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BRASIL - O CANTO E O GRITO DO PROFETA

14 de maio de 2019


É tempo de buscar energias novas para enfrentar o insuportável desmantelo do nosso país. Os estudantes, os professores, os trabalhadores e artistas de vários espectros, nos têm dado o testemunho - também nas ruas, também com gritos de protesto e muita arte - que nos distanciam das lágrimas das lamentações. Mas há os milhões de desempregados brasileiros que sofrem e, sem dúvida, vertem lágrimas de verdade. Nos meus arquivos, encontrei um escrito de um amigo economista, teólogo e professor italiano. Resolvi traduzi-lo, como uma reflexão bíblica também necessária e oportuna para os nossos dias. Como diz o autor, são os "sons e cores do canto e das lágrimas dos profetas" em tempos de crise. Por ser um texto longo, foi necessário cortar alguns trechos que, no entanto, não mortificam a linha de raciocínio do autor. Os negritos são nossos.  

À escuta da vida – Sons e cores do canto
e das lágrimas dos profetas

Por: Luigino Bruni
Jornal Avvenire /Itália
Versão em português: Vanise Rezende

O guitarrista Andrés Segovia dizia que o intérprete, em relação à peça musical, é como Jesus que ressuscita Lázaro: também o intérprete faz surgir a vida. Se não a faz reviver, a partitura permanece como morta. (*)
                              O ENSINAMENTO SEGOVIANO
A autêntica experiência religiosa é um dom para todos, mesmo para quem não tem fé ou tem uma fé diversa. Para além desse dom gratuito há somente barbárie, idolatria, autoengano, consumismo emotivo, busca de poder e de dinheiro.
Nesse nosso tempo de profunda crise das religiões e das crenças, devemos voltar a falar bem da espiritualidade, com boas palavras, e bendizê-la. Só uma sã espiritualidade pode curar as doenças e as perversões das religiões.
Um mundo sem fé e espiritualidade seria um lugar infinitamente mais pobre. Perderíamos muitas palavras para nos recontar as coisas mais belas da nossa vida. Aquelas palavras destiladas num alambique especial, que se encontra na melhor parte do ânimo humano, e que é ativada quando se vê a necessidade de elevar o olhar, em busca do sentido profundo do mundo, da vida, da morte – pelo menos fazer essa tentativa.
A nossa cultura já cancelou muitas dessas palavras, até porque quase nunca as religiões, com as suas instituições e os seus cultos, estão à altura da parte melhor do homem. Terminam quase sempre por apossar-se das vocações espirituais naturais, da pessoa, prometendo paraísos que não possuem, salvações a bom preço – feito saldos de fim de estação – promessas muito banais para serem verdadeiras.
Entre as palavras mais belas e grandiosas que a fé nos ensinou, muitas desvaneceram-se, e por vezes foram destruídas pelas religiões, por falta de generosidade, de gratuidade, de graça e, também, porque os profetas dos nossos dias não foram ouvidos.
É esse o primeiro significado de um universalismo que, com as suas contradições, inspira o humanismo bíblico: “Chegará um dia em que o templo do Senhor subirá ao topo dos montes e se levantará sobre as colinas, e todas as gentes afluirão até ele. E se achegarão muitos povos, dizendo: – Vinde, subamos o monte do Senhor, ... para que nos ensine as suas vias, e possamos caminhar pelos seus atalhos”. (Isaias 2, 2-3).
Não se vai ao “monte do Senhor” para se tornar devotos dos patrões do templo, mas para conhecer as “vias e os atalhosda vida. Os profetas sabem que as religiões se transformam em “des-umanismo”, quando começam a contar os que entram nos seus templos, a promover recenciamentos, a querer só a própria salvação, contra aquela dos outros, esquecendo que a revelação (torah) é um bem que só pode ser usufruído se acolhido junto aos demais, e na concórdia.(2,4).
É dentro desse abraço universal da terra, que não exclui ninguém - e com esse amplo e benevolente olhar - que chegamos a uma das surpresas mais belas, incrustadas no livro de Isaías. E, como um arco-íris no céu ainda escuro, deparamo-nos com uma joia luminescente da literatura humana: “Forjarão as suas espadas em enxadas, e as suas lanças em foices”. 
O povo não levantará mais a espada contra outro povo, e não se exercitará mais na arte da guerra (Isaias, 2,4).  E, aqui, deveríamos apenas silenciar, ou somente rezar. O profeta Isaías vivia em um mundo muito diferente, em que os utensílios de trabalho eram transformados em armas de guerra (“Com as vossas enxadas fazei espadas, e lanças com as vossas foices”: Joel 4,10).  Porém, um dia, ele entendeu mais alguma coisa, e escreveu. Escreveu aquilo que não via, e o fez para que nós hoje pudéssemos ler.
O profeta é uma voz que vê até os desejos profundos, a vocação ainda não expressa pela humanidade. E faz-nos esse dom exprimindo-o, para que possamos nos tornar, também nós, aquilo que ainda não somos. Esplêndida foi, então, a inspiração de quem decidiu oferecer essas palavras de Isaías que estão escritas no muro em frente ao palácio da ONU, em New York.
As palavras dos profetas são grandes porque in-finitas, isto é, ainda não realizadas. Estão sempre diante de nós como um chamado constante, a fazer de tudo para que se torne um pouco mais história, vida, carne.
No mundo que Isaías havia a corrupção dos chefes do povo, com os seus cultos idolátricos e, de consequência, com o abandono dos pobres, produzindo carestia e desventura para todos.  Do país, desaparece “todo tipo de bens, toda sorte de pães e toda fonte de água, o corajoso e o guerreiro, o juiz e o profeta, o adivinho e o ancião, o comandante e o notável, o conselheiro, o mago astuto e o esperto encantador” (3,1-3). (...)
Quando os povos se desenganam e perdem o fio de ouro da sabedoria que gerou pactos, constituições, ética, boas leis – quase sempre com grande dor e, por vezes, com muito sangue – então, afundam-se em profundíssimas armadilhas de pobreza, e terminam dentro de círculos viciosos e perversos. 
As carestias e as grandes crises chegam, antes de tudo, por não se ter escutado os profetas e as pessoas honestasdepois, provocam a fuga e a expulsão dos profetas e dos sábios. Os melhores homens e mulheres não são mais atraídos pelo bom ofício da política, e deixam livre o caminho para os que procuram o poder por interesses pessoais ou de grupo.
O círculo vicioso se fecha, o ardil torna-se perfeito. Nos casos mais graves – como aqueles descritos por Isaías – a crise é tão profunda e generalizada, que é preciso tirar até mesmo os delinquentes dos cargos do governo, pois não há mais nada que depredar e repartir senão a “ruína”. (...)  Restam apenas os chacais: “Vocês devastaram as vinhas; e as coisas que foram tiradas dos pobres estão nas vossas casas.” (3,14).
Quando a esperança civil morre, e ao profeta resta apenas o seu canto, é assim a sua oração de lamento sobre o povo: “Povo meu, os teus guias deixam vocês desnorteados, destroem o caminho que vocês percorrem” (3,12). O povo se torna o “meu povo”. De Deus e de Isaías. Essa é, também, a tarefa do profeta: saber chorar pela destruição do próprio povo, das comunidades, das pessoas; pela nossa destruição, pela tua, pela minha destruição. Quando nem mesmo Deus é ouvido, quando as suas palavras de convite ao arrependimento e à conversão não são mais escutadas, ou são ultrajadas, o profeta tem um último recurso: pode chorar por seu povo.
Pode entoar o seu canto de lamento, pode misturar as suas lágrimas com as lágrimas dos descartados. E, algumas vezes, na história, aconteceu o milagre que alguém tenha recolhido aquele pranto e o grito dos profetas, mais do que as suas palavras – não há palavra mais poderosa do que o grito: o grito do Cristo no Gólgota, nos lembrará sempre isso.
Já aconteceu que, após as guerras e as grandes loucuras coletivas, poucas mulheres e poucos homens, um que fosse, naquele pranto-lamento-grito sentiram uma vocação – e puseram-se a reconstruir comunidades, cidades, empresas, países inteiros. Quando o fizeram, do lado deles estava Isaías, mesmo que eles não soubessem.
A solidariedade das lágrimas é uma forma altíssima de amor. É típica dos profetas, mas a conhecem também artistas, poetas, maestros, musicistas, escritores, e muitas mulheres e muitos homens que continuam a acompanhar a desgraça dos outros só com suas lágrimas – depois de terem exaurido todos os recursos.
Muita poesia, teatro e literatura humana – mesmo aquela guardada em diários e cartas – é um constante e profundo exercício da solidariedade e do lamento. Um grande dom da arte verdadeira é conseguir enxergar as vítimas da história, reais ou criadas por seus gênios (e, portanto, igualmente reais) e, em seguida, avizinhar-se a elas, chegar mais perto, tornar-se um companheiro de caminhada e de lágrimas.
Amanhã – daqui a cem, mil anos – os humanos poderão entender mais e melhor as antigas palavras bíblicas, graças aos novos artistas, filósofos e jovens, às mulheres e aos homens espirituais, que continuarão a doar palavras, sons e cores ao seu povo.
Os sons e as cores dos profetas só se apagarão, quando o último ser humano cessará de dar a própria voz à palavra deles.
Eis porque os profetas têm uma imensa necessidade de nós, porque são eternos indigentes das nossas mãos, do nosso coração, das penas e da alma dos artistas. Há uma amizade entre as palavras mais verdadeiras sobre a terra. São todas santas e todas profanas. Não teríamos os instrumentos morais para entender realmente as palavras dos profetas, de Jó, de Jesus, sem os tantos poetas e artistas que – com os seus carismas, alargaram o repertório da alma do mundo, fazendo-nos capazes de ouvir ultrassons e de alargar o espectro das cores visíveis dos olhos da alma.
A palavra da Bíblia poderá sempre renascer, no dia em que alguém reconhecer o próprio fogo ardente naquele de Moisés, e ler o seu nome naquele de Adão ou se descobrir Noé quando, no dilúvio do seu tempo, iniciou a construir uma arca de salvação. E começará a contar essa história, outra vez, a alguém que quiser escutá-la.
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Fonte do texto:
Publicado no jornal “Avvenire”/Italia em 10/07/2016
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Luigino Bruni (1966) é professor de Economia política na Universidade Lumsa de Roma. É coordenador do projeto Economia de Comunhão – do Movimento dos Focolares – e escreve para diversas publicações e, semanalmente, para o jornal “Avvenire” na Itália. Interessa-se de modo especial de temas sobre a economia civil e ética econômica.  
 

(*) Piero Bonaguri, L’insegnamento segoviano.
Andrés Segovia, (1893/1987) foi um grande guitarrista espanhol, para quem também Villa Lobos compôs várias peças musicais. Considerado o pai do violão erudito moderno, pela maioria dos estudiosos de música, muitos diziam que ele "resgatou o violão das mãos dos ciganos flamencos" e construiu um repertório clássico para dar lugar ao instrumento em salas de concerto. Muitos compositores fizeram obras especificamente para ele como Turina, Villa-Lobos e Castelnuovo-Tedesco.  

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