Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

UBUNTU - CULTIVANDO A TERRA EM COOPERAÇÃO

28 de maio de 2021

Após vários anos escrevendo e reproduzindo  crônicas, artigos e entrevistas, neste espaço, o momento atual me sugere dar maior prioridade à publicação de experiências exitosas de cooperação, solidariedade e Justiça Social. As informações sobre o vaivém da política atual e a situação da pandemia, no Brasil e no mundo, têm sido divulgadas com seriedade por vários canais como, por exemplo, o de Eduardo Moreira, Opera Mundi,  IHU-Unisinos, TV 247, CIMI, e os jornais e revistas: El País Brasil, Carta Capital, Carta Maior e outras fontes alternativas confiáveis. Volto à ideia de Maturana, de quem falamos recentemente: “A humanidade pode reconstruir o mundo, mas a evolução só vem a partir do Cuidado”. 

Minha intensão é sair em busca de experiências inovadoras, notícias alentadoras para nos dar força a seguir em frente, que eu chamaria de Histórias Exemplares. A de hoje, nos chega de uma comunidade de trabalhadores da Agricultura Familiar do Município de Queimados no Polo Borborema,  situado na mesorregião do Agreste Paraibano e na Microrregião do Brejo Paraibano, Nordeste do Brasil. Conheceremos o impressionante trabalho do cultivo da terra e de um banco de sementes, para enfrentar os transgênicos. Um exemplo de trabalho em cooperação, com o espírito aberto para o outro.                      Para ajustar a longa entrevista a este espaço, tivemos que cortar alguns trechos, embora  mantendo a informação essencial.

              “Nenhum de nós é tão bom quanto

                         todos nós juntos”

Entrevistadores: 

Helena Rodrigues Lopes e  Gabriel Bianconi Fernandes,

Há poucos dias a AS-PTA -  Agricultura Familiar e Agroecologia, publicou uma entrevista realizada por  com Mateus Manassés Bezerra Nascimento, jovem agricultor de Queimadas,  integrante do Polo da Borborema, situado na mesorregião do Agreste Paraibano e na Microrregião do Brejo Paraibano. Durante a entrevista, Mateus falou sobre a mobilização no município e no território, em torno da utilização e da defesa das sementes crioulas, e sobre as formas de mobilização e de engajamento da juventude. Segue a entrevista.

Como acontece o trabalho de resgate, conservação e proteção das sementes crioulas na sua comunidade?

Na minha comunidade do sítio Soares, temos um banco de sementes criado em 2016. Eu tinha 18 anos, e fui eleito presidente do banco. Tivemos apoio da AS-PTA para equipar o banco com lona, estantes, peneiras e bombonas para guardar as sementes. Para guardar as sementes, ofereci a casa de barro onde moraram meus avós. A reforma e construção da casa foi feita com apoio da comunidade, uns dando materiais, outros ajudando na obra. Começamos com 15 sócios. Eu tinha receio de não saber se ia dar certo. Todos pegaram sementes, multiplicaram e devolveram. No segundo ano, conseguimos duplicar o quadro de sócios. Para celebrar, fizemos a festa da colheita com a comunidade. Cada um doou um pouco de alimentos e fizemos um jantar extraordinário. Teve banda de forró, as pessoas comeram, dançaram e curtiram mesmo. Na ocasião fizemos uma discussão sobre sementes crioulas. As pessoas sabiam o que era, mas não com esse nome. Todos tinham em casa essas sementes que vieram dos pais e dos avós. Assim o banco foi ficando conhecido.

Como se dá a mobilização quanto à ameaça dos transgênicos?

Nas campanhas sobre sementes, como, por exemplo a “Não Planto Transgênicos para não Apagar Minha História”, a gente explica para os agricultores o que é a transgenia. Uma coisa é explicar a questão para uma pessoa que teve acesso aos estudos. Outra é explicar para muitos agricultores que não tiveram a oportunidade da instrução, e gerar uma conscientização da importância de se plantar o milho livre de transgênico. O desafio é grande, mas estamos conseguindo, vamos explicando da forma mais didática possível.

Por que é importante que as sementes crioulas não fique só no roçado da família, mas seja uma opção coletiva da comunidade?

Um desafio grande que enfrentamos aqui é que as áreas dos agricultores são muito pequenas. Então, se um plantar livre de transgênico e o vizinho plantar contaminado, aí vai tudo por água abaixo. Aproveitamos um ano que boa parte das pessoas não tinha semente de milho por conta da seca. Essa foi a oportunidade para entrar com milho livre de transgênico. O Banco Comunitário tinha semente e fez o empréstimo para um grupo de pessoas. Elas plantaram e lucraram muito, deu boa produção. Além da semente, lucraram com a palha para os animais. Isso conquistou as pessoas. O segundo passo foi dizer que esse era o jabatão vermelho, um milho livre de transgênico. É um milho muito pesado. Com menos de quatro latas já dá um saco de 60 kg. Ainda não podemos dizer que 100% da comunidade é livre de transgênicos, pois tem grandes proprietários de terra na região e com esses é mais difícil o diálogo.

Como as famílias aumentam a diversidade cultivada?

Tem muitas sementes que as famílias não veem mais, e acham que estão perdidas, mas nas Festas Estaduais das Sementes da Paixão, organizadas pela ASA Paraíba, é possível recuperar. Na última festa, por exemplo, o pessoal voltou com sementes do jerimum pururu. (...) Outra semente resgatada foi a fava moita. Ela é como o feijão preto. Com as trocas de sementes recuperamos também o milho jabatão amarelo.

Como você avalia as políticas públicas de sementes?

Estamos numa gravação em massa de vídeos pra fazer o recado chegar no Governo. Se a gente ficar calado, é como dizer que a gente gosta das políticas atuais. Os agricultores estão rejeitando a semente do governo, que vem de outra região e é tratada com agrotóxicos. Não se trata de ser contra a política pública. A política de distribuir de sementes é fantástica, mas desde que ela compre as sementes dos agricultores. Nós agricultores também não produzimos sementes? Então compre de nós pra distribuir para outros agricultores pequenos, como nós, e dá também pra esse povo a oportunidade de plantar uma semente de qualidade. Somos capazes de vender semente de qualidade para outros agricultores. Por que, então, comprar outra semente? Nesse governo atual eu não tenho a menor esperança. Ali não tem nenhuma boa vontade, nenhuma esperança de melhoria, especialmente que seja voltada para o Semiárido. Nos governos do PT e, em especial os do Lula, a gente teve um impulso muito forte para a agricultura. Quando você tem um governo que nega até a construção de cisternas para captação de água de chuva, aí você vê a desvalorização do governo para com nós agricultores.

Como construir políticas de Agroecologia nos municípios?

O município de Queimadas hoje tem uma visão diferenciada. Os pequenos agricultores já têm o apoio da prefeitura para preparar a terra. Temos projeto de palma forrageira e outro de melhoramento dos rebanhos. Então, eu vejo uma transformação no poder público municipal. Por mais que seja lenta e às vezes burocrática e não chegue a todos os agricultores, eu vejo uma transformação. O Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável se reúne todos os meses. Tem um representante da Câmara Municipal no Conselho. Três anos atrás, conseguimos que parte do dinheiro que vem para o município fosse usado para comprar sementes dos agricultores do município ou do território para reforçar os Bancos de Sementes ou para ajudar a criar outros. Mas não vimos essas sementes, nem sabemos onde elas foram parar. Mas o desafio é a nossa energia. Estamos na luta sempre para defender o que é nosso. Mesmo assim, considero que temos uma vitória no município.

As crianças estão também se envolvendo no tema das sementes?

Tem muitas comunidades aqui no território que trabalham as Cirandas da Borborema. São crianças que estão tendo a oportunidade de participar das discussões desde a infância. Está se tornando normal para elas. Hoje, já temos pessoas com 18, 19 anos que participaram das Cirandas e têm um olhar diferenciado da agricultura, para o meio ambiente e o planeta.

E qual o papel da juventude nos Fundos Rotativos Solidários?

Os FRS chegaram na nossa comunidade em 2017. A região de Queimadas é mais seca, então aqui o trabalho é mais forte com as criações do que com os roçados. A comunidade tinha a necessidade de criação de ovelhas. Os jovens sempre gostaram de criar ovelhas. E foi aí que veio o Fundo Rotativo. Foram cinco ovelhas e um reprodutor da raça “morada nova”, que é adaptada. Os jovens fizeram sorteio no grupo e cinco foram contemplados no primeiro ano. No segundo ano, todos os cinco fizeram repasse. No terceiro ano fizeram repasse de novo. Hoje, mais de 18 jovens já foram beneficiados e a perspectiva é passar de 24. É um sucesso na comunidade. Uma das beneficiárias tinha 10 anos quando recebeu sua ovelha. Isso motivou bastante outros jovens. Agora esses jovens podem vender uma ovelha para comprar um celular, comprar uma roupa no final do ano e mesmo ajudar em casa. É um modo de gerar renda na nossa comunidade. Hoje tem jovens com rebanhos de 5, 8 cabeças. Eram jovens que não tinham nada. A gente vê que do nada a gente pode transformar muita coisa. Os pais se surpreenderam com os próprios filhos. A partir daí foi lançado o Fundo Rotativo das mulheres. Muitas mulheres são dependentes da renda do marido. A Associação reuniu 20 pessoas, sendo eu e 19 mulheres. Isso foi em fevereiro de 2018. O combinado foi que cada um colocaria 10 reais por mês e esse dinheiro seria usado para comprar uma ovelha ou uma cabra e sorteá-la entre as mulheres. Alguns animais já vinham prenhes. Em agosto de 2019, todas as participantes já tinham cabras e ovelhas nas suas casas. Quando alguma dessas mulheres tem uma necessidade em casa, elas já têm de onde tirar o recurso. Aí, a gente volta no milho. A semente do milho é importante para produzir forragem para esses animais, na época de estiagem. É uma coisa ligada na outra, por isso que o trabalho dá certo. Se não for, não dá certo.

Como você entende a relação entre guardiões de sementes e o trabalho da juventude na conservação das sementes?

Os mais velhos se vão e os jovens ficam. Assim, são os jovens que devem assumir a responsabilidade de guardar as sementes para as gerações que ainda vão chegar. Antes, os jovens não se ligavam muito nisso porque não tinham espaço, era só o trabalho. O dinheiro ficava com os pais. A partir da nossa proposta de autonomia da juventude com os Fundos Rotativos, agora são os próprios jovens que estão encabeçando esse trabalho. São esses mesmos jovens que hoje me ligam e perguntam: “Mateus, tem semente? Pai quer comprar, mas eu já disse a ele que no Banco de Sementes tem”.  Ou seja, os próprios jovens estão preocupados com o tipo de semente que os pais vão plantar. Isso é uma recompensa muito forte. Vemos que o trabalho está fluindo. É uma ação transformadora. Esses jovens estão tendo a oportunidade de fazer alguma coisa diferente, seja para sua comunidade, seja para sua própria vida.

Como as atividades se integram nas redes de Agroecologia? 

Eu defino o movimento aqui da região em uma palavra só: Ubuntu.   "Ubuntu"  significa nenhum de nós é tão bom quanto todos nós juntos. Ou seja, quando a gente tem um movimento de base sólido, dificilmente as coisas dão errado. É uma força motivadora. Quando uma das comissões temáticas do Polo da Borborema está enfraquecendo, vem outra comissão e levanta ela pra cima de novo. Esse trabalho só está dando certo até hoje porque é um trabalho em conjunto. O jovem pode fazer de tudo e passar por todas as comissões, assim como as mulheres, os idosos e os homens. Se fosse isolado, a gente já tinha enfraquecido. No momento em que tem um Banco de Sementes, no momento em que tem uma Associação, no momento em que tem um Sindicato atuante, no momento em que tem um conjunto de Sindicatos, que é o Polo da Borborema, dificilmente vai dar errado. Tem muita gente pra nos ajudar. E a gente também pode ajudar muita gente. É dessa forma que podemos prosperar.

Qual o aprendizado que você destaca desse trabalho?

Eu aprendi que todos nós somos capazes de mudar. Também somos um agente transformador, assim como também nós somos transformados. Pessoas que eu vi e pensei que nunca adeririam ao trabalho, que nunca entrariam na Associação, que nunca iam valorizar um Sindicato, hoje defendem de unha e garra todos esses projetos, como os FRS. O aprendizado que eu tiro é que a gente é capaz de mudar e é capaz de ser mudado por outro alguém. Ninguém tem o conhecimento consolidado e não tem ninguém que não possa contribuir com um pouco. Sempre vai ter essa dinâmica na vida da gente. Nada está concluído, sempre a gente está em busca de transformação. Isso é muito gratificante. Quando você lida com pessoas, você lida com surpresas todos os dias. Um reage de uma forma, outro reage de outra. Uns te botam pra baixo, outros te jogam pra cima e tu decolas como um balão. É nesse equilíbrio da vida que a gente tá conseguindo transformar um pouco da realidade que a gente vive. É com essa força motivadora que a gente acorda todos os dias e nos mantém na luta. Se a gente for só olhar pro negativo do mundo, pro negativo do governo, pra negatividade da pandemia, a gente cruza os braços e desiste. Sempre tem que ter esperança. Como dizia o saudoso Paulo Freire, não a esperança de se sentar e esperar que esteja tudo transformado, ou por outras pessoas ou por Deus, como o povo costuma dizer. Todo mundo só bota a culpa em Deus, se Deus quiser, Deus vai fazer. Mas Deus usa as pessoas e essas pessoas somos nós. Se a gente está insatisfeito com a nossa realidade, a gente tenta transformar ela. Nem que seja só tirar uma pedrinha do caminho pra quando outra pessoa for passar não tropeçar, mas que faça. E que faça todos os dias. Se todos os dias da sua vida você puder fazer alguma coisa que lhe ajude e ajude os outros, faça. Por mais simples que seja, mas faça. No somatório disso tudo a gente vai desmanchando um paradigma que foi criado e a gente vai criando outros conceitos e outras forças motivadoras.

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Fonte da entrevista: http://www.ihu.unisinos.br/609640-nenhum-de-nos-e-tao-bom-quanto-todos-nos-juntos   - Publicado em: 27/05/2021

Veja o vídeo - https://youtu.be/Z2izELh-qqA

Trata-se de um vídeo premiado, do trabalho de Maria do Socorro Cavalcante, com galinhas de capoeira, no Sítio Bento, em Boqueirão da Paraíba, no Nordeste. 

(*) Os temas das comissões do Polo da Borborema: Sementes, Água, Mercado, Saúde e Alimentação, Criação Animal, Juventude, Infância e Educação.

Crédito das Imagens:

1. Comunidade no sítio Soares (Foto: AS-PTA)

2. Mateus Manassés Bezerra Nascimento (Foto: AS-PTA)

3. Agricultor do município de Queimadas (Foto: AS-PTA)

4. Pequenos agricultores do município de Queimadas (Foto: AS-PTA)   

Nota - As imagens publicadas nesta postagem pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja retirá-la, por favor envie-nos um comentário.

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