarem-se e se tornarem mães. Só a partir do início desse século, com a ampliação das oportunidades de inclusão, na universidade, para as pessoas de baixa renda e para os afrodescendentes, centenas de mulheres puderam se especializar em diferentes campos, até mesmo como professoras universitárias e pesquisadoras, o que até a metade do século passado ainda era privilégio dos homens. 

A socióloga Angela  Alonso, professora da USP e atual diretora científica do CEBRASP, em um artigo intitulado Abolicionismo de Saias, destaca importantes nomes na história da mulher brasileira. Um deles é Maria Firmina dos Reis (1825/1917) : "maranhense, mulata, solteira, era professorinha de província, mas longe de acanhada: defendeu a abolição em jornais, com poemas, charadas, contos, e no primeiro romance brasileiro de autoria feminina: Úrsula (1859)".

Outra mulher citada pela socióloga é Maria Amélia de Queiroz, "de quem pouco se sabe" (...) "Em conferência no Recife, brandia a incompatibilidade entre escravidão e direito civil e natural. Em 1887, conclamou seu gênero: (...) que a mulher se convença de uma vez para sempre que já é tempo de levantar um brado de indignação contra o passado ignominioso de tantas raças malditas. A mulher também é capaz de grandes e altos cometimentos. Vinde! Vinde, pois, minhas amáveis patrícias!".

Chiquinha Gonzaga (1847/1935)  foi um marco na história feminista brasileira, ao abrir o seu espaço na sociedade carioca do século XIX, confrontando a vigente mentalidade machista e preconceituosa. A letra de sua marchinha, de 1889, parece-me indicativa de como a autora estava ciente do lugar que ocupava na sociedade de seu tempo: 

  

Ô Abre Alas,
Que eu quero passar!  (bis)
Eu sou da Lira,
Não posso negar...

Ô Abre Alas,
Que eu quero passar! (bis)
Rosas de Ouro é quem vai ganhar! 

Chiquinha  Gonzaga não só foi musicista inovadora, também se destacou como grande líder abolicionista. Aproveitando-se de sua inserção no mundo da arte, ela realizava sessões musicais em favor da abolição. Sobre essa mulher negra, inquieta e inovadora, Angela Alonso comenta: "ao pedirem a emancipação dos escravos, as associações femininas que saíam às ruas no fim do século XIX, alçaram a mulher ao mundo do poder." Segundo a socióloga, Chiquinha "varreu teatro, pregou cartaz, leiloou em quermesse, panfletou em cafés. Regia um coro de meninas nas conferências-concerto e vendeu suas composições de porta em porta para alforriar um escravo músico, o Zé Flauta.

Alonso conclui o seu brilhante artigo: O ativismo... dessas Marias e de Chiquinha "sinalizou o início do fim da escravidão da porta para dentro e a afirmação das mulheres da porta para fora. Ainda que pedindo emancipação não para si, mas para os escravos, as abolicionistas puseram as mulheres brasileiras na política, coletivamente, de maneira inédita. Por isso me parece difícil pensar em Marina e Dilma sem lembrar Maria Amélia". 

Em 2010, a revista Veja produziu uma edição especial “Mulher”, na qual retratava o processo penoso das conquistas da mulher, na sociedade brasileira, e mais especialmente no período da ditadura militar: “Direitos da mulher era um assunto espinhoso. 

Ao estrear, em 1963, na revista CLAUDIA, a coluna A Arte de Ser Mulher, em que defendeu a pílula, o divórcio e a inserção no mercado de trabalho, a jornalista e psicóloga Carmen da Silva foi ameaçada por maridos furiosos. Quase dez anos depois de a edição da REALIDADE ter sido recolhida das bancas, em 1967, por estampar a fotografia de um parto e a informação de que uma, em cada quatro brasileiras, já provocara um aborto, um número do jornal Movimento, que não trazia uma palavra sobre sexo (nem sobre política) foi proibido na íntegra – seu tema Mulher e Trabalho foi considerado provocador.”

O processo da autonomia conquistada pela mulher, na sociedade brasileira, a partir dos anos trinta, e, em maior intensidade, dos anos sessenta para cá, produziu brilhantes personagens femininas que nos orgulham e causam admiração.


Na literatura as mulheres se afirmaram, com maior notoriedade, a partir do início do século XX. Entre elas se destacam: Cecília Meireles (1901/1964), jornalista e poetisa de imensa sensibilidade; Rachel de Queiroz (1910/2003), escritora cearense, a primeira mulher a ser eleita, em 1977, para a Academia Brasileira de Letras; e Clarice Lispector (1920/1977) – que chegara da Ucrânia, no Recife, com três meses de idade, e que hoje se insere, também ao lado de Maria Clara Machado (1921/2001), Cora Coralina (1880/1985), Nélida Piñon e Adélia Prado, entre as maiores literatas brasileiras.



No teatro, continuamos a nos deleitar com as extraordinárias performances de grandes atrizes como Bibi Ferreira, 

Ruth de Souza,  Fernanda Montenegro e Eva Vilma, que já superaram os oitenta anos e ainda continuam atuando no cenário artístico nacional, sem esquecer Maria Della Costa e Tônia Carrero. Um pouco mais jovens, mas igualmente importantes, na dramaturgia brasileira, lembramos Aracy Balabanian, Marieta Severo, Lília Cabral, Glória Pires e Taís Araújo, entre muitas outras de reconhecida qualidade


No exercício da política - e ampliando nossa visão aos países da América Latina - a Argentina, o Chile e o Brasil elegeram uma mulher como presidenta. No Brasil, a partir de 1989, seis mulheres foram candidatas à presidência da república, todas apresentadas  por  partidos de pequena expressão política. Após os dois mandatos de Lula, o PT conseguiu maior robustez e apresentou uma mulher que tinha, em seu currículo, experiência e capacidade para se candidatar. Assim, Dilma Russeff  foi a primeira brasileira a ser eleita presidenta do Brasil, após mais de um século da proclamação da república. Hoje, ela figura, ao lado da presidenta da Alemanha, como uma das mulheres mais poderosas do mundo. 



Poucas mulheres alcançaram, no Brasil, expressão política nacional.  No registro dos nossos dias, apenas duas me parece ter atingido maior expressão:  a nordestina Marina Silva - que além de ter assumido um ministério no governo Lula, chegou a receber uma significativa votação, quando se candidatou à presidência da república.

A nordestina, Luiza Erundina - que já foi prefeita de São Paulo, o estado que a elegeu deputada federal. Sua atuação tem honrado o Nordeste, por sua integridade e sua coragem na abordagem e na defesa de questões que interessam os direitos humanos e o bem-estar social.   

Há, certamente, dezenas de mulheres que se destacaram ou se destacam em movimentos sociais  como o Movimento Negro do Brasil, o Movimento dos Sem Terra, a Comissão Pastoral da Terra, os Sindicatos das Empregadas Domésticas e a União Brasileira das Mulheres, para citar aqueles de maior representatividade. Nesses espaços, as mulheres atuam e se expressam com coragem, grandeza e determinação.   


Um exemplo emblemático na luta das mulheres do campo, é Margarida Alves (1933/1983), que foi traiçoeiramente assassinada em sua casa. Sobre a sua participação na luta dos trabalhadores rurais ela afirmou: “Eu sentia que os direitos da gente são iguais, ninguém é mais do que ninguém. E se eu estava aqui era porque certamente tinha vontade de trabalhar. Porque tinha coragem de lutar. Não tinha medo e achava que este negócio de homem e mulher é besteira. A mulher pode ser até presidente de sindicato, pode ser”.

É importante lembrar que as conquistas da mulher, aqui apenas enunciadas, não foram alcançadas com facilidade.  Foi preciso o testemunho de mulheres idealistas, comprometidas e fortes, que abriram caminhos para que a Constituição brasileira, em 1988, reconhecesse a homens e mulheres iguais direitos e deveres, como "pessoas" e cidadãos. 

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Imagens - Bibi Ferreira  – wikipédia,com  
                 Chiquinha Gonzaga - www.educacao.uol.com.br
                 Simone Weil - www.simoneweil.com.br;   
                 Rachel de Queiroz - www.racheldequeiroz.releituras.com.br
                 Ruth de Souza - www.funarte.gov.br/brasilmemoriasdasartes; 
                 Dilma Russeff - www.desabafopais.blogspot.com/2011
                 Luiza Erundina - www.luizaerundina.com.br
                 Margarida Alves -  wikipédia       

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