Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

UM NOVO ESPAÇO POESE

06 março, 2015



Integrando-se às comemorações do Dia da Mulher, no próximo domingo, 8 de março, o ESPAÇO POESE vai se vestir de novidades trazendo inovações não só no seu visual, mas no processo de pesquisa dos assuntos aqui postados desde o início deste blog. No post de abertura, em 31 de janeiro de 2014, citei um trecho da escritora e psicóloga Amparo Caridade: 

É sempre incompleta e pobre a escrita. A palavra é só um meio de comunicar o que vai na alma, e nos falta em momentos especiais. Nem sempre foi fácil escrever, embora me seja muito prazeroso fazê-lo. Mas é bom que seja assim. Do contrário, como poderíamos escrever de novo sobre o viver, o amar, o sentir, o querer, o desejar, o doer, o gozar?“

Hoje gostaria de lembrar um dizer do escritor uruguaio Eduardo Galeano, que considero uma relevante expressão do jornalismo crítico e da literatura contemporânea da América Latina, cuja linguagem poética, embrenhada de história, de amor e de vida, reflete a seriedade do seu compromisso ativo, pessoal e social com a humanidade: 


Para que a gente escreve,
se não é para juntar os nossos pedacinhos?

Galeano lembra os pescadores das costas colombianas, que "como sábios doutores de ética e moral, inventaram a palavra sentirpensador para definir a linguagem que diz a verdade." 

No seu novo desenho, o Espaço Poese traz "marcadores" ou "palavras chave" que facilitam uma pesquisa mais rápida, no arquivo do blog. Espero que esse processo de busca se torne uma ferramenta mais útil para os visitantes. 

Também será possível acessar o arquivo das imagens publicadas neste espaço. Sugiro, no entanto, que se alguém precisar usá-las, tenha o cuidado de citar os créditos referidos.

No blog continuará aberta a possibilidade de comentar os temas sobre os quais se gostaria de aprofundar a discussão. Assim, cada assunto tratado poderá ser enriquecido de sugestões e de críticas que serão sempre bem-vindas. 

Outra novidade é a criação de duas "Páginas" que tratam de assuntos mais   específicos:

a) Memórias Viajantes - anotações sobre viagens e lugares visitados; 
b) Envelhecer - um espaço para publicar experiências de pessoas longevas.

Voltaremos a apresentar a versão de alguns textos no idioma italiano e, mais tarde, também em español, criando assim uma ponte de contato com a América Latina e outras regiões. 

O novo visual ainda facilita a possibilidade de enviar uma postagem do blog para amigos do Google+, do facebook e de outras mídias. 

Apresentamos, abaixo, um mapa de visualizações do blog até agora. Gostaria de repartir, com os visitantes deste espaço, a alegria de perceber que de algum modo estamos ligados a pessoas que falam o nosso idioma, e que vivem em diferentes países do mundo. Deixo, então, aos caros leitores do Espaço Poese, votos de que tirem um bom proveito dos novos serviços que lhes estamos a oferecer. 



Registro de visualizações de página
por país -  início de março de 2015



Entrada
Visualizações
Brasil
1892
Estados Unidos
1554
Itália
285
China
132
Alemanha
132
Índia
97
França
68
Polônia
58
Ucrânia
48
Rússia
47

Observação: O sistema de controle dos acessos ao blog não registra indicadores de visitantes individuais na somatório periódica. No entanto, nos registros diários há indicações de até um só visitante por país, como, por exemplo: Canadá, Dinamarca, Holanda, Irlanda, Indonésia,  Moçambique, Peru, Portugal, Reino Unido e Venezuela.


Imagem: Arquivo do blog.

RESPOSTAS DA MÃE TERRA

04 março, 2015


Mais uma vez, trago a palavra e a visão carismática de Leonardo Boff sobre a situação em que, lamentavelmente, estamos deixando a Mãe Terra. Lendo-o, parece-me ouvir a voz dos profetas do Antigo Testamento, anunciando que Deus não está satisfeito com o modo como a estamos tratando. Pois a Terra foi entregue aos cuidados da Natureza, dos homens e dos animais para que nos oferecesse vida, e vida em abundância. Segue o artigo.


Mais que no âmago de uma crise de proporções planetárias, nos confrontamos hoje com um processo de irreversibilidade. A Terra nunca mais será a mesma. Ela foi transformada em sua base físico-química-ecológica de forma tão profunda que acabou perdendo seu equilíbrio interno. Entrou num processo de caos, vale dizer, perdeu sua sustentabilidade e afetou a continuação do que, por milênios, vinha fazendo: produzindo e reproduzindo vida.
Todo caos possui dois lados: um destrutivo e outro criativo. O destrutivo representa a desmontagem de um tipo de equilíbrio que implica a erosão de parte da biodiversidade e, no limite, a diminuição da espécie humana. Esta resulta ou por incapacidade de se adaptar à nova situação ou por não conseguir mitigar os seus efeitos letais. Concluído esse processo de purificação, o caos começa a mostrar sua face generativa. Cria novas ordens, equilibra os climas e permite aos seres humanos sobreviventes construírem outro tipo de civilização.

Da história da Terra aprendemos que ela passou por cerca de quinze grandes dizimações, como a do cambriano, há 480 milhões de anos, que dizimou 80-90% das espécies. Mas, por ser mãe generosa, lentamente, refez a diversidade da vida.

Hoje, a comunidade científica, em sua grande maioria, nos alerta  face a um eventual colapso do sistema-vida, ameaçando o próprio futuro da espécie humana. Todos podem perceber as mudanças que estão ocorrendo diante de nossos olhos. 




Grandes efeitos extremos: por um lado, estiagens  prolongadas,  associadas à grande escassez de água, afetando os ecossistemas e a sociedade como um todo, como está ocorrendo no sudeste de nosso país. Em outros lugares do planeta, como nos USA, invernos rigorosos como não se viam há decênios ou até centenas de anos.
O fato é que tocamos nos limites físicos do planeta Terra. Ao forçá-los, como o faz a nossa voracidade produtivista e consumista, a Terra responde com tufões, tsunamis, enchentes devastadoras, terremotos e uma incontida subida do aquecimento global. Se chegarmos a um aumento de dois graus Celsius de calor, a situação é ainda administrável. 

Caso não fizermos a lição de casa, ao diminuirmos drasticamente a emissão de gases de efeito estufa, e não reorientarmos nossa relação para com a natureza na direção da autocontenção coletiva e do respeito aos limites de suportabilidade de cada ecossistema, então prevê-se que o clima pode se elevar a quatro e até seis graus Celsius. Aí conheceremos a “tribulação da desolação” para usarmos uma expressão bíblica, e grande parte das formas de vida que conhecemos não irão subsistir, inclusive porções da humanidade.

A renomada revista Science de 15 de janeiro de 2015 publicou um trabalho de 18 cientistas sobre os limites planetários (Planetary Bounderies: Guiding human development on a changing Planet). Identificaram nove dimensões fundamentais para a continuidade da vida e de nosso ensaio civilizatório. Vale a pena citá-las: (1) mudanças climáticas; (2) mudança na integridade da biosfera com a erosão da biodiversidade e a extinção acelerada de espécies; (3) diminuição da camada de ozônio estratosférico que nos protege de raios solares letais; (4) crescente acidificação dos oceanos; (5) desarranjos nos fluxos biogeoquímicos (ciclos de fósforo e de nitrogênio, fundamentais para a vida); (6) mudanças no uso dos solos como o desmatamento e a desertificação crescente; (7) escassez ameaçadora de água doce; (8) concentração de aerossóis na atmosfera (partículas microscópicas que afetam o clima e os seres vivos); (9) introdução de agentes químicos sintéticos, de materiais radioativos e de nanomateriais que ameaçam a vida.
Destas nove dimensões, as quatro primeiras já ultrapassaram seus limites e as demais se encontram em elevado grau de degeneração. Esta sistemática guerra contra Gaia pode levá-la a um colapso como ocorre com as pessoas.

E apesar deste cenário dramático, olho em minha volta e vejo extasiado a floresta cheia de quaresmeiras roxas, fedegosos amarelos e no canto de minha casa as “belle donne” floridas, tucanos que pousam em árvores em frente de minha janela e as araras que fazem ninhos debaixo do telhado.


Então me dou conta  de  que a Terra é  de  fato  mãe  generosa: às nossas agressões ainda nos sorri com flora e fauna. E nos infunde a esperança de que não o apocalipse, mas um novo gênesis está a caminho. A Terra vai ainda sobreviver. Como asseguram as Escrituras judeu-cristãs: “Deus é o soberano amante da vida” (Sab 11,26). E não permitirá que a vida que, penosamente, superou o caos, venha a desaparecer.

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  • Leonardo Boff é colunista do JBonline, filósofo, teólogo e escritor.
  • A presente crônica foi publicado no blog de Leonardo Boff, em 22/02/2015; os grifos são nossos.

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Crédito das imagens

Mar Morto - divulgação viagens.

Flor no gelo - canstockphoto.
Imagem da terra - divulgação NASA.
Seca e Cheia em Pernambuco - JConline.NE10.uol.com.br - Galeria Imagens.
Quaresmeira roxa - www.umpedeque.com.br
Fedegoso amarelo - http://chabeneficios.com.br



Para entender melhor:


Sobre o nome Gaia, dado ao planeta terra: Na mitologia grega, Gaia é o nome da deusa da Terra, companheira de Urano (Céu) e mãe dos Titãs (gigantes). Gaia é a personificação do planeta Terra, representada como uma mulher gigantesca e poderosa. Em homenagem à deusa grega, a Teoria de Gaia (também conhecida como Hipótese de Gaia) foi criada pelo cientista britânico James E. Lovelock. Nela o cientista descreve o planeta Terra como um organismo vivo, que apresenta algumas características como a atmosfera com química e a capacidade para manter e alterar suas condições ambientais - o que não acontece com outros planetas do sistema solar”.
                                                            www.significados.com.br).







Sobre o Sistema Cambriano -  Sistema mais inferior do erátema Paleozoico. Na cronologia geológica, diz-se do período durante o qual as rochas desse sistema foram formadas, equivalente ao intervalo de tempo geológico compreendido aproximadamente entre 570 e 510 milhões de anos. (Do dicionário Houaiss, 2ª acepção do verbete "cambriano").
Ao lado, a gravura de um olenoides serratus (Trilobite de 10cm) em Burgess Shale.                                                                                                                                



Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens e deseja que ela seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com


















A OUTRA MÃE DAS MINHAS FILHAS

15 fevereiro, 2015


Sempre que nos encontrávamos ela me fazia um sorriso largo e amigo e me perguntava, amável: 

– Como vão “nossas” filhas? 

Sabia que ela as amava como eu, e as conhecia por suas diferentes características e suas preferências culinárias. Desde cedo percebemos a sua forma de cativar, o seu jeito afetuoso e discreto quando chegou para trabalhar em minha casa. De mim ela recebia orientações de como manter os horários das refeições das crianças e dos programas infantis de televisão. Era ela quem promovia bem-estar e alegria quando elas voltavam da escola, e ainda as acompanhava às aulas de balé e de natação. 

Conhecemos as experiências que vivera no meio rural pernambucano. Ainda criança, já cuidava da roça: todas as manhãs, colhia o milho para o cuscuz da família e ordenhava o leite quentinho das cabras, pois eram trabalhadores rurais, mas sequer puderam ter uma vaca. 


Era um membro constituinte da nossa família: iniciara a trabalhar em nossa casa, com seu jeito afetuoso e discreto, logo que a minha primeira filha fizera um ano, o que me permitiu manter um trabalho social intenso, nas atividades do movimento popular dos anos setenta, sob a orientação de Dom Hélder Câmara e, depois, de Dom José Maria Pires, como secretária da presidência da CNBB NE-II. Assim, sua presença nos foi indispensável para os cuidados cotidianos das “nossas filhas”.

Recordo quando a conheci: o nosso foi um encontro não programado, mas definitivo. Entre várias mulheres presentes - na instituição em que ela se inscrevera para o seu primeiro emprego – notei sua expressão luminosa e contida, como uma flor a proteger-se em suas pétalas fechadas para esconder a sua firmeza, a sua coragem e a grandeza de pessoa que era. Ao observar o seu rosto cheio, o seu olhar definido e vivaz e aquela sua expressão carismática que difundia segurança e tranquilidade – por trás de uma aparente timidez – logo compreendi que ela era a melhor escolha que eu tinha a fazer. Assim, já no dia seguinte cuidamos do registro do seu contrato de trabalho.


A partir do nascimento da minha segunda filha, foi necessário contratar uma babá para ajudá-la nas muitas tarefas. Mas, as crianças continuavam a preferir estar com ela, mesmo que tivessem que ficar a brincar na copa enquanto ela preparava as refeições da família. 
Mesmo quando se passaram dez, vinte, trinta anos de vida em comum, ela jamais assumiu outra atitude senão a de uma colaboradora efetiva, empenhada, amorosa e eficaz. Chegou até a vir morar conosco por um período, após a separação do seu primeiro marido. 



Insistiu em permanecer trabalhando conosco mesmo depois de obter a sua merecida aposentadoria. De ambos os lados precisávamos de algum tempo para ensaiar o momento do seu afastamento. Iniciamos estipulando o seu trabalho somente em meio expediente e, mais tarde, em dias alternados, até chegar o momento da sua saída. Era um passo difícil para todos nós: certos dias, ao chegar do meu trabalho, encontrava uma das meninas, agora crescidas, a ajudá-la na limpeza por baixo dos armários da cozinha ou acima das prateleiras de livros. Também ela estava muito ligada à convivência com esse outro expressivo núcleo da sua família.  


A essa altura, com as suas próprias economias, havia conseguido comprar e, mais tarde, reformar a sua própria casa que, para sua alegria, tinha um pequeno jardim de frente e um bom quintal. Depois que nos deixou, nos víamos vez por outra, nas visitas recíprocas que fazíamos - ela já tinha assento à nossa mesa como uma querida amiga, com quem ficávamos a jogar conversa fora. Convivemos como duas amigas que se reconheciam e se respeitavam. Era uma presença certa em todas as nossas comemorações familiares, não esquecia os aniversários, e preparava um lauto almoço quando íamos comemorar o seu. Exultou de alegria com o nascimento do meu neto, e o visitava frequentemente.


Quando ainda trabalhava teve o seguro saúde privado, que continuamos a pagar também depois que nos deixou. Vivenciamos com ela a sua luta vitoriosa contra um câncer que conseguiu superar com coragem e tenacidade. Nos nossos encontros, depois de por em dia nossas notícias pessoais, era prazeroso voltar aos tempos idos e ouvir dela as histórias das meninas, das quais eu já não lembrava... Mas ela as trazia no coração.

Nesses dias, nos surpreendeu com a sua partida definitiva, do jeito silencioso, sem incomodar ninguém, como sempre fez. Despetalou-se no outono da vida, e nos deixou uma intensa sensação de vazio e a doce lembrança de quanto ela foi importante para nós, para seus filhos e netos e, de um modo especial para sua única filha, que sempre a acompanhou com imenso carinho. Deixou-nos a sua lição de vida: foi uma mulher autônima, sensata e livre, cheia de encantos para os que a amaram, e carregada de afeto e de cuidados com quem, na família, precisasse do seu apoio. 

Ontem, caminhando sobre uma das pontes que cortam o rio Capibaribe, o correr das águas me lembraram uma citação que li recentemente, de Heráclito de Éfeso: "Não cruzarás o mesmo rio duas vezes, porque outras são as águas que nele correm". 

As águas me disseram que Lourdes foi o dom que me foi dado, sem o qual eu não teria podido ser aquela que fui, e minhas filhas não teriam tido uma infância tão engendrada de atenção e afeto, na ausência necessária de seus pais.

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Crédito imagens: arquivo exclusivo deste blog.

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SEM UM SORRISO, SEM PRANTO

31 janeiro, 2015




A esperança na espera
Conjectura e conjura...
Resguardo, apeio, quimera
Parir a doce ventura
Do encontro com outro olhar...
Poder ouvir novo canto
Poder ficar e aceitar
Sem um sorriso, sem pranto,
Só no anseio de entender
Pra onde vai essa rima
Esse jeito de viver...




Esse desgosto, esse clima,
Essa resina grudada
Como emenda de arrego
Nessa roupa já rasgada
E esse olhar distante e vesgo...
O pano em pedra curtida
A pedra quente no chão
A dor doída da vida
Num chão sem verde e sem rio...
Nessa paisagem sertão!


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Crédito das Imagens:

1. Paisagem com ipê - www.mossoroemfoco.com
2. Paisagem preto e branco - www.compassolento@wordpress.com

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A AVÓ DE LUIZINHO

16 janeiro, 2015


Não era uma velha rabugenta, a avó de Luizinho. Tinha um aspecto jovial e ainda trabalhava como dentista, na cidade, mas, o que ela gostava mesmo era de ocupar o seu tempo livre com os netos, na casa do filho, quando lhe era possível pegá-los na escola. Eram dois, os netos - uma menina de sete anos e um garoto de cinco, com os quais a doutora virava uma alegre criança. Ela se refazia de todas as suas preocupações quando brincava com Maria, tão carinhosa e meiga, que sempre curtia participar das criativas brincadeiras da vovó Inês. Assim era, e nunca deixara de ser: a avó ficava ali, no tapete da sala, salpicado de livros sobre animais e florestas, princesas e fadas, alguns bonecos, os caminhões de bombeiro de Luizinho, e os tratores com caçambas de todos os tipos: para levar areia, carregar pedrinhas, transportar máquinas e cavalos.

Luizinho era exímio em criar pistas e ladeiras difíceis para os seus tratores: subidas feitas com as almofadas da casa, ladeiras de tampas de caixas de sapato achadas nos armários da mãe, e um indispensável túnel, bem comprido, antes da curva da estrada, construído com os tapetes de borracha que ele trazia dos banheiros, e que formavam paredes revestidas de alta resistência. Assim, ele praticava o que aprendia nos finais de semana, com o seu pai, engenheiro de uma construtora. Difícil era Luizinho deixar algum tempo livre para a avó e a neta brincarem ou lerem suas histórias.


Naquela tarde ele tentava explicar, a avó Inês, para que servia tudo o que Joelma lhe havia emprestado, da cozinha: os palitos de canela, agora transformados em toras de madeira, e as cargas de grão de bico e de castanhas do Pará, que viravam pedras arrastadas pelos tratores. Uma vez ou outra, a própria avó lhe fornecia areia, igual àquela com que Joelma fazia uma farofa bem nordestina, misturada com ovos, cebola e manteiga.



A cozinha corroborava a criatividade de Luizinho. Aquele era o momento em que as crianças brincavam em casa, durante a semana. A mãe os levava logo cedo à escola, para depois passar todo o dia de plantão, em dois hospitais da cidade. Assim, também os filhos passavam o dia inteiro na escola. À tardinha, era o pai que os levava para casa. Assim, Luizinho precisava aproveitar bem, durante a semana, aquele seu restrito espaço de liberdade, mas não gostava quando a avó brincalhona o ocupava nas farras com Maria, sua irmã. Ainda bem que ele contava com a sua imaginação deslumbrante e a ajuda da boa Joelma que nunca deixava de lhe fornecer os materiais de que a sua invenção precisava. 

Mas, logo hoje, parecia que a avó passava dos limites. O menino começou a embirrar com as brincadeiras dela com Maria: precisava do ambiente inteiro da sala, pois todos os seus caminhões estavam em atividade, a levar as cargas pela estrada. A avó, entanto, por mais que ele pedisse não se retirava, ela e a afoita da Maria. Até que ele, aborrecido, sem perceber que o pai acabara de entrar na sala, irrompeu abusado:  Você é uma bruxa, vó!  No mesmo instante, ao notar a presença do pai, Luizinho completou, auspicioso: ...Que vai se transformar numa linda princesinha!

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Crédito imagens: www.cnastockphoto.com.br

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