Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

DOM PEDRO CASALDÁLIGA - UM CORAÇÃO CHEIO DE NOMES

12 de agosto de 2020

A primeira notícia que recebi da morte do bispo missionário espanhol PEDRO CASALDÁLIGA – que chegara ainda jovem nas terras do Araguaia – foi do portal IHU. Noticiava que após uma viagem de mais de 1.100 quilômetros, a primeira parada do caixão chegara ao Santuário de Batatais, território da Prelazia de São Félix do Araguaia. “Foi colocado em dois troncos adornados com uma rede do tipo em que o povo do Araguaia descansa seus corpos exaustos, após um dia de trabalho árduo, às vezes quase escravo.” Nessa sua última peregrinação, depois de mais de 50 anos de missão no Araguaia “ele tem sido recebido por seu povo em pequeno número, já que a situação da pandemia – como o Brasil está atravessando – não permite grandes multidões”. Em um clima de esperança, e num espaço com muitos elementos que faziam parte do seu cotidiano – os chinelos, o chapéu de couro, a rede, os troncos de madeira sobre o qual foi posto o caixão – o velório foi um momento de celebração e de ação de graças por sua vida e ministério.

    Batatais - Igreja dos Claretianos, primeira parada do corpo de Pedro Casaldáliga
     Imagem da Irmandade dos Mártires da Caminhada. 


Há um soneto de Pedro Casaldáliga que merece ser reproduzido, na celebração da sua mudança para a Vida definitiva. E que é inspirado no seu jeito de identificar-se à cultura dos povos indígenas do Araguaia – foi reproduzido do site de um seu amigo, o monge beneditino Marcelo Barros.

Enterrem-me no rio
Perto de uma garça branca
O resto já será meu
E aquela correnteza franca.

Que eu, passando, pedia,
Será pátria recuperada
O êxito do fracasso
A graça da chegada.

A sombra-em-cruz da vida
Sob este sol de verdade
Tem a exata medida

Da paz de um homem morto
O tempo é eternidade
E toda a rota é porto!

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                      Batatais - Velório do bispo Pedro Casaldáliga - Foto de Valdemir Moraes. 


O Centro de Estudos de História da Igreja América Latina - CEHILA Brasil, divulgou uma carta sobre o falecimento de Dom Pedro, que inicia com um verso do próprio Casaldáliga: 

“No final do caminho dirão:
- E tu, viveste? Amaste?
E eu, sem dizer nada,
Abrirei o coração cheio de nomes.”

Segue o texto da carta do CEHILA:

 “Somos companheiros de viagem para um encontro maior que nós mesmos, pois o cristianismo é uma proposta de vida sempre em ressurreição. Em Casaldáliga repousa amor e simplicidade para ressuscitar em luta, coragem e justiça a favor dos pobres. Dos mais pobres. Sua vida era simples como seu coração, no entanto “cheia de nomes”. Soube propor vida em comunidade, evitando os tropos padronizados e hierarquizados das instituições. Com ele, a palavra ganha forma em poemas e vida em liberdade. Lembrava, em palavras e gestos, que devemos ser cristãos de maneira concreta para renovar sempre o cristianismoPoeta, místico e profeta articulou travessias e fronteiras para consagrar a vida num horizonte em movimento de esperança.

Pedindo à saudade que dê as mãos à esperança, o Cehila-Brasil (Centro de Estudos de História da Igreja na América Latina - Brasil) se une, neste momento, aos familiares, ao Povo de Deus da Prelazia de São Félix do Araguaia e à Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (Claretianos). Dom Pedro Casaldáliga foi colaborador e grande apoiador do Cehila. Seu nome é uma ação de graças à Vida. Nesse caminho, Cecília Meireles nos inspira e renova nossa esperança: ‘O vento do meu espírito soprou sobre a vida. E tudo que é efêmero se desfez. E ficaste só tu, que és eterno’.

Amigo e Pastor Pedro Casaldáliga, sua contribuição para o Reino de Deus foi especial. Agora, tocado pela ternura do amor de Deus, viva a festa de sua presença.       Segundo José Calderón Salazar jornalista guatemaltec “Nós cristãos não estamos ameaçados de morte. Estamos ameaçados de vida, de amor... ameaçados de ressurreição”. Com a ressurreição de Jesus Cristo, a esperança nos mantém. Que Dom Pedro continue nos inspirando o sonho da “terra sem males” contra ‘todas as cercas’! Cehila-Brasil


Mauro Passos – Presidente
Newton D. Andrade Cabral – Vice-Presidente
Wagner Lopes Sanchez – Secretário

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Para os que desejarem conhecer mais sobre a vida do grande pastor, irmão, amigo e missionário que foi Pedro Casaldáliga – seguidor do Cristo no serviço efetivo aos mais pobres, (os mais esquecidos, vulneráveis, perseguidos e marginalizados), com sua voz destemida e sua vida profética sempre que a indiferença, a violência e o desprezo se manifestava em nosso país  reproduzimos abaixo um artigo de Leonardo Sakamoto, colunista do Uol. 

                       

Dom Pedro Casaldáliga, bispo católico radicado no Brasil desde 1968

   Imagem: Jorge Araujo/Folhapress

   Por: LEONARDO SAKAMOTO


RESUMO DA NOTÍCIA

Ø  Pedro Calsadáliga, expoente da Teologia da Libertacão, é considerado um dos mais importantes defensores dos direitos humanos do país.

Ø  Foi um dos principais defensores dos povos indígenas e ribeirinhos e dos camponeses e trabalhadores rurais da Amazônia desde a ditadura militar.

Ø  Casaldáliga foi responsável por algumas das primeiras denúncias por trabalho escravo contemporâneo que ganharam o mundo no início da década de 1970.

Ø  Aos 84 anos, teve que deixar sua casa pelas ameaças de morte sofridas em decorrência do governo ter retirado invasores da terra indígena Marãiwatsédé

 Num ano em que o Brasil já ficou 100 mil vezes menor por conta de uma doença estúpida, a morte de Pedro consegue deixar um vazio profundo. Ele não era apenas um defensor da vida, mas a representação viva da resistência ao autoritarismo. Nascido na Catalunha como Pere Casaldàliga, chegou ao Brasil em 1968. Desde então, subvertendo o Evangelho de Mateus, capítulo 16, versículo 18, Pedro não foi apenas a pedra em torno do qual edificou-se uma igreja na Amazônia, mas a pedra no caminho dos planos da ditadura e de seus sócios na iniciativa privada de passar por cima dos direitos e da vida de camponeses, ribeirinhos, indígenas, quilombolas.

Foi dele a primeira denúncia por trabalho escravo contemporâneo que ganhou o mundo no início da década de 1970. Essa mão de obra foi largamente utilizada em empreendimentos agropecuários na ocupação da região, com a cumplicidade dos militares.

Por conta de sua atuação contra a ditadura e a violência de grileiros, madeireiros, garimpeiros e grandes produtores rurais passou boa parte da vida marcado para morrer. Foi alvo de processos de expulsão do país. Poeta e escritor, tornou-se uma das principais vítimas da censura baixada pelos verde-oliva durante os anos de chumbo.

"Malditas sejam todas as cercas! Malditas todas as propriedades privadas que nos privam de viver e amar! Malditas sejam todas as leis amanhadas por umas poucas mãos para ampararem cercas e bois, fazerem a terra escrava e escravos os humanos", escreveu.

Para entender o que é a longevidade da luta de Pedro: aos 84 anos e doente, teve que deixar sua casa em São Félix do Araguaia por conta das ameaças surgidas em decorrência do governo brasileiro, finalmente, ter começado a retirar os invasores da terra indígena Marãiwatsédé, Nordeste de Mato Grosso - ação pelo qual ele sempre lutou.

Governos nunca foram competentes para garantir os direitos dos povos indígenas. Agora, temos um que é abertamente contra a demarcação de novos territórios. E Pedro, mesmo enfrentando um Parkinson avançado, manteve-se na trincheira contra a necropolítica.

 "Ele conseguiu, pela   denúncia intrépida e pelo   testemunho arriscado, pela   profecia inconveniente, pela   poesia cortante, pela   mística e pela   espiritualidade que   encarnava, contagiar a   muitos e muitas. 

Contagiar a nós da Comissão Pastoral da Terra (CPT), do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), dos movimentos sociais, lutadores por um outro mundo justo, fraterno e possível", diz frei Xavier Plassat, da CPT. Pedro ajudou a criar ambas as instituições, vinculadas à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Foi um dos expoentes da Teologia da Libertação - linha progressista da igreja católica que acredita que a alma só será livre se o corpo também for, que tem sido uma pedra no sapato de quem lucra com a exploração do seu semelhante na periferia do mundo. Na prática, esses religiosos realizam a fé que muitos não querem ver materializada a partir do livro sagrado do cristianismo.

Para traduzir o que ela significa, nada como uma citação atribuída a outro gigante, Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, que também lutou contra a ditadura e esteve sempre ao lado dos mais pobres: "Se falo dos famintos, todos me chamam de cristão, mas se falo das causas da fome, me chamam de comunista.”

Pedro não ensinou que solidariedade significa uma forma distorcida de caridade, como uma política de distribuição de sobras - o que consola mais a alma dos ricos do que o corpo dos pobres. Mas que solidariedade passa por reconhecer no outro e na outra seus semelhantes e caminhar junto a eles. Ou seja, não é doar migalhas, mas compartilhar o pão, produzido com diálogo e respeito. "Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar", assumiu Pedro como lema de vida. Tão simples, tão poderoso....

Pedro nunca voltou para a Espanha. Até porque ele era brasileiro. Nasceu por engano em outro continente. Pessoas assim não morrem, não podem morrer.  Não tenho a mesma fé que Pedro, mas não tenho dúvida que ele atingiu a imortalidade. Seu corpo será velado, a partir das 15 horas deste sábado, na capela dos Claretianos, em Batatais. E, antes de ser velado e sepultado em São Félix do Araguaia, também passará pelo município de Ribeirão Cascalheira (MT).

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Fontes das informações:

 http://www.ihu.unisinos.br/601746-santuario-dos-martires-da-caminhada-primeira-parada-para-pedro-que-e-acolhido-por-seu-povo

 http://www.ihu.unisinos.br/601726-carta-do-cehila-brasil-sobre-o-falecimento-de-dom-pedro-casaldaliga

https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2020/08/08/morre-pedro-casaldaliga-a-pedra-no-sapato-do-autoritarismo-brasileiro.htm

 Crédito das Imagens:

1. Pedro Calsadáliga - www.luteranos.com.br 

1.           2. Local do velório em Batatais - Irmandade dos Mártires da Caminhada.

3.  Velório - Imagem de Vlademir Moraes

4Bispo com um trabalhador local - www.esmaelmoraes.com.br.jpg

5. Imagem do artigo de Leonardo Sakamoto - Foto : Jorge Araújo/Folhapres

6. Bispo Pedro Casaldáliga - www.veja.abril.com.br.jpg

7. Bispo com indio local - www.adufmat.org.br

8. Bispo com um trabalhador rural  - www. periodistadigital.com.br.jpg


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