Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

CUIDAR DOS NOSSOS SONHOS, ATOS E ATITUDES - LEONARDO BOFF

11 abril, 2020





Reproduzimos o segundo trecho do texto do escritor e teólogo Leonardo Boff - cuja primeira parte foi publicada na 5ª feira, 8/04/2020. Desta vez a reflexão é sobre:

COMO CUIDAR DOS NOSSOS SONHOS, 
DOS NOSSOS ATOS E ATITUDES

Por: Leonardo Boff



"O cuidado implica cultivar e zelar pelos nossos sonhos.




O valor de uma vida se mede pela grandeza de seus sonhos e pelo empenho de realizá-los, contra ventos e tempestades. E nada resiste à esperança incansável. A vida é sempre generosa. Aos que insistem e persistem, ela acabará por dar-lhe a chance necessária para concretizar seu sonho maior. Então irrompe o sentimento de realização que é mais que a felicidade, momentânea e fugaz.

A realização é fruto de uma vida, de uma perseverança, de uma luta nunca abandonada de quem viveu a sabedoria pregada por Dom Quixote: No hay que aceptar las derrotas sin antes dar todas las batallas.”- “Não se deve aceitar as derrotas sem antes realizar todas as batalhas”. O que resulta deste cuidado para com a auto realização, é uma existência de equilíbrio que gera serenidade no ambiente, e o sentimento, nos outros, de se sentirem bem em nossa companhia. A vida irradia, pois nisso está o seu sentido: não simplesmente se vive porque não se morre, mas se vive para irradiar e desfrutar da alegria de existir.

Cuidado como precaução sobre nossos atos e atitudes

O cuidado como preocupação de nós mesmos, nos abre para a precaução especialmente nestes tempos de coronavírus. Precaver-nos de não nos expor ao risco de pegar o vírus avassalador, nem ser transmissor dele aos outros. Aqui o cuidado é tudo, particularmente face aos mais vulneráveis que são as pessoas com mais de 65 anos, nossos avós e parentes idosos.
Alarguemos a perspectiva. Numa perspectiva ecológica, há atitudes e atos de falta de cuidado que podem ser gravemente destruidores como a prática de usar intensivamente defensivos agrícolas, desmatar vasta região para dar lugar à pecuária ao ao agronegócio, mesmo a derrubada da mata ciliar dos rios. As consequências não precisam ser imediatas, mas, a curto e médio prazos podem ser desastrosas, como a diminuição de água dos rios, a contaminação do nível freático, a mudança do clima e dos regimes de chuvas e de estiagem.
Aqui se impõe cuidadosa precaução para que a saúde humana de toda uma coletividade não seja afetada, como está ocorrendo neste momento no mundo inteiro.
Com a introdução das novas tecnologias como a biotecnologia, a robótica, a inteligência artificial e a nanotecnologia pelas quais se manipulam os elementos últimos da matéria e da vida, podem ocorrer danos irreversíveis ou produzir elementos tóxicos, novas bactérias e séries de vírus como o atual, o coronavírus, que podem comprometer o futuro da vida (cf. T. Goldborn, O futuro roubado, LPM 1977).
Como nunca, antes, na história, o futuro da vida e das condições ecológicas de nossa subsistência estão colocadas sob nossa responsabilidade. Esta responsabilidade não pode nem deve ser delegada a empresas com seus cientistas em seus laboratórios que decidem acerca do futuro de todos sem a consulta da sociedade. 
Aqui vale a cidadania planetária. Cada cidadão é convocado a acompanhar e coletivamente decidir que caminhos novos e mais promissores nos são concedidos abrir para a humanidade e para a comunidade de vida, e não apenas para o mercado e para o lucro das empresas".

-----------------------------------------------------------------

      Concluído o texto de Leonardo Boff, e inspirada nele, eu gostaria de lhes deixar os meus augúrios pascais, focando no essencial da mensagem que Jesus de Nazaré nos deixou.   

 
O que refleti, nesses dias, reparto aqui com vocês
  • Que. cada um de nós, construa caminhos de paz para o seu coração;
  • Que exercitemo-nos no cuidado de si e do outro - o que nos está próximo - do jeito que gostaríamos que o outro nos cuidasse;
  • Que a nossa paz não seja como a de alguém que se olha no espelho, ou escreve no vidro traseiro do carro, ou reza como o fariseu, descrito em Lc 18,9-14:  "O' Deus, eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens, ladrões, injustos, adúlteros...". Traduzindo ao nosso tempo, o fariseu de hoje poderia dizer: Oh, Deus, obrigado porque você olhou para mim, e me deu tantos bens - saúde, alimento e bem-estar para a minha família, oportunidades e possibilidades para o meu trabalho... Não sou como esses preguiçosos que nem conseguem um emprego!" 
  • Mas há outras tentações. Especialmente quando estamos diante da doença e da dor: Senhor, por que eu?   Por que estou só, por que estou doente, com medo, isolado, longe dos meus? 
  • Que o nosso olhar e os nossos sonhos se estendam aos irmãos menos  afortunados, aos descartados em muitos sentidos, aos mais vulneráveis da sociedade. 


Celebremos a nossa Páscoa achegando-nos aos nossos irmãos ignaros  (mesmo encontrando-nos distanciados deles). Há tantos modos de chegar a eles, cooperando com as organizações da sociedade civil que trabalham com mulheres "pais de família", com populações indígenas, trabalhadores rurais, e tantos mais, que podem fazer chegar a eles o nosso  apoio solidário e fraterno.

Por fim, não nos esqueçamos de ver, neste período, qual é a situação da pessoa que nos ajuda nos trabalhos domésticos, as diaristas, os porteiros que nos servem, os taxistas nossos conhecidos - agora parados e sem renda.
Há muitos a serem lembrados, acarinhados, apoiados e sustentados com um nosso gesto fraterno, neste momento!    

Certamente cada um de nós terá o seu jeito, a sua ideia, a sua imaginação para chegar a alguém que carece do nosso olhar, da nossa colaboração. Assim será a nossa Páscoa... até que passe essa onda difícil (e para nós brasileiros, ainda mais tenebrosas por tantas outras razões!). Quem sabe quanta coisa aprenderemos! Não deixemos que essa "passagem" seja em vão! 

-------------------------------------------
Fonte desta postagem:

Créditos das Imagens: 
Imagens: 1, 2, e 3Reprodução de: www.canstockphoto.com.br
4. Reprodução de: www.youtube.com.br.jpg

5. Reunião de lideranças do Acampamento de Branquinha-Al - arquivo do blog.

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato conosco fazendo um comentário nesta postagem.

A PÁSCOA DO CUIDADO - CUIDAR DE SI E DOS OUTROS PARA NOS SALVAR JUNTOS

09 abril, 2020





Hoje, 5ª feira Santa, os cristãos celebram a Ceia do Amor Fraterno, um momento raro na vida de Jesus Nazareno, quando Ele falou sobre a proximidade da sua morte e nos ensinou a celebração da Sua presença entre nós, quando exercitamos o amor um ao outro, como Ele nos amou. 

Para atendermos ao mandamento de Cristo, nas nossas relações humanas, nada melhor do que um texto escrito recentemente por Frei Leonardo Boff, escritor e teólogo. Trata-se de uma reflexão filosófica sobre as nossas relações humanas, especialmente neste período doloroso da infecção do vírus Covid-19, que vem se alastrando pelo mundo, levando multidões a se manterem isoladas em suas casas, sempre que houver uma casa.  As impossibilidades atingem todo o pessoal da área de saúde e dos serviços considerados essenciais à vida. Estes começam a pensar se convém voltarem às suas casas, por amor aos que lá estão. Precisam cuidar para não infectá-los. 

Mas, há multidões que não têm onde apoiar a cabeça e se isolarem. São as centenas de irmãos nossos que vivem nas ruas. É certo que nas ruas não podem ficar. Talvez, será o momento de governadores e prefeitos perceberem esse dilema, e promoverem - como alguns já estão fazendo - um espaço para eles. Há ainda as multidões que se apertam em seus cubículos, nas favelas.  Mais um problema evidenciado pelo Covid-19. Quem sabe, lembrar-se-ão os novos prefeitos e governadores dessa realidade, no seu programa de governo!? 

Voltando ao texto que hoje publicamos. Achei tão precioso todo o texto de Leornardo Boff que - para nos ajudar a refletir mais profundamente, dividi o original em três partes que serão postadas de modo subsequente:  

1ª parte - 5ª feira - 09/04/2020: 
COVID-19 - CUIDAR DE SI E DOS OUTROS PARA NOS SALVAR JUNTOS

2ª parte - Sábado -  11/04/2020: 
CUIDAR DOS NOSSOS SONHOS, DOS NOSSOS ATOS E ATITUDES

3ª parte - Domingo - 15/04/2020:
CUIDAR DAS NOSSAS RELAÇÕES DE AMIZADE E AMOR

Observação - Os grifos e cores são nossos.

-------------------------------------------------------------------------
  

COVID-19 - CUIDAR DE SI E DOS OUTROS
PARA NOS SALVAR JUNTOS



Por: Leonardo Boff
Postado em 06/04/2020

Vivemos tempos dramáticos sob o ataque do corona-vírus, uma espécie de guerra com um inimigo invisível contra o qual todo o arsenal destrutivo de armas nucleares, químicas e biológicas construídas pelas potências militaristas, são totalmente inúteis e até ridículas. O Micro (vírus) está derrotando o Macro (nós).
Temos que nos cuidar pessoalmente e cuidar dos outros, para podermos nos salvar juntos. Aqui não valem os valores da cultura do capital, a competição, mas a cooperação. Não o lucro, mas a vida, não a riqueza de uns poucos e a pobreza das grandes maiorias, não a devastação da natureza, mas o seu cuidado. Estamos dentro do mesmo barco e sentimos que somos seres que dependemos uns dos outros. Aqui somos todos iguais, e com o mesmo destino feliz ou trágico.

1ª parte - O CONFINAMENTO SOCIAL

O que somos enquanto humanos?


Esse tempo de isolamento social forçado, é uma oportunidade única para pensarmos sobre nós mesmos e sobre o que realmente somos.


Sabemos quem somos? Qual é o nosso lugar no conjunto dos seres? Para que existimos? Por que podemos ser acometidos pelo coronavírus e até morrer? Para onde vamos?
Refletindo sobre estas perguntas inadiáveis, cabe lembrar a ponderação de Blaise Pascal (+1662). Ninguém melhor do que ele, matemático, filósofo e místico, para expressar o ser complexo que somos:
Que é o ser humano na natureza? Um nada diante do infinito, e um tudo diante do nada, um elo entre o nada e o tudo, mas incapaz de ver o nada de onde veio e o infinito para onde vai” (Pensées § 72). Nele se cruzam os quatro infinitos: o infinitamente pequeno, o infinitamente grande, o infinitamente complexo (Teihard de Chardin) e o infinitamente profundo.
Na verdade, não sabemos bem quem somos. Ou melhor, desconfiamos de alguma coisa na medida em que vivemos e acumulamos experiências. Em um, somos muitos. Além daquilo que somos, vigora em nós aquilo que podemos ser: o inesgotável cabedal de virtualidades escondidas dentro de nós. Nosso potencial é aquilo que é o mais verdadeiro em nós. Daí a nossa dificuldade de construirmos uma representação satisfatória do que somos. Mas isso não nos dispensa de elaborarmos algumas chaves de leitura que, de alguma maneira, nos orientam na busca daquilo que queremos e poderemos ser.
É nesta busca que o cuidado de si mesmo desempenha uma função decisiva. Especialmente nesse momento dramático, quando estamos expostos diante de um inimigo invisível, que nos pode matar ou, através de nós, levar a doença ou a morte aos outros. Não se trata, primeiramente, de um olhar narcisista sobre o próprio eu o que leva, geralmente, a não se conhecer a si mesmo, mas a identificar-se com uma imagem projetada de si mesmo e, por isso, alienada e alienante.
Foi o filósofo Michel Foucauld que, com a sua minuciosa investigação “Hermenêutica do sujeito” (1984, em português 2004), tentou resgatar a tradição ocidental do cuidado do sujeito, especialmente nos sábios do século II/III como Sêneca, Marco Aurélio, Epicteto e outros. O grande mote era o famoso “ghôti seautón” - “conhece-te a ti mesmo”. Esse conhecimento não era entendido de forma abstrata, mas concreta, como: reconheça-te naquilo que és, procura aprofundar-te em ti mesmo para descobrires tuas potencialidades; tenta realizar aquilo que de fato és”.
Importa afirmar, em primeiro lugar: o ser humano é um sujeito e não é uma coisa. Não é uma substância constituída uma vez por todas (Foucault, Hermenêutica do sujeito, 2004), mas somos um nó de relações sempre ativo, que mediante o jogo das relações está continuamente se construindo a si mesmo. Nunca estamos prontos, mas sempre nos formando.
Todos os seres do universo, consoante a nova cosmologia, são portadores de certa subjetividade, porque sempre estão se relacionando e trocando informação. Por isso eles têm história, e um certo nível de conhecimento inscrito em seu DNA. Esse é um princípio cosmológico universal. Mas o ser humano realiza uma modalidade própria deste princípio relacional, que é o fato de ser um sujeito consciente e reflexivo. Ele sabe que sabe e sabe que não sabe e, para sermos completos, não sabe que não sabe, como dizia ironicamente Miguel de Unamuno.
Este nó de relações se articula a partir de um centro, ao redor do qual organiza os sentimentos, as ideias, os sonhos e as projeções. Este centro é um eu único e irrepetível. Ele representa, na linguagem do filósofo mais sutil de todos os medievais, o franciscano Duns Scotus (+1203), a “ultima solitudo entis”, a “última solidão do ser”.
Esta solidão significa que o eu é insubstituível e irrenunciável. Mas lembremos: deve ser entendido no contexto do nó de relações dentro do processo global de interdependências, de sorte que a solidão não é o desligamento dos outros. Ela significa a singularidade e a especificidade inconfundível de cada um. Portanto, é uma solidão voltada para a comunhão, é um estar só em sua identidade, para poder estar com o outro, o diferente, e poder ser um-para-o-outro e com-o-outro. O eu nunca está só.

Cuidar de si: acolher-se assim como si é

O cuidado de si implica, em primeiríssimo lugar, acolher-se assim como se é, com as aptidões e limites que sempre nos acompanham. Não com amargura como quem não consegue evitar ou modificar a sua situação existencial. Mas com jovialidade. Acolher o próprio tamanho, o rosto, o tipo de cabelos, de pernas, de pés, de seios, enfim, acolher seu ser corporal.
Quanto mais nos aceitarmos, assim como somos, menos clínicas de cirurgias plásticas haverá. 
Com as características físicas que temos devemos elaborar nosso jeito de ser e nosso mese-en-scène no mundo. Podemos questionar a construção artificial de uma beleza montada, que não está em consonância com uma beleza interior. Há o risco real de perder a irradiação e ganhar lugar uma aparência sem brilho.
Mais importante é acolher os dons, as habilidades, o poder, o quociente de inteligência, a capacidade emocional, o tipo de vontade e determinação com que cada um vem dotado. E, ao mesmo tempo, sem resignação negativa quanto aos limites do corpo, da inteligência, das habilidades, da classe social e da história familiar e nacional na qual está inserido.
Tais realidades configuram a condição humana concreta, e se apresentam como desafios a serem enfrentados com equilíbrio, e com determinação de explorar, o mais que podemos, as nossas potencialidades positivas. E saber carregar, sem amargor, as negativas.
O cuidado de si exige saber combinar as nossas aptidões com as nossas motivações. Explico-me: não basta termos aptidão para a música se não sentimos motivação nenhuma para desenvolver esta capacidade. Da mesma forma, não nos ajudam as motivações para sermos músico se não tivermos a aptidão para isso, seja de ouvido ou de domínio do instrumento. Não adianta alguém querer pintar como um Van Gogh, se ele só consegue ser um pintor de paisagens, de flores e de passarinhos, que mal chegam a ser expostos na feira de domingo na praça. Desperdiçamos energias e colhemos frustrações. A mediocridade não engrandece a ninguém.
Outro componente do cuidado para consigo mesmo é saber e aprender a conviver com o paradoxo que atravessa a nossa existência: temos impulsos para cima, para a bondade, a solidariedade, a compaixão e o amor. E, simultaneamente, pulsam em nós chamando-nos para baixo, como o egoísmo, a exclusão, a antipatia e até o ódio. Na história recente de nosso país, tais dimensões contraditórias aparecem de forma virulenta, envenenando a convivência social.
Somos feitos das contradições dadas com a nossa existência. Antropologicamente se diz que somos ao mesmo tempo sapiens e demens, gente de inteligência e lucidez e, junto a isso, gente de rudeza e violência. Somos a convergência das oposições.
Cuidar de si mesmo impõe saber renunciar e ir contra certas tendências em nós e até pôr-se à prova; importa elaborar um projeto de vida que confira centralidade a estas dimensões positivas e mantê-las sob controle, sem recalcá-las, porque elas persistem e podem voltar sob a forma incontrolável). São dimensões sombrias que tornam agônica a nossa existência, quer dizer, sempre em combate contra nós mesmos.

Cuidar de si mesmo é amar-se, acolher-se, reconhecer nossa vulnerabilidade, saber perdoar-se e desenvolver a resiliência que é a capacidade de dar-a-volta-por-cima, aprendendo dos erros e das contradições.

 Cuidar de si: preocupar-se com o modo de ser

O fato de estarmos expostos a forças contraditórias que convivem tensamente em nós, precisamos viver o cuidado como preocupação com nosso próprio destino. A vida pode nos conduzir por caminhos que podem significar felicidade ou insucesso. Podemos ser tomados por ressentimentos e amarguras que nos incitam à violência. Temos que aprender a termos autocontrole. Especialmente nestes tempos de confinamento social. 

O confinamento pode ser uma ocasião de desenvolver iniciativas criativas, exercitar a fantasia imaginativa que nos afastem dos riscos e nos abram espaço para uma vida de decência.
Hoje vivemos sob a cultura do capital, que continuamente nos solicita a sermos consumidores de bens materiais, de entretenimentos e de outros estratagemas que visam mais tirar nosso dinheiro do que atender aos nossos desejos mais profundos. Cuidar de si é preocupar-se em não cair nesta armadilha. É criar a marca de sua pisada no chão e não pisar na marca feita pelo outro.
Cuidar de si, como preocupação sobre o sentido de própria vida significa: ser crítico, colocar muita coisa sob suspeita para não permitir que seja reduzido a um número, a um mero consumidor, a um membro de uma massa anônima e a um eco da voz do outro.
Cuidar de si é preocupar-se com próprio lugar no mundo, na família, na comunidade, na sociedade, e no desígnio de Deus. Cuidar de si é reconhecer, na culminância da história, que Deus me deu um nome que é só meu, que o define e que somente Deus e eu o conhecerá.
Na sociedade que nos massifica, é decisivo cada um poder dizer o seu eu, ter a sua própria visão das coisas e não ser apenas um mero repetidor daquilo que é comunicado pelas muitas mídias à nossa disposição.
-----------------------------
Fonte desta postagem: 

https://leonardoboff.wordpress.com/2020/04/06/como-cuidar-de-si-e-dos-outros-em-tempos-de-coronavirus/?unapproved=84696&moderation-hash=aae8ec7633ff8b6fca6462b5cf7c741c#comment-84696

CRÉDITOS DAS IMAGENS:

1. Última Ceia - Pintura de John Stott - www.tiagolinno.wordpress.com
2. Leonardo Boff - Pt.Wikipedia.org.jpg
3. Pintura do indiano Imán Maleki - www.imanmaleki-painting.jpg
4. Imagem no espelho - www.imanmaleki-painting.jpg
5. O Japonês - Anita Malfatti - www.enciclopedia.Iatulcultural.com.br


Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato conosco fazendo um comentário nesta postagem.– 

COVID 19 - COMO NÃO ENLOUQUECER NA QUARENTENA

04 abril, 2020

Caros amigos. Imagino muitos de vocês de quarentena, nos seus espaços domésticos, sozinhos ou com seus familiares, em várias cidades do mundo. Saúdo a cada um, com afeto fraterno. Aqui no Recife, onde estou, no Nordeste do Brasil, desde a 2ª quinzena de março vivo isolada no meu apartamento. A orientação é de não sair absolutamente de casa. Sou certamente uma felizarda, pois tenho uma pessoa para cuidar das compras e dos trabalhos essenciais da casa. E tenho uma pequena varanda para observar uma região ainda preservada da cidade, de onde contemplo várias casas arborizadas, embora comecem a surgir os primeiros edifícios, como o meu. Da varanda, tenho a visão de uma grande vila de casas populares, o que também me promove um sopro de vento, para amenizar os 30° desse nosso outono tropical.  

Neste tempo de pandemia, e apesar da ignorância e das grandes maldades do Governo Federal, os governos estaduais têm procurado assumir o controle social da saúde da população, oferecendo alguma assistência e emitindo normas de convivência social. 

Governadores dos 9 estados do Nordeste formaram um Comitê Científico, para o respaldo de suas decisões. Como em todo o mundo, também aqui conhecemos inúmeras ações de solidariedade, com alguns exemplos impactantes: 

a) Um movimento de jovens da periferia do Recife está recebendo doações de gêneros alimentícios, e as redistribuem de forma organizada, com famílias carentes, de acordo com o nº de filhos comprovado. 
b) Um caminhoneiro divulgou um vídeo mostrando a dificuldade que eles tinham, no momento, de encontrar negócios abertos para fazerem suas refeições nas estradas. Aqui não contamos com ferrovias, são os caminhões que percorrem de norte a sul e vice-versa, para reabastecer os supermercados de gêneros alimentícios. A resposta imediata e espontânea a essa dificuldade, surgiu de várias mulheres com moradia nas estradas. Providas de mantimentos, elas se dispuseram a preparar refeições a serem entregues aos caminhoneiros passantes. Com esse gesto, os setor público logo organizou serviços de orientação sanitária, e itens necessários para que eles se protegessem contra o  vírus. 
c) No Recife  um Fórum de Luta, formado por inúmeras Organizações de Mulheres da periferia, em rede, que mobiliza inúmeras pessoas da classe média para que, das suas casas, contribuam com a compra de cestas básicas e itens de proteção contra o COVID-19.  Fui uma das contribuintes. Dias depois, recebi uma mensagem contando-me que haviam chegado ao teto necessário, e que as famílias foram atendidas. 
d) Inúmeros jovens proprietários de negócios de ponta com diferentes propósitos, a partir do Recife criaram uma rede de estudos e de troca de conhecimento técnico (inclusive com pessoas do exterior), que os orientaram para produzirem máscaras de proteção e outros itens de apoio aos profissionais de saúde, que estão na linha de frente na atenção aos infectados. 
e) E, para fechar, diante de algumas notícias de pessoas preocupadas com as populações de cerca de 700 favelas do Rio de Janeiro, um carro de som foi às ruas de uma das favelas, com o seguinte aviso à população: 

"Venho aqui a pedido da diretoria das áreas x, y e z, (e indicavam os respectivos locais). Vamos fazer o toque de recolher porque ninguém tá levando a sério.  Quem tiver na rua de sacanagem ou batendo perna, vai receber um corretivo! É melhor ficar em casa de molho! O recado já foi dado!"

Em outra comunidade, o aviso do carro de som era mais simples e direto: - "Quem for pego na rua vai aprender a respeitar o próximo!"

-------------------------------------------------

Na presente postagem, o recado é para todos nós, considerando especialmente aqueles que estiverem "de molho".... em casa!

O responsável por essa missão é o professor Dr. Ronald Fischer, PhD em Psicologia Social pela Universidade de Sussex, no Reino Unido, pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, no Rio de Janeiro, e autor do livro Personality, Values, Culture: An Evolutionary Perspective, da Cambridge University Press.  

O artigo abaixo foi publicado na Revista TRIP - uol.com.br. O professor Fischer nos oferece dicas minuciosas de sobrevivência para a nossa quarentena. 

COMO NÃO ENLOUQUECER
NA QUARENTENA


O pesquisador Ronald Fischer, um dos 10 mais citados no mundo da cultura e da psicologia, cria um manual de sobrevivência para os quarenteners.


Completamos quase uma semana de quarentena e você já está enlouquecendo? Calma, respira fundo. Ou melhor, inspira, respira, inspira, respira, devagar. Se você sempre foi daqueles que não arrumava tempo para meditar (ou achava bobagem, ainda tem quem pense assim!), prepare-se para dar uma chance para essa atividade milenar. Esta é uma das dicas do neozelandês Ronald Fischer, PhD em Psicologia Social pela Universidade de Sussex, no Reino Unido, pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, no Rio de Janeiro, e autor do livro Personality, Values, Culture: An Evolutionary Perspective, da Cambridge University Press. A convite da Revista Trip, ele elaborou um manual de sobrevivência para a quarentena
Segue a matéria citada.
------------------------------------
Fala, Ron!
A atual pandemia de Covid-19 está sendo estressante para muitos de nós. Esse medo e ansiedade provavelmente são ainda piores para as pessoas que precisam estar em isolamento, seja por estarem sintomáticas, seja por estarem distantes da família.
Então, é hora de pensar em como lidar com este período longo de reclusão. Separei algumas recomendações baseadas em evidências científicas – bem como um pouco de bom senso – sobre a quarentena. Essas dicas estão focadas no bem estar psicológico das pessoas e devem ser associadas às recomendações médicas em relação a contenção da pandemia.
A condição de vida de cada indivíduo é muito variável para haver uma regra ou recomendação simples para todos. Portanto, leia, avalie e adapte de forma a funcionar melhor para você. Mesmo nas situações atuais, você é quem está no controle de sua vida!
Primeiro de tudo: prepare-se! 
Não estoque alimentos, produtos de limpeza etc. Não há previsão de escassez de produtos se todos comprarem apenas o que realmente precisam. Pense que as outras pessoas também irão precisar de produtos essenciais. A maioria das quarentenas está programada para durar de duas a três semanas, então, pense no que você pode precisar durante esse período – principalmente, alimentos e remédios essenciais (se você fizer uso de medicamentos controlados, providencia, se possível, antes de se isolar.
Outra ideia importante é criar um plano com seus vizinhos e amigos sobre quem pode levar comida, quem pode ir ao mercado, quem está disponível para qualquer emergência etc.
Importante: ainda que haja um tempo estabelecido para a duração do período de isolamento, tente viver dia a dia, pois esses prazos estarão sempre sendo atualizados, para menos ou para mais. 
    Agora, vamos ao lado psicológico e social.
   Ficar em um único local por períodos prolongados pode ser bem estressante. Há uma literatura fascinante sobre as experiências de astronautas, pesquisadores em estações na Antártida, e outras pessoas em situações extremas, que mostram como ficar sozinho pode ser bem difícil. Mas você vai conseguir.
 Ø  Mantenha o máximo da rotina diária.
Continue usando o seu  despertador. Levante-se. Vista-se. Faça o seu café da manhã. Estabeleça metas para o seu dia. 
Se você não consegue manter
a rotina de antes, porque não pode sair de casa, tente encontrar alternativas. Se você puder trabalhar em casa, procure manter suas atividades em dia.


Ø Faça coisas que você queria fazer há muito tempo. Assista a todas as séries que queria ver. Leia todos os livros que estão acumulando poeira na sua prateleira. Limpe a casa. Limpe, renove ou reorganize seu quarto. Faça as coisas que você quer fazer e nunca tem tempo.
Ø Seja criativo. Jogue alguns games. Pinte. Cante. Escreva uma música. Escreva um poema. Escreva um conto que você queria escrever há tanto tempo. Faça coisas aleatórias que sejam divertidas e prendam sua atenção. Que tal FINALMENTE organizar o seu computador, que está cheio de documentos antigos (e pior ainda: antigas pastas inúteis!). Não seria ótimo organizar tudo de acordo com suas necessidades atuais? E as suas fotos digitais? Este é um ótimo momento para relembrar suas aventuras anteriores e organizá-las em pastas corretas.

Ø  Mas como passar o dia inteiro trancado com as mesmas pessoas?
 Seja gentil. Para muitos de nós, será um desafio ficar com outras pessoas em um ambiente fechado, como uma casa ou apartamento, mesmo que sejam queridos e amados. Viver por longos períodos em espaços confinados, pode ser estressante. Aqui, vale apostar em algumas recomendações específicas:
 Ø  Ouçam uns aos outros. Você tem tempo agora, converse com as pessoas ao seu redor. Descubra o que a outra pessoa está pensando e sentindo. Reconecte-se. Escute.
Ø  Pratique empatia. Tente se colocar no lugar dos seus companheiros de quarentena que compartilham seu espaço. Procure ver as perspectivas deles. Entenda o que eles estão pensando e o que os preocupa. Cada pessoa reage de forma diferente aos problemas. 

Ø  Mas como passar o dia inteiro sozinho?

Se você estiver isolado, seja seja por estar doente ou preocupado mantenha contato social com sua família, colegas de trabalho e amigos, por telefone, e-mail ou o que for melhor para você. Não deixe o isolamento físico e a solidão fazer com que você se sinta infeliz, ainda que seja normal ficar chateado com toda essa situação. Somos todos mais fortes juntos, mesmo que precisemos estar fisicamente separados. Mas você quer dicas, certo?
Ø Procure um “amigo de quarentena”.
    Especialmente se você mora sozinho, faça planos de apoio para cuidar de crianças, animais de estimação e qualquer pessoa que possa precisar de cuidados especiais. Se alguém que você conhece estiver doente, ligue para ele duas vezes por dia e tenha um plano de como fornecer alimentos e medicamentos evitando contato. Faça um plano com seu amigo da gripe.

Ø  Concentre-se no lado positivo. Faça esse esforço acima de tudo. Reconecte-se com seus amigos e familiares. Use este momento estranho como um período para refletir e crescer. É um tempo que irá passar, use-o da melhor maneira possível.

       Ø Fique tranquilo em meio ao caos
       Sozinho ou acompanhado, você tem muitas pequenas ações que podem te ajudar a regular as emoções, as frustrações e as incertezas. Existem muitos passos simples que você pode seguir, separei alguns que considero importantes.
   
Ø  Defina um momento para meditar
Faça uma pausa por um momento e concentre-se na  respiração. Por 3 minutos, inspire e expire conscientemente. Foque em como o ar circula pelo nariz e chega aos seus pulmões. 

Expire lentamente. Concentre-se na sua respiração. Este é um exercício realmente simples que ajuda a se acalmar e diminui o estresse. Pratique isso repetidamente, quanto mais você fizer, melhor funcionará.
         Ø  Pense em coisas boas. 
            Anote três pensamentos ou eventos positivos do seu dia, todos os dias, e reflita sobre eles. Use cinco minutos à noite, antes de dormir, por exemplo. Concentre-se nas experiências positivas e anote-as. Talvez você tenha visto um filme engraçado hoje, conversou com um amigo com quem não conversa há muito tempo, talvez tenha aprendido algo interessante ou novo. Foque nos pensamentos e nas coisas positivas do seu dia.
     Ø Pense no seu privilégio. 
  Veja as coisas por uma boa perspectiva: você tem um lugar para ficar, tem amigos e família e tem comida. Esse isolamento durará provavelmente duas semanas e você poderá retomar a sua vida normal. Este é um momento passageiro. Concentre-se nas coisas boas e reflita como você pode usar essa pausa da sua rotina diária para crescer.

Ø Não sofra sozinho. 
Se estiver com dificuldades, procure ajuda profissional. Você pode ligar ou enviar mensagem para amigos ou familiares e pedir uma indicação de profissional de saúde mental. Entre em contato com ele.
Ø Planeje sua vida financeira.
  Muitos de nós estaremos estressados ​​com as incertezas do que está acontecendo. Podemos estar particularmente preocupados com nossos empregos e finanças. Questões financeiras podem ser um grande estressor. Faça uma lista de suas despesas e concentre-se no essencial para você estar bem. Quanto você tem e quanto precisa para suas despesas diárias? Que despesas você pode cortar confortavelmente?

    Mantenha o Foco. 
Faça uma lista de todas as coisas que você pode influenciar e todas as coisas que estão além do seu controle. O fato de dar-se conta do que você pode modificar ou controlar pode ser um poderoso motivador e um impulso moral. Depois que você perceber o que está além do seu controle, também poderá ajudá-lo a se concentrar novamente nas coisas que você pode realmente controlar. Aceite que você não pode influenciar tudo e nunca será tudo perfeito. Se você tem filhos, passe algum tempo com eles. Há muita pressão e expectativa sobre as crianças na escola e na sociedade. Passe o tempo com eles e relaxe sem se estressar com suas notas, aulas de esportes perdidas ou falhas no aprendizado da “física quântica”. Use o autoisolamento para conectar-se novamente e permitir que seus filhos sejam crianças.
Ø  Proteja os que estão em maior risco. 
Pense se é necessário visitar sua avó pessoalmente ou se é mais seguro neste momento ligar para ela. Ou ainda, que tal ligar para os parentes e idosos mais seguidamente?  Pense em como você pode ajudar e proteger aqueles que estão em maior risco.
Ø  Quem lê tanta notícia? 
Se as notícias estão sufocando você, desconecte-se das mídias sociais e notícias online. Infelizmente, existem muitos rumores e notícias falsas circulando em situações como essa. Se quiser ler, procure fontes que sejam confiáveis. Use a mídia convencional para obter informações verificadas ou procure fontes do Ministério da Saúde, do Governo, (no seu estado) e da Organização Mundial da Saúde, por exemplo.

Se cuida. Coma bem e faça exercícios na medida do possível. Isso é crucial na vida normal e ainda mais importante em tempos de crise. Seu corpo irá te agradecer! Corpo sano, mente sana ;) 
------------------------------------
Fonte da matéria:

Data de divulgação - 19/03/2010

Crédito das imagens:

Creative Commons



Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato conosco fazendo um comentário nesta postagem. 







Posts + Lidos

Desenho de AlternativoBrasil e-studio