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A DOR DO AMOR... A DOR DO MUNDO

21 de agosto de 2020

 

Por: Vanise Rezende


Há um grande descompasso na descoberta de um amor apaixonado, quando surge a hora da separação ou da morte. Feito as histórias clássicas dos insepráveis Romeu e Julieta, Tristan e Isolda, Wagner e Wilhelmine, e de outras histórias celebradas nas Óperas de Ballet como La Sylphide, Carmen e Giselle, que celebram a dimensão da dor e do amor na ausência.

 Na literatura e na música também se encontram similitudes.

“Es la hora de partir. Oh abandonado!” – Canta Neruda nos seus “Vinte Poemas de Amor”.

 Eu não tenho outro ofício / depois do silente amar-te / que este ofício de lágrimas, duro / que tu me deixaste.” – diz Gabriela Mistral no seu poema Coplas.

 Aqui está minha herança este mar solitário / que de um lado era o amor e, do outro, esquecimento” – escreveu Cecília Meireles em Apresentação.

 No livro Invenção e Memória, Lygia Fagundes Telles lembra um poema da época em que, para se falar com alguém no telefone, precisava-se da intervenção de uma telefonista.

    “Ele queria agora / falar com a Mulher Amada/

   Senhor... Está me ouvindo?/ A linha está ocupada!

   Mas o Senhor quer que eu ligue para onde?/

   Dona Felicidade? / Não responde!”

 

No cancioneiro da MPB encontramos inúmeras pérolas do amor não correspondido e das despedidas de amor. Não caberia neste espaço as letras de João Gilberto, Vinícios de Morais, Tom Jobim, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Marisa, Djavan, Jorge Ben Jor, Cássia Eller, Zé Ramalho, Toquinho e do grande poeta Chico Buarque – para falar daqueles que ainda mantenho na memória do coração.

Ai, vontade de ficar, mas tendo de ir embora... escreve Vinícius de Moraes.

Em Palavras ao Vento,  Cássia Eller busca a imagem do amor distante:

Ando por aí querendo te encontrar / Em cada esquina paro, em cada olhar / Deixo a tristeza e trago a esperança, em seu lugar”.

Em “Eu te Amo”, Chico Buarque canta a dor da separação:

 Ah, se já perdemos a noção da hora / Se juntos já jogamos tudo fora /Me conta agora como hei de partir”...

Mais recentemente, em “Tua Cantiga”, Chico expressa o carinho e o cuidado pela amante distante:

 Quando te der saudade de mim /quando tua garganta apertar / basta dar um suspiro que eu vou ligeiro te consolar!”.

 Os versos de Gilberto Gil 

nos tocam fundo:


 Drão!

 Não pense na separação

 Não despedace o coração

 O verdadeiro amor é vão

 Estende-se infinito

 Imenso monolito

 Nossa arquitetura

 Quem poderá fazer

 Aquele amor morrer”...


Letras e canções nos falam da mesma dolorosa sensação de incompletude, que muitos carregam noites sem fim, até que se percebe que amar não é só um sentimento, mas deve se expressar na arte de conviver.

 


É o que nos lembra
Mário Quintana:

 “A arte de viver é simplesmente

 a arte de conviver...

 Simplesmente, disse eu?

 Mas, como é difícil!”


Não há que se negar a dor da saudade e da perda, nem ignorar o sentimento doloroso e humano da ausência de alguém que se ama.

Mas cabe a todos nós lembrar com mais frequência que o amor não se restrinje a uma pessoal experiência amorosa. Não chegaremos a experimentar a plenitude da vida se ficarmos na nossa própria ilha de amor.

Faz parte fundamental da condição humana coexistir como uma grande família – mulatos, índios, pretos, brancos, pobres, medianos ou ricos, doutorados ou “ainda” não alfabetizados, servidores e artistas, crentes ou não, na condição de aprendizes e mestres, sábios e nativos da terra, gente das artes e das letras, na mais expressiva variedade – uma grande família de diferentes que – por serem iguais e humanos precisam viver socialmente no amor.

Um grande passo seria cada um começar a experienciar juntar-se com outros, para fazer isto acontecer. O que já está acontecendo, com os “não” que a sociedade tem expressado às violências pessoais  e às violentas decisões de um governo desqualificado e incompetente como o que temos hoje no país.

Com tantas diferentes diferenças, somos chamados à responsabilidade da construção da igualdade e da justiça social. Esta é a grande responsabilidade do cidadão, hoje, no nosso país.

A dor do amor (ou a alegria do amor harmonioso e fiel) em nossa vida, pode nos ensinar a participar da grande dor do mundo nos pequenos e grandes gestos de solidariedade e de cooperação.

Lembremos, mais uma vez, o grande testemunho de Pedro Casaldáliga:

                      “No final do caminho dirão:

- E tu, viveste? Amaste?

E eu, sem dizer nada,

                      Abrirei o coração cheio de nomes.”


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Crédito das Imagens:

1. Giselle - www.ttencnet.com.br

2.  Chico Buarque - foto do vídeo Tua Cantiga

3.  Gilberto Gil - www.glamurana.uol.com.br.jpg

4.  Mário Quinana - www.mensagens.culturmix.com.jpg


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