Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

BRASIL - O SERTANEJO E A TERRA

23 de julho de 2017

Cansei do descalabro, das intrigas, do engodo e do vale tudo no poder. Não que não queira mais me rebelar, manter a luta pelos direitos dos trabalhadores, denunciar os usurpadores de seus sonhos, sabendo que sonhos são a coisa mais necessária à vida humana. 

Mas, decidi deixar-me ficar um pouco em sintonia com a vida dos mais vulneráveis, os pobres, que estão sempre a manter a Esperança viva. Decidi, trazer hoje a escrita de um desses sonhos, esses simples desejos atinentes à vida que cada um deveria ter o direito de ter. 

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A música do celular não me assossega, nem engana o tempo na teimosia da saudade. Porque o sonho é bonito antes da gente botar os pés na estrada. Mas, é coisa bem diferente chegando lá, aonde se pensava ser o destino, pois o destino não é só a diferença do chão que a gente pisava antes e chegar a pisar no depois.

Antes, foi a terra rachada e seca que não obedecia mais, que não deixava brotar a semente plantada. E a dificuldade de guardar o que a gente tinha de melhor da produção passada, pra fazer a nova plantação. Agora, tudo se perdeu. 


Aquele sol tinindo, assombrando as esperanças de ver o broto do feijão se espichando enroscado pelo chão, e a boneca do milho que é a flor mais bonita do campo inteiro. 

Até os riachos viraram poça d´água, sem mais  serventia nem para o gado do patrão. Meu cavalo, coitado, estava quase pregando a pele no osso quando decidi vendê-lo, e o resultado já foi comido um pedaço, só deu pra comprar o bilhete de chegada na cidade grande e a sacola para trazer as coisas que eu tinha. 

Quando acontecem essas mudanças, a gente fica abestalhado, acho que é como quando um vai para o estrangeiro, e pisa nas terras que não foram dos seus pais. Deve ser coisa parecida.  


A terra que eu deixei eu conhecia e era irmã da minha vida. Eu sabia, pisando nela, quando ia ter chuvarada ou só chuviscar, ou quando ela  ressecava todinha sem parir as plantações.
   Eu  também  sentia, quando  um  veio de água trazia um tanto de alegria para nós de lá. Pelo menos dava para fazer a comida e para beber, porque a gente não queria comprar água não. Nem se tivesse como. 

Coisa mais esquisita: água é o que de mais sagrada cai do céu de graça, pra todo mundo, como os raios de sol. Pagar água é pecar contra os bem da natureza que Deus nos manda. A chuva desce igual na cabeça do patrão, na de nós empregados e na dos que têm a sorte de ter um roçado. É como os veios d'água que surgem de dentro da terra.


Agora, estou pisando na terra de lugares desconhecidos. Meus  pés não reconhecem mais o que ela está dizendo, como se fosse diferente um sentimento do outro, que parecia de irmão.

A terra que piso hoje é como se essa terra que piso agora não tivesse mais vida, como era uma vez aquela lá no roçado. 

Quem sabe, a terra se zanga de ficar sem respiro debaixo do cimento que botam junto dela, tirando a sua capacidade de fazer brotar outras vidas. 


Até a lua e o sol aqui ficam escondidos detrás dessas torres de cimento. Tem cada edifício que parecem querer chegar onde Deus mora. Para mim, estou vivendo no estrangeiro. Até as palavras do povo eu não entendo muito bem, não.

O povo pobre, como eu, vive diferente, sem ter a sua terra só dele. Moram ajuntados, parede com parede, padecendo da vida dos outro sem nem saber quem eles são. E é muita briga por pouca coisa, porque ninguém tem mesmo nada. E a gente aprende que viver, assim sem nada, é coisa de muito risco.

A salvação é que vim só, eu só e Deus, com as bênçãos da virgem Maria. Ainda estou na flor da idade, posso trabalhar no que for. Um homem lá da bodega me falou que vai arrumar trabalho de plantar nos jardins das madames.



Primeiro, vou precisar ir com ele para aprender a cuidar das terra dos jardins, nas casas bonitas daqui. Eles gostas das flores, mas não sabem cuidar delas...

O homem me falou que dei de sorte, ele estava caçando alguém que gostasse de cuidar das plantas, como eu, para trabalhar pra ele. Nós vamos juntos e dividimos o ganho para os dois. É assim que eu vou começar... 

É uma ventura que eu possa voltar a mexer na terra, mesmo que pouca, nos canteiros de flor das casas. 

A vida da terra que eu vou plantar há de me salvar nesse chão medonho. Vou precisar ver muitas flores brotando, para matar um tantinho da saudade da terra que deixei lá. 



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Crédito das Imagens:

1. Recanto do sertanejo - www.mef.org.br
2Milho - Sem chuva, agricultores têm prejuizo no sertão de Pernambuco - www.g1.globo.com/pe/petrolina-região/noticia/2016/03/
3.  Feijão - Fotos e Fotos da Caatinga - reprodução.
4. 5. e 6. -  www.canstockphoto.com.br


Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre em contato com vrblog@hotmail.com

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