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É PRECISO DESARMAR A RAZÃO ARMADA - ADOLFO PÉREZ ESQUIVEL

17 de maio de 2022


Não seria necessária uma apresentação do autor deste artigo, pois se trata de um dos latino-americanos mais queridos e respeitados da atualidade - escultor argentino, ativista dos Direitos Humanos e Prêmio Nobel da Paz nos nebulosos anos de 1980. Com a sua abrangente visão da realidade mundial, Adolfo Pérez Esquivel comenta sobre guerras e violência com fundamentos éticos e grande sensibilidade. E aponta a espantosa cegueira e insensibilidade para com o sofrimento humano, não só nos países em guerra, mas com a violência da fome, a extrema pobreza e a dor dos refugiados espalhados em todo o mundo.

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  A Ordem Mundial atual é a maior desordem mundial.
   É preciso desarmar a razão armada

 Artigo de: Adolfo Pérez Esquivel

Publicado em: Chiesa di tutti, Chiesa dei Poveri (11/05/2022)

Tradução de: Moisés Sbardelotto, (IHU).

 

paz não se dá, se constrói, é preciso muita coragem e sabedoria para alcançá-la. É urgente “desarmar a razão armada”, tornar possível o impossível, “transformar as armas em arados” (Isaías).

A opinião é de Adolfo Pérez Esquivel, ativista argentino e ganhador do Prêmio Nobel da Paz, em artigo publicado por Chiesa di tutti, Chiesa dei Poveri, 11-05-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Segundo ele, "é um erro encurralar a Rússia com sanções comerciais, censurar sua cultura e seus esportistas, e suspender a Rússia da Comissão de Direitos Humanos da ONU, e guardar silêncio sobre as atrocidades e violações dos direitos humanos dos povos cometidas por aqueles que votaram a favor das sanções contra a Rússia. O Evangelho diz: 'Aquele que não tiver culpa que atire a primeira pedra'”.

"É preciso que os governos tenham valores éticos e coragem para não se degradar e cair na hipocrisia." - afirma o Prêmio Nobel da Paz - "Os povos não podem ficar indiferentes e como espectadores da tragédia que a humanidade vive. É necessária a rebeldia para evitar que sejamos arrastados para outro holocausto. Como diz o antigo provérbio, 'a noite mais escura é quando começa o amanhecer'”.

Eis o artigo.

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A humanidade vive tempos de incerteza. Os avanços tecnológicos e científicos aceleraram o tempo que muda a realidade, onde o presente condiciona o futuro, e é preciso ter a consciência de que colhemos o que semeamos. A corrida armamentista infelizmente é uma realidade. Buscam segurança, cada dia mais insegura.

A tragédia de Caim e Abel volta a se desencadear através do tempo sem tempo. As sagradas escrituras nos mostram o caminho que Deus deu ao ser humano, a “liberdade”, e é este quem decide o caminho a seguir, entre luzes e sombras. A humanidade sofre 25 guerras em diversas partes do mundo, como a da Ucrânia e da Rússia, em uma escalada cada vez mais perigosa e sangrenta, com o perigo de que se desate uma guerra nuclear.

A Segunda Guerra Mundial marcou para sempre a vida planetária. As bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki foram determinantes para o mundo, que deixou de ser o que era. E, ainda com as feridas sangrando, outras guerras e conflitos se somaram, com total desprezo à vida humana.

Esqueceram o que foi vivido e sofrido? É como um espelho quebrado em mil pedaços. Esqueceram o Holocausto, os campos de concentração, os milhões de mortos? Esqueceram a Guerra do Vietnã, a guerra entre Israel e Palestina, como outras mais que se somaram à tragédia da humanidade? É urgente ouvir o clamor dos povos e chamar as novas gerações a fazerem memória.

É preciso optar entre “a bomba ou a Vida”. Para optar pela Vida, os povos devem se rebelar e não permitir que os submetam e dominem, devem se assumir como protagonistas de suas próprias vidas e construtores de sua história.

Apagou-se o farol da misericórdia e da dignidade, mergulharam a humanidade no obscurantismo, na incerteza e na dor, violando os direitos da pessoa e dos povos.

Os irresponsáveis têm rostos e levam em suas testas e almas o selo da besta 666, vão destroçando vidas, povos, negam-se a ver os rostos de homens, mulheres, crianças que questionam e interpelam e reivindicam um lugar digno para viver em paz. Estão cegos pela soberba do poder e do ódio, e buscam justificar o injustificável.

Quem são os responsáveis pela guerra entre Ucrânia e Rússia? Putin, Zelinsky? É preciso ver mais a fundo e expor o manejo sinistro do poder de dominação mundial dos Estados Unidos, da União Europeia e da Otan que, de forma direta e indireta, já estão envolvidos na guerra. Os povos da Europa devem acordar e não ser um satélite dos Estados Unidos e da Otan que os arrastam para o desastre.

A Rússia deve parar a guerra, estabelecer uma trégua conjuntamente com a ONU, nomear uma comissão de mediação internacional para alcançar fronteiras seguras e não ser devorada. Essa decisão não pode ser unilateral, deve ser compartilhada pelas potências envolvidas na guerra e gerar espaços de diálogo e soluções justas para as partes.

Ordem Mundial atual é a maior desordem mundial.

Ucrânia é o peão no tabuleiro do poder das grandes potências, seu povo é vítima da guerra. Não lhes interessam os mortos, os refugiados, a destruição das cidades. É preciso alimentar a guerra com mais armas e dinheiro. A Besta não se sacia com o sangue derramado, exige cada vez mais.

Os Estados Unidos e a Otan em sua voracidade de dominar o mundo buscam impor a sua política, econômica e militar, e destruir seus oponentes. A realidade ensina que as grandes potências não têm amigos nem aliados, têm interesses, basta ver o seu modo de agir no mundo.

Europa perdeu identidade e valores, e depositou o seu destino na Otan. Os povos devem saber que nenhum exército é garantia da paz.

Nesse confronto, as ameaças e perigos crescentes de uma guerra nuclear afetam todos os países, grandes e pequenos, ricos e pobres. As distâncias não importam e colocam o mundo no limite da existência planetária. Todas as potências envolvidas possuem armas nucleares e estão dispostas a utilizá-las sem medir as consequências.

É um grave erro considerar a Rússia como “um urso com rugido de rato” e a China como um “tigre de papel”.

O farol da ONU permanece apagado, é preciso ajudá-lo a despertar e voltar a acendê-lo para que ilumine a humanidade antes que seja tarde demais. Em outras notas, eu assinalei que “todos sabem como as guerras começam, ninguém sabe como terminam”. Não é possível que os governos gastem recursos para enviar armas para a Ucrânia para aumentar o conflito e não tenham coragem de apresentar alternativas para pôr fim à guerra, e que tudo dependa das decisões dos Estados Unidos.

A paz não se dá, se constrói, é preciso muita coragem e sabedoria para alcançá-la. É urgente “desarmar a razão armada”, tornar possível o impossível, “transformar as armas em arados” (Isaías).

Muitas vozes no mundo exigem o fim das guerras que afetam a humanidade e a urgência de somar esforços e recursos para combater a fome, a pobreza e a desigualdade social. Vozes que não são ouvidas por governos irresponsáveis e pelos meios hegemônicos de comunicação.

A solução é política. Os povos sofrem a violência dos governos que os arrastam para a guerra. É urgente a unidade na diversidade e ser protagonistas, levantar e assumir a proclamação da ONU em 1945: “Nós, os povos das nações unidas resolvidos a preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra que por duas vezes, no espaço da nossa vida, trouxe sofrimentos indizíveis à humanidade...”

É um erro encurralar a Rússia com sanções comerciais, censurar sua cultura e seus esportistas, e suspender a Rússia da Comissão de Direitos Humanos da ONU, e guardar silêncio sobre as atrocidades e violações dos direitos humanos dos povos cometidas por aqueles que votaram a favor das sanções contra a Rússia. O Evangelho diz:Aquele que não tiver culpa que atire a primeira pedra”.

É preciso que os governos tenham valores éticos e coragem para não se degradar e cair na hipocrisia.

Os povos não podem ficar indiferentes e como espectadores da tragédia que a humanidade vive. É necessária a rebeldia para evitar que sejamos arrastados para outro holocausto.

Como diz o antigo provérbio, “a noite mais escura é quando começa o amanhecer”.

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Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/618506-desarmar-a-razao-armada-artigo-de-adolfo-perez-esquivel - 12.05.2022

Crédito Imagens: 

1. Quadro de Adolfo Pérez Esquivel - www.brasildefato.com

2. racismoambiental.net.br.jpg

3. www.brasil.espaís.com.jpg

PAPA FRANCISCO EM ENTREVISTA A BIANCHETTI: AS MULHERES SÃO A RESERVA DA HUMANIDADE. ESTOU CONVENCIDO DISSO.

29 de abril de 2022





Na entrevista concedida por Papa Francisco à jornalista Lorena Bianchetti, para a Raiuno, vários temas foram abordados: o drama da guerra, não só na Ucrânia, o importante papel das mulheres na construção da paz, a questão dos refugiados e dos sem pátria, o mundanismo no âmbito da Igreja e fora dela e o cainismo. O papa sublinhou a importância do perdão, do silêncio diante da dor e da força da esperança para se ir adiante. A entrevista é longa, mas lhes garanto que o diálogo é solto, espontâneo, atual e muito humano. Tem a característica de uma conversa, com excelentes questões colocadas a Francisco, e suas respostas coerentes e muito profundas.
O Dicastério de Comunicação do Vaticano obteve a permissão do programa A Sua Imagem, da Raiuno, para transcrever (em vários idiomas) e divulgar o teor completo da entrevista, que fora ao ar na tarde de sexta-feira 15 deste mês. Após a entrevista, Bianchetti comentara sobre o que foi para ela essa especial oportunidade de dialogar com o carismático Francisco. Reproduzimos abaixo alguns trechos das suas impressões, divulgadas no No Stop News na RTL120.5:
“É a primeira vez que uma mulher faz um colóquio desse modo com o Santo Padre. Tocamos muitíssimos temas de atualidade. Da minha parte, procurei levar comigo todos aqueles que vivíamos as preocupações, os desafios, as angústias de cada dia". "No momento em que eu estava ali, focalizei o meu coração e os meus olhos no Papa Francisco. Foi um encontro de coração a coração, e eu o aproveitei, porque era uma ocasião muito rara. Nós, as mulheres, também fomos protagonistas daquela conversação, assim como todas as pessoas que não conseguem chegar ao fim do mês, e as vítimas da máfia. Falamos de muitos temas que têm a ver com a nossa quotidianidade.” “O papa estava disponível e particularmente paterno - isso é o que trago no coração! Estava feliz!"

No texto, aqui reproduzido, fizemos pequenas adaptações na tradução de língua portuguesa, para os leitores do Brasil. Veja, no final, um vídeo com um detalhe da entrevista, quando o Papa silencia.

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A SUA IMAGEM
RAIUNO

A ESPERANÇA SOB ASSÉDIO

O PAPA FRANCISCO EM CONVERSA COM LORENA BIANCHETTI

(Especial da Sexta-Feira Santa)

[Multimídia]


Lorena Bianchetti: Santidade, obrigada pela oportunidade de estar aqui, em nome de todas as pessoas que neste momento vivem estados de espírito complexos: de perplexidade, de angústia, de medo, de sofrimento. Começo mencionando uma hora:  três horas, três horas da tarde. Jesus morre na cruz e morre inocente. Há tantas pessoas inocentes que não querem a guerra, mas que são suas vítimas. Nos últimos dias veem-se imagens de corpos sem vida nas ruas; fala-se até de fornos crematórios ambulantes e, também, de estupros, devastações e barbáries. O que acontece hoje com a humanidade, Santidade?

Papa Francisco: Isso não é uma novidade, cara. Um escritor dizia que “Jesus Cristo está em agonia até ao fim do mundo”, está em agonia nos seus filhos, nos seus irmãos, sobretudo nos pobres, nos marginalizados, na pobre gente que não sabe se defender. Neste momento, na Europa, essa guerra nos atinge, e muito. Mas, olhemos um pouco mais além. O mundo está em guerra, o mundo está em guerra! A Síria, o Iémen, pensemos nos Rohingya, expulsos, [de Miranmar] sem pátria. Em todo o lado há guerra. E o genocídio ruandês há 25 anos... Porque o mundo escolheu – é difícil dizê-lo – mas escolheu o esquema de Caim e a guerra é implementar o cainismo, ou seja, matar o irmão. 

Lorena Bianchetti: E precisamente porque existe o bem e o mal, o senhor muitas vezes nos advertiu sobre a forma como o mal age. Disse-nos que o demônio se apresenta de uma forma amável, alicia-nos, mas na realidade o mal só quer a nossa falência: não há diálogo com o demônio. E por isso lhe pergunto, precisamente à luz do que dizia: – Como podemos encontrar formas de mediação, formas de diálogo com quem, ou, pelo menos, com aqueles que desejam e perseguem apenas a prepotência?

Papa Francisco: Quando eu digo que não se dialoga com o demônio, é porque o demônio é mau, não tem nada de bom! Digamos: é como o mal absoluto. É aquele que se rebelou totalmente contra Deus! Mas com pessoas doentes, que têm a doença do ódio, falamos, dialogamos. Jesus dialogava com muitos pecadores, sempre com ternura. Até com Judas, que depois se tornou “amigo”, porque todos nós temos sempre o espírito do Senhor, pois Ele semeou em nós algo de bom. E quando estou diante de uma pessoa – e acontece sempre – quando estamos diante de uma pessoa, devemos pensar no que falar sobre essa pessoa: da sua parte feia, mais à vista, ou da sua parte oculta, a melhor. Todos nós temos algo de bom, todos! E esse lado bom é o selo de Deus em nós! Nunca devemos considerar que a vida de alguém está arrasada, que acabou mal... dizer: “Este está condenado!”.

Vem-me à mente a história de uma senhora que se confessava com o Cura d’Ars, depois que o marido se jogara da ponte. O pároco a escutava; ela chorava. E dizia: “Aquilo que me aperreia mais é que ele está no inferno!” “Pare!”, disse-lhe o pároco: “Entre a ponte e o rio está a misericórdia de Deus!”. Deus procura nos salvar até o fim, porque semeou em nós a parte boa. Semeou-a também em Abel e Caim, mas Caim tomou uma atitude de violência, e foi com a sua atitude que se fez uma guerra.

Lorena Bianchetti: Mas, na sua opinião, existe empenho suficiente do ponto de vista cultural – também no âmbito eclesial, não apenas cultural – existe empenho suficiente para alertar as pessoas contra a tentação de se cair e viver o inferno no coração, já nesta terra? Digo isso porque às vezes vivemos numa sociedade em que parece que o diabólico é decididamente mais fascinante, mais estimulante do que o bom, o honesto, o gentil e, também, o espiritual, que aparece e é tido como entediante.

Papa Francisco: Sim, é verdade. O mal é mais sedutor. Voltando ao demônio, alguns dizem que eu falo demasiado sobre o demônio. Mas é uma realidade. Eu acredito nisso, sabe? Alguns dizem: “Não, é um mito!. Eu não vou com o mito, vou com a realidade, eu acredito. Mas é sedutor. A sedução procura entrar, prometer algo sempre. Se os pecados fossem feios, se não tivessem algo de belo, ninguém pecaria.  O demônio apresenta algo belo no pecado e leva ao pecado. Por exemplo, aqueles que fazem a guerra, aqueles que destroem a vida dos outros, aqueles que exploram as pessoas no seu trabalho. Outro dia ouvi uma família contar como o pai, que se casou jovem, teve de trabalhar como operário, saindo de manhã cedo e voltando à noite, por pouco dinheiro, explorado por uma empresa bilionária. Isso também é guerra. Também é destruição, não apenas os tanques, isso também é destruição. O demônio procura sempre a nossa destruição. Por quê? Porque nós somos a imagem de Deus. Voltemos ao início, às três horas da tarde. Jesus morre, morre sozinho. A mais completa solidão, abandonado até por Deus: “Porque me abandonaste?”. A mais completa solidão, porque queria descer à mais terrível das solidões do homem para nos livrar dela. Ele regressa ao Pai, mas é o primeiro a descer, está em cada pessoa explorada, que sofre guerras, que sofre destruição, que sofre tráfico. Quantas mulheres são escravas do tráfico, aqui em Roma e nas grandes cidades. É obra do mal. É uma guerra.

Lorena Bianchetti: Em resumo, como Dostoievski disse, em Os Irmãos Karamazov“A batalha entre Deus e o demônio está no coração do homem”. É aí que se decide o jogo.

Papa Francisco: É aí que se joga. É por isso que precisamos da mansidão, da humildade para dizer a Deus: “Sou um pecador, mas salva-me, ajuda-me!”. Pois cada um de nós tem dentro de si a possibilidade de fazer o que fazem os que destroem as pessoas, exploram as pessoas. Porque o pecado é uma possibilidade da nossa fraqueza e, também, da nossa soberba.

Lorena Bianchetti: Antes o senhor recordava a frase pronunciada por Jesus na cruz: “Meu Deus, por que me abandonaste?” Essa frase traduz a solidão, mas também o desânimo, a angústia e, portanto, também o desespero, o estado de espírito que todos nós experimentamos quando não sabemos qual pode ser a solução para uma dor, mas também para um sentimento de culpa. A propósito de desespero, Santidade, vem-me à mente uma imagem desta guerra – e digo isto como mãe – um pai a correr com o filho nos braços que fora atingido por estilhaços de uma bomba. Ele e a esposa a correr para o hospital, desesperados. A notícia que chegou foi que aquela criança infelizmente não se salvou. Não consigo imaginar um desespero mais angustiante do que os pais que perdem um filho dessa forma. O que diria aos pais que estão passando por essa experiência angustiante?

Papa Francisco: Na vida, aprende-se. Tive que aprender muitas coisas e ainda tenho que aprender porque espero viver um pouco mais, mas tenho que aprender. E uma das coisas que aprendi foi a não falar quando alguém está sofrendo. Seja uma pessoa doente, seja numa tragédia... Pego-lhe na mão, em silêncio. E choro. Mas quando se está doente, e vêm dizer: “Não, mas isto, aquilo, mas o Senhor...”. Cala-te! Cala-te! Diante da dor, silêncio. E pranto. É verdade que chorar é um dom de Deus, é um dom que devemos pedir: a graça de chorar, diante das nossas fraquezas e das tragédias do mundo. Mas não há palavras. Quando citou Dostoiévski, veio-me à mente aquele livreto, que é como um resumo de toda a sua filosofia, da sua teologia, de tudo: Memórias do Subsolo. E ali está, quando alguém morre, morre um – são condenados, prisioneiros que estão no hospital que o pegam e o levam. Um outro, da outra cama, diz: “Por favor, pare! Ele também tinha uma mãe!” A figura da mulher, a figura da mãe diante da cruz.  Esta é uma mensagem, uma mensagem de Jesus para nós; é a mensagem da sua ternura em sua mãe. No pior momento da sua vida, Jesus não insultou.

Lorena Bianchetti: Dado que menciona as mulheres, Santidade, havia mulheres ao pé da cruz de Jesus. Há outra imagem que gostaria de lhe propor. Voltemos novamente à Ucrânia. Uma grávida, carregada numa maca porque foi ferida na guerra, transportada no meio dos escombros, tentando acariciar o seu ventre com o último suspiro de força que lhe restava. Pelo que sabemos, nem essa mulher com o seu filho se salvaram. Mas o que realmente me vem à mente são as mulheres, a força das mulheres. Vêm-me à mente as mães russas, vêm-me à mente as mães ucranianas. E por isso pergunto-lhe sobre o papel das mulheres: - Qual a importância do papel ativo das mulheres na mesa de negociações, para construírem concretamente a paz?

Papa Francisco: “As mulheres são capazes de dar vida até a um morto” - é um ditado. As mulheres estão na encruzilhada das maiores fatalidades, elas estão lá, são fortes. É interessante. Jesus é o esposo da Igreja e a Igreja é uma mulher, é por isso que a Igreja-Mãe é tão forte. Não falo de clericalismo, dos pecados da Igreja. Não, Igreja-Mãe significa aquela que está aos pés da cruz a apoiar-nos, a nós pecadores. Algo que me impressiona muito, quando penso em Maria e nas outras mulheres aos pés da cruz. Em Buenos Aires, por vezes tive de ir a alguma paróquia num bairro chamado Villa Devoto, e ia de ônibus, o 86. Ele passava diante da casa de detenção, e muitas vezes eu via uma fila de mães de presos lá. Expunham os seus rostos pelos seus filhos, porque todos os que passavam, diziam: “Esta é a mãe de alguém que está dentro”. E toleravam os controles mais vergonhosos, para verem o seu filho. A força de uma mulher, de uma mãe que é capaz de acompanhar os seus filhos até o fim. E esta é Maria: as mulheres aos pés da cruz. Acompanha o filho, sabendo que muitas pessoas dizem: “Mas como educou o filho que acabou assim?”. Tagarelice de rua. Mas as mulheres não se preocupam: quando há um filho envolvido, quando há vida envolvida, as mulheres vão em frente. Por isso, dar às mulheres um papel em momentos difíceis, em momentos de tragédia é tão importante; é muito importante. Elas sabem o que é a vida, o que se prepara para a vida e o que é a morte, conhecem-na bem. Falam essa linguagem.

Lorena Bianchetti: E há também, Santidade – porque estamos a falar das muitas mortes causadas pela guerra – há mortes mais silenciosas, mas não menos sangrentas. Penso naqueles que foram assassinados pelas máfias e penso nas mulheres mortas pelos seus companheiros. É verdade que os últimos serão os primeiros no Céu, mas:  como podem essas pessoas e aqueles que perdem os seus afetos. acreditar na justiça, numa recompensa já nesta terra?

Papa Francisco: A exploração das mulheres é o nosso pão quotidiano. A violência contra as mulheres é o nosso pão de cada dia. Mulheres que sofrem golpes, que sofrem violência por parte dos seus companheiros e carregam isso em silêncio ou afastam-se sem dizer por quê. Nós, homens, teremos sempre razão: somos os perfeitos. E as mulheres estão condenadas ao silêncio pela sociedade. “Não, mas essa é louca, é uma pecadora!”. Era o que costumavam dizer sobre Madalena: “Olha o que ela fez, é uma pecadora!”. “E tu não és um pecador? Não erras?”. Mas as mulheres são a reserva da humanidade, posso dizer isso: estou convencido disso. As mulheres são a força. E ali, aos pés da cruz, os discípulos fugiram, as mulheres, que o seguiram ao longo da vida. Jesus, a caminho do Calvário, para em frente de um grupo de mulheres que choravam. Elas têm a capacidade de chorar, nós, homens, somos mais brutos. Ele para [e diz]: “Chorai pelos vossos filhos!”, porque farão muitas coisas contra eles.

Lorena Bianchetti: Hoje, Santidade, penso na fuga: há imagens que falam da fuga de ucranianos que são forçados a deixar as suas terras, as suas casas, os seus afetos. É um dos últimos êxodos a que, provavelmente, e infelizmente estamos nos habituando a ver. Mas, neste caso, houve uma resposta concreta e real. Na sua opinião, é uma resposta que derruba os muros da indiferença, do preconceito para com aqueles que fogem de outras partes do mundo, porque estão feridos pela guerra, ou continua-se a dividir os refugiados em categorias incômodas?

Papa Francisco: É verdade. Os refugiados são divididos. Primeira classe, segunda classe, cor da pele, [quer sejam] provenientes de um país desenvolvido ou de um que não é desenvolvido. Nós somos racistas, somos racistas. E isto é mau. O problema dos refugiados é um problema que até Jesus sofreu, porque era um migrante e refugiado no Egito, quando era criança, para escapar à morte. Quantos desses sofrem para escapar à morte! Há um quadro da fuga para o Egito que um pintor piemontês fez. Ele o mandou a mim e eu fiz alguns santinhos: é José com o menino em fuga. Mas não é São José com a barba, não. É um sírio, de hoje, com a criança, fugindo da guerra de hoje. O rosto de angústia que dessas pessoas, como Jesus, forçado a fugir. Jesus já passou por tudo isso, e está lá, na cruz, nos povos dos países da África em guerra, do Médio Oriente em guerra, da América Latina em guerra, da Ásia em guerra.

Há alguns anos eu disse que estávamos vivenciando a terceira guerra mundial em pedaços. Mas ainda não aprendemos. Eu – sou um ministro do Senhor e um pecador, escolhido pelo Senhor – mas, pecador assim, quando fui a Redipuglia, (na província de Gorizia) em 2014, para a comemorar o centenário [da II guerra mundial]. Vi e chorei. Simplesmente chorei. Todos aqueles jovens! [cerca de 100 mil mortos]. Depois visitei o cemitério de Anzio, onde se lembrava os jovens que (na época) tinham desembarcado em Anzio. Todos, jovens! E eu chorei lá, outra vez. Choro diante dessas realidades. Creio que há dois anos, quando houve a comemoração do desembarque na Normandia, com os chefes de governo, houve um encontro... eles estavam comemorando. Mas por que não comemoramos todos nós os 30.000 soldados que morreram na praia da Normandia? A guerra cresce suprimindo a vida dos nossos filhos, dos nossos jovens. É por isso que digo que a guerra é uma monstruosidade! Vamos a esses cemitérios que são precisamente a memória dessas vidas. Pensemos naquela cena que está escrita: barcos a chegar à Normandia, abriam-se, saltavam fora com os fuzis os jovens e os alemães... [o Papa imita o gesto de disparar] 30.000, na praia.

Lorena Bianchetti: Isso leva-me precisamente à corrida aos armamentos, a este tema. Um argumento que [o senhor] já abordou muitas vezes, e talvez nem sempre se tenha dado a ênfase certa. Disse que, nos últimos tempos, se investiu mais em armas do que em educação e formação. Por que os seres humanos não aprenderam com o passado e continuam a usar armas para resolver os seus problemas?

Papa Francisco: Eu compreendo os governantes que compram armas, compreendo-os. Não os justifico, mas compreendo-os. Porque temos de nos defender, porque há o esquema cainista de guerra. Se fosse um esquema de paz, isso não seria necessário. Mas vivemos com este esquema demoníaco, para nos matar uns aos outros por causa do poder, por causa da segurança, por causa de muitas coisas. E penso nas guerras ocultas, que ninguém vê, que estão longe de nós. Tantas! Para quê? Para explorar? Esquecemos a linguagem da paz: esquecemo-nos dela. Fala-se de paz. As Nações Unidas fizeram tudo, mas não tiveram êxito. Regresso ao Calvário. Lá Jesus fez tudo. Ele tentou com piedade, com benevolência, convencer os líderes e [em vez disso] não: guerra, guerra, guerra contra ele! Por mansidão, opõem-se à guerra pela segurança. “É melhor que um homem morra pelo povo”, diz o sumo sacerdote, porque, do contrário, os romanos virão. E a guerra.

Lorena Bianchetti: Então faço uma ligação com o que estava a dizer. Há pouco falamos sobre as mulheres aos pés da cruz. Mas, a propósito dos homens que têm poder. Na época havia Pilatos, Herodes, Caifás. Cada um deles poderia ter salvado pessoas inocentes, mas não o fizeram: preferiram não enfrentar o risco da verdade. Essas pessoas morreram, mas a sua forma de fazer as coisas continua a ser atual. Por que não temos a coragem de escolher o bem e defender o Homem que nos tinha simplesmente pedido para nos amarmos uns aos outros?

Papa Francisco: Há uma mulher no Evangelho sobre a qual não se fala muito – um pouco en passant – é a esposa de Pilatos. Ela compreendeu alguma coisa. Diz ao marido: “Não te envolvas com este homem justo!”. Mas Pilatos não a ouve, “coisas de mulher!”. Mas essa mulher - que passa esquecida e sem força no Evangelho - compreendeu o drama lá de longe. Por quê? Talvez ela fosse mãe, tinha essa intuição de mulher. “Toma cuidado para que não te enganem!”. Quem? O poder! O poder que é capaz de mudar a opinião das pessoas de domingo para sexta-feira. O Hosana do domingo torna-se o Crucifica-o! da sexta-feira. E este é o nosso pão quotidiano. Precisamos de mulheres que deem o alarme.

Lorena Bianchetti: Então, Santidade, Jesus na cruz, depois daquela frase, “Meu Deus, por que me abandonaste?”. Falávamos de desespero, desânimo e, também, solidão: Sexta-feira Santa é um pouco como o dia da solidão. E a solidão faz-me pensar, inevitavelmente, no que cada um de nós sentiu durante o período mais difícil da pandemia. Penso nos idosos, nos jovens, nas pessoas que vivem a provação da doença, naqueles que usavam aparelhos porque não conseguiam respirar. E, também, penso em Sua Santidade, no dia 27 de março de 2020. Quais foram os seus pensamentos naquele momento, ao atravessar a Praça de São Pedro completamente vazia, molhada pela chuva, e chegar ao átrio?

Papa Francisco: Não sei se pensei. Senti, sim. Procurava, sentia o drama daquele momento, de tantas pessoas. A senhora sublinhou a solidão, o sofrimento daquele momento, e dos idosos. É curioso: são eles que pagam sempre a conta. E os jovens também, porque roubamos a esperança aos jovens. Nós os fazemos seguir o caminho da Turandot“A esperança que sempre desilude”. Não, a esperança não desilude! Mas são os jovens e os idosos que têm nas mãos e no coração a possibilidade de reagir: é por isso que insisto tanto para que os jovens e os idosos dialoguem. A sabedoria dos idosos, com a solidão que eles sofrem. A sabedoria dos idosos é muitas vezes negligenciada e deixada de lado num lar de idosos. Eu gostava de visitar os lares de idosos em Buenos Aires; havia muitos na cidade. Perguntei a uma mulher: “Como estás? Quantos filhos? Ah, quatro? E eles vêm?”. “Sim, não me deixam sozinha!”. A enfermeira ouviu e na saída disse: “Padre, há seis meses que não vem ninguém”. O abandono dos idosos e o abandono da sabedoria, porque por vezes somos super-homens, sabemos tudo. Nós não sabemos nada! A solidão dos idosos e o uso dos jovens, porque os jovens, sem a sabedoria que vem do seu povo, terminarão mal.

Jesus tinha tudo isso no seu coração naquele momento: estávamos todos lá. A senhora lembrou a Statio Orbis de março, há dois anos, e sentia tudo isso. Mas eu não sabia que a praça estaria vazia, não sabia. Eu cheguei lá e não havia ninguém. Sim, eu sabia que com a chuva haveria poucas pessoas, mas, ninguém. Foi uma mensagem do Senhor para que eu compreendesse bem a solidão. A solidão dos idosos, a solidão dos jovens que deixamos sozinhos. “Deixem que eles sejam livres!”. Não! Sozinhos, eles serão escravos. Acompanhemos-los! É por isso que é importante que eles recebam a herança dos idosos, a sua bandeira devedora. A solidão dos jovens, dos idosos. A solidão das pessoas com problemas mentais em casas de saúde. A solidão das pessoas que passam por uma tragédia pessoal e familiar. A solidão de uma mulher que é espancada pelo marido, mas se cala para salvar a sua família. Temos muitas solidões ao nosso redor. Também a senhora tem a sua. Eu tenho as minhas: a senhora terá as suas, com certeza. Pequenas solidões, mas é nessas pequenas solidões que podemos compreender a solidão de Jesus, a solidão da cruz.

Lorena Bianchetti: Alguma vez se sentiu sozinho no exercício do seu ministério?

Papa Francisco: Não, Deus tem sido bom para mim. Não sei. Sempre, quando há algo negativo, ele põe alguém para me ajudar! Faz-se presente. Tem sido muito generoso. Talvez porque Ele sabe que eu não conseguiria fazê-lo sozinho! (risos).

Lorena Bianchetti: Saiba que no dia 27 de março – penso que estou realmente a falar em nome de todos – o senhor nos pegou realmente no colo, deu-nos muita força naquele dia. A partir de então, cada um de nós tomou consciência e, de alguma forma, penso que recomeçamos. Mas tenho outra pergunta: como já dissemos, Jesus foi flagelado, humilhado, coroado de espinhos, crucificado. E tudo isso, de alguma forma, veio-lhe da sua família, porque foi traído por Judas, foi negado por Pedro. Em suma, os golpes mortais vieram precisamente dos seus próximos. Quais são as feridas que a Igreja, hoje, continua a infligir ao Crucificado?

Papa Francisco: Falo claramente, porque estou convencido disso. A cruz mais dura que a Igreja hoje carrega sobre o Senhor é a mundanidade, o espírito da mundanidade. O espírito de mundanidade, que é um pouco como o espírito de poder, mas não apenas de poder, dá-se num estilo mundano que – curiosamente – é alimentado e cresce com dinheiro. Há uma coisa interessante. Nas três tentações do demônio a Jesus, o demônio faz propostas mundanas. A primeira, a fome, e se compreende: é humana – mas depois o quê? Poder, vaidade: coisas mundanas. Porque o caminho é atraente e quando cai na mundanidade, no espírito mundano, a Igreja é derrotada. O espírito de mundanidade é o que mais dói hoje, mas tem sido sempre assim. Quando Jesus nos diz: “Por favor, fazei uma opção clara, não podeis servir a dois senhores!”. Ou servis a Deus... – e eu esperava que Ele dissesse: “ou servis ao demônio” –, mas Ele não diz isso. Ele diz: “Ou servis a Deus ou servis ao dinheiro”. Usar dinheiro para fazer o bem, para apoiar a família através do trabalho, é ótimo. Mas, servir! Mas a mundanidade se detém no dinheiro.

Lorena Bianchetti: Li que Leão XIII tinha uma oração contra o demônio, que foi introduzida no final da missa porque, se diz, havia o risco de o demônio poder entrar na Igreja também através das fendas das portas. Na sua opinião, terá sido essa a fenda através da qual o demônio conseguiu entrar hoje na Igreja?

Papa Francisco: A mundanidade, mas isto acontece desde sempre. Em cada época a mundanidade muda de nome, mas é sempre o mesmo. Rezo a prece a São Miguel Arcanjo todos os dias, pela manhã. Todos os dias! Para que me ajude a vencer o demônio. Quem me ouvir pode dizer: “Mas Santidade, estudou, é Papa e ainda acredita no demônio?”. Sim, acredito, caro, acredito. Tenho medo dele, é por isso que tenho que me defender tanto. O demônio fez todas as manobras para que Jesus acabasse, como aconteceu, na cruz: o poder das trevas sobre Jesus: “Esta é a vossa hora!”, o poder das trevas.

Lorena Bianchetti: E assim, Santidade, volto à guerra na Ucrânia, porque Kiev –as imagens continuam a chegar – está completamente destruída. Cinzas. Talvez seja essa a paisagem que o demônio tanto gosta. Por isso pergunto-lhe: Kiev já não é apenas um lugar geográfico, mas aos olhos do mundo representa muito mais. No seu coração, o que é?

Papa Francisco: Uma dor. A dor é uma certeza, é um sentimento que tira tudo. Quando alguém, após uma cirurgia, sente dor física, a ferida que foi feita, pede uma anestesia, algo para ajudar a tolerá-la. Mas, para a dor humana, dor moral, não há anestesia. Há apenas oração e choro. Estou convencido de que hoje não choramos bem. Esquecemo-nos de chorar. Se posso dar um conselho, para mim e para as pessoas, devemos pedir o dom das lágrimas. E chorar, como Pedro chorou, depois de ter traído Jesus. Ele chorou, quando fugiu, quando o negou. Ele chorou. Um grito que não é um desabafo, não. É uma vergonha feita fisicamente e creio que nos falta vergonha. Estamos tantas vezes sem vergonha – é um insulto que se usa na minha terra natal: “fulano é um sem-vergonha!” – mas precisamos da graça de chorar. Há uma bela oração, há uma missa para pedir o dom das lágrimas. Uma bela prece nessa missa é assim: “Senhor, tu que da rocha fizeste sair água, faz sair lágrimas da rocha do meu coração!”. O coração duro, o coração que não se comove, não sabe chorar. Pergunto-me: quantas pessoas, diante das imagens de guerras, quaisquer guerras, foram capazes de chorar? Alguns, sim, tenho a certeza, mas muitos, não. Começam a justificar ou a atacar. Não, isto (o Santo Padre aponta para o coração): é preciso curar isto. E Jesus toca aqui! Hoje, Sexta-feira Santa, diante de Jesus Crucificado, deixe que ele toque o teu coração, deixa que Ele te fale com o seu silêncio e com a sua dor. Que Ele te fale através daquelas pessoas que sofrem no mundo: sofrem de fome, sofrem de guerra, sofrem de tanta exploração e de todas essas coisas. Deixa que Jesus te fale, e por favor não fales tu. Silêncio. Deixe que seja Ele a falar, e pede a graça de chorar!

Lorena Bianchetti: Quanto pode fazer as religiões para remover essa desertificação dos corações? Quanto e que palavras pretende dirigir também aos bispos ortodoxos?

Papa Francisco: Sim, eles também estão preparando a Páscoa conosco, com uma semana de diferença, porque – também os católicos orientais – seguem o calendário juliano, não o gregoriano. Aproveito a oportunidade para enviar uma mensagem de fraternidade a todos os meus irmãos bispos ortodoxos, que estão vivendo essa Páscoa com a mesma dor que nós, eu e muitos católicos a estamos vivendo. Não é fácil ser bispo... e graças a Deus que não é fácil! É por isso que não compreendo aqueles que querem tornar-se bispos! Eles não sabem o que os espera! Mas gostaria de aproveitar essa oportunidade para saudar todos os bispos ortodoxos como irmãos na fé.

Lorena Bianchetti: Há outra frase que Jesus pronuncia na cruz: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem!”. Perdão. O senhor disse que oferecer a outra face não significa sofrer em silêncio, ceder à injustiça. Recordou-nos que Jesus também denuncia a injustiça, e especificou que ele o faz sem raiva nem violência, mas com ternura. Santidade, como podemos ser amáveis ou perdoar todas as pessoas que nos ferem, aquelas pessoas que matam inocentes, que agridem não só fisicamente, mas também psicologicamente?

Papa Francisco: Dou-lhe a minha receita. Se eu não fiz esse mal, é porque Ele me impediu com a Sua mão, com a Sua misericórdia. Disto estou certo, porque de outra forma teria feito tanto mal como eles! Nisto posso dizer que sou uma testemunha da misericórdia de Deus. É por isso que não posso condenar alguém que vem pedir perdão. Devo perdoar sempre. Cada um de nós pode dizer isso sobre si mesmo, no seu exame de consciência. É verdade que talvez não sejamos capazes de dizer, afetivamente: “Vem caro, dá-me um beijo!”. Não, talvez eu fique zangado! Mas digo: “Senhor, livra-me da raiva, eu perdoo, mas não tenho o sentimento de perdão. Eu perdoo. Tu, arranja-te, para levar esse perdão...".

Lorena Bianchetti: O perdão tem uma raiz apenas divina.

Papa Francisco: Sim, no final o perdão é algo assim.

Lorena Bianchetti: Voltando a Jesus na cruz, também penso na solidão, penso em todas aquelas pessoas que, como consequência da Covid, perderam os seus empregos. Há muitas pessoas, Santidade, que vivem com esse tipo de dificuldade. Que palavras de esperança lhes quer transmitir?

Papa Francisco: A palavra-chave que acabou de dizer é esperança. A esperança não é acariciar e dizer: “Ah, tudo vai passar, não te preocupes!”. A esperança é uma tensão para o futuro, para o céu também. É por isso que a figura da esperança é a âncora: a âncora atirada ali e eu aqui com a corda, para chegar lá, para resolver situações, mas sempre com essa corda. A esperança nunca desilude, mas faz-nos esperar. A esperança é a doméstica da vida cristã. É realmente a mais humilde das virtudes. Está escondida, mas se não a tiveres (à mão), não encontrarás o caminho certo. É a esperança que te faz encontrar o caminho certo. Ter esperança é não ter ilusão: “Vou…  (falar com) alguém para ler a mão... isto vai dar certo!”. Não, isto não é esperança. A esperança é a certeza de que tenho na minha mão a corda daquela âncora lançada. Gostamos tanto de falar da fé, da caridade...Olha para ela! A esperança é uma virtude oculta, pequenina, a pequenina de casa. Mas é a mais forte para nós.

Lorena Bianchetti: Então esta é também a mensagem para os jovens, porque penso naqueles que veem o futuro a ser arrancado das suas mãos: há pouco disse isto muito claramente. É por isso que não planejam muito, e nem sempre acreditam em relações duradouras, não formam famílias. Em suma, digamos que mesmo no nível institucional e cultural não são muito ajudados. Portanto, que palavras gostaria de lhes dizer?

Papa Francisco: Não confundir esperança com otimismo. Podemos comprar o otimismo no quiosque. Sabe, o otimismo é vendido! Mas a esperança é outra coisa. A esperança é ter a certeza de que estamos a caminhar para a vida. Há um poeta argentino que – bom, um grande poeta – [há] uma frase, um poema, que sempre me impressionou, uma definição de vida: “A vida é uma morte que chega”. Não, a vida não é uma morte que chega: a vida é, talvez, da morte voltar à vida! A esperança é forte nisso: é aquela corda da âncora. Nunca desilude! Mas é humilde, é, na verdade a doméstica da vida cristã. Muitas vezes, são as domésticas que levam em frente a vida de uma família.

Lorena Bianchetti: Santidade, para concluir. Hoje é Sexta-feira Santa, mas a história da salvação não termina aqui. Graças a Deus, o Evangelho tem um final feliz porque há a ressurreição de Jesus: esse é o centro da história da salvação. Quais são os seus votos para esta Páscoa?

Papa Francisco: Uma alegria interior. Há um salmo que diz: “Quando o Senhor nos libertou da Babilónia, parecia-nos sonhar!”. O pranto de alegria. Alegria. Os meus votos são para que não se perca a esperança, a verdadeira esperança – que não desilude. É pedir a graça de chorar, mas o choro de alegria, o choro de consolação, o choro de esperança! Tenho a certeza, repito: precisamos chorar mais! Esquecemo-nos de chorar. Vamos pedir a Pedro que nos ensine a chorar como ele chorou. E depois, o silêncio da Sexta-feira Santa.

Lorena Bianchetti: Santidade, são quase três horas. Como devemos viver este momento hoje?

Papa Francisco: (não responde, permanece em silêncio).

Lorena Bianchetti: Posso abraçá-lo em nome de todos? Obrigada, Santidade! Obrigada!

Papa Francisco: Sou eu que agradeço! O Senhor a abençoe!

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Fonte do texto:

htttps://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2022-04/papa-francisco-entrevista-rai-lorena-bianchetti-guerra.html 

Veja:  Vídeo do silêncio de Francisco:

 https://twitter.com/i/status/1514950324255174658

 

FREI BETO: QUANDO DEUS SE CALA

20 de fevereiro de 2022

Um caro amigo me enviou um precioso texto de Frei Beto, muito atual para esses dias carregados de aflições. Fala de uma amiga que, como a maioria dos brasileiros, sente-se angustiada por tais aflições. Ela desabafa. Diz que não consegue mais suportar o silêncio de Deus diante de tudo isso.

No seu texto, Frei Beto chega a afirmar: “convém assinalar que Deus também é evocado pelos terroristas, pelos autocratas, como Bolsonaro, e seu nome é amplamente tomado em vão e utilizado para justificar as mais terríveis atrocidades.”

É sobre o silêncio de Deus diante das nossas aflições que Frei Beto nos fala, trazendo um sopro de conforto ao nosso coração tão angustiado.         

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Por: Frei Betto*


Chega a amiga sem o sorriso que lhe é peculiar. Recebo-a no parlatório do convento com o pressentimento de que algo lhe esmaga o coração. Então, desabafa. Fala do genocídio (mais de 630 mil mortos) promovido pelo governo federal ao minimizar a pandemia e negar a ciência; das invasões de terras indígenas; do feminicídio alarmante; dos múltiplos casos de racismo; dos sucessivos assassinatos de crianças, no Rio, por supostas “balas perdidas”. E antes de se calar, conclui: “Não suporto o silêncio de Deus”. 

Uma longa pausa se abre entre nós. Porque não me julgo portador de elixires capazes de consolar os aflitos. Também carrego minhas angústias e tantas interrogações que me oprimem o coração. O silêncio de Deus também me inquieta. Não creio em um deus “pronto socorro” que venha em resposta às minhas súplicas. Nem mesmo sei quem é Deus, digo a ela, por mais que os catecismos e as teologias se esforcem em defini-lo. Pura bravata!

"Também carrego minhas angústias e tantas interrogações que me oprimem o coração. O silêncio de Deus também me inquieta. Não creio em um deus 'pronto socorro' que venha em resposta às minhas súplicas.”

Admito que Deus extrapola todos os nossos conceitos e nossas palavras, ideias e fantasias. Não cabe na mente nem na alma dos humanos. É radicalmente o Outro! O Inominável, como o considera o centésimo nome da divindade na lista muçulmana.

Mesmo na Bíblia - com raras exceções, como no batismo de Jesus (Marcos 1,11) –, Deus se cala. Faz-se presente disfarçado de nuvem, de brisa suave, de sopro, de anjo etc. É o “Deus absconditus” (oculto) de Pascal. Fez silêncio inclusive na agonia do Filho pregado na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, clamou Jesus ao ecoar o Salmo 22 (Marcos 15,34). Aquele que Jesus tratava com tanta intimidade, a ponto de chamá-lo Abba – “meu pai querido”, em aramaico – agora estava tão distante que foi invocado pelo nome genérico. 

Deus também fez silêncio nos campos de concentração nazistas. Até o papa Bento XVI, ao visitar Auschwitz, em abril de 2010, exclamou: “Por que, Senhor, permaneceste em silêncio? Como pudeste tolerar isto? Onde estavas nesses dias?” Da mesma forma, o salmista clamou: “Meus Deus, eu grito de dia e não me respondes!” (Salmo 22,2). E Javé adverte no livro dos Provérbios: "Vocês me chamarão, mas não responderei; procurarão por mim, e não me encontrarão.” (1,28). Deus é definitivamente um ser insondável, enigmático. É isso, na opinião de João da Cruz, que nos permite crer ou não crer. “Onde tu te escondes?”, indaga o místico espanhol, ao fazer eco ao profeta Isaías: “Tu és um Deus que se esconde.” (45,15).

Minha amiga diz que está em crise de fé. Como os amigos de Jó. Recordo o conselho de Alfred de Vigny: “Nunca fale e nunca escreva sobre Deus. Restitua-lhe o silêncio com o silêncio”. Esse silêncio significa a morte de Deus, como alertou Nietzsche? Óbvio que não. A religiosidade está em plena ascensão no mundo. Nos EUA é politicamente incorreto se declarar ateu… Figuras como o Papa Francisco e o Dalai Lama se destacam como as mais respeitáveis.

“Digo à minha amiga que prezo com profundo respeito o silêncio de Deus. De certa forma, invejo-o. Nesse mundo tão ruidoso, de zoadas auditivas e virtuais, guardar silêncio é uma atitude de profunda sabedoria.”   

Mas convém assinalar que Deus também é evocado pelos terroristas, pelos autocratas, como Bolsonaro, e seu nome é amplamente tomado em vão e utilizado para justificar as mais terríveis atrocidades. “Graças a Deus”, roga uma família que, por pouco, não foi esmagada pela grande pedra que se desprendeu no canyon de Capitólio (MG). E o que dizer aos familiares das vítimas fatais? Dizer que não mereceram a bênção de serem agraciados pela mão salvadora de Deus?

Digo à minha amiga que prezo com profundo respeito o silêncio de Deus. De certa forma, invejo-o. Nesse mundo tão ruidoso, de zoadas auditivas e virtuais, guardar silêncio é uma atitude de profunda sabedoria. De saúde psíquica. Não vale a pena falar se minhas palavras não forem melhores que o meu silêncio.

Temos medo do silêncio. Deus não, o que comprova a sua sapiência. Temos dificuldades frente a tudo que requer silêncio, como dormir, orar, meditar, ocupar-se com um livro… O silêncio nos atordoa. E tememos o mais definitivo dos silêncios – a morte.

Digo à minha amiga que não creio em Deus, creio em Jesus. E, por tabela, no Deus de Jesus. Mas não sei quem ele é e nem isso me preocupa. Apenas sei que, segundo Jesus, ele pode ser encontrado em todo e qualquer gesto de amor. A fé é um salto no vazio. Creio sem saber. O foco de minha fé não é Deus, é Jesus. E mais do que ter fé em Jesus, quero ter a fé de Jesus. Como escrevi no poema Domingo no circo: “Domingo redondo aberto picadeiro Ensolarado por tão forte ardor Me refunde, queima, alucina: Olhos vendados, sem rede sobre o chão, Atiro-me do trapézio em teu amor.” 

Após nossa conversa, minha amiga parecia menos angustiada. Fez-se prolongado e leve silêncio entre nós. Até que ela se levantou, deu-me um abraço apertado e partiu em silêncio. 

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Sobre este tema, confira, do mesmo autor:

https://www.freibetto.org/index.php/todos-os-artigos/214-o-

Imagem de abertura: Representação de Jesus como Bom Pastor nas catacumbas de Roma - afresco do século III.

Em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Representa%C3%A7%C3%A3o_de_Jesus_na_arte

ÓDIO, UMA PATOLOGIA ESTÚPIDA

2 de fevereiro de 2022

                


Por:  Vitor Mancuso


Da crônica à política vivemos circundados deste “sentimento” que, na realidade, é uma doença, porque na natureza existe apenas o conflito.

 

O presente artigo foi originalmente publicado no jornal italiano Il Foglio. Embora datado de 2019, a preciosa análise de Vito Mancuso tem muito a dizer, hoje, a nós brasileiros, nesse tempo carregado de graves tensões, devaneios governamentais e primeiros rebuliços políticos pré-eleitorais.

Vito Mancuso é um reconhecido escritor italiano, doutor em teologia, que iniciou sua carreira como professor de Teologia Moderna e Contemporânea na Universidade San Raffaele de Milão, e, em seguida, foi professor de História das Doutrinas Teológicas na Universidade de Pádua. Logo tornou-se um dos escritores mais lidos na sua área de conhecimento, pela sua abordagem sobre o sentimento humano como o amor, o ódio e o desejo, com uma linguagem clara e contemporânea, e, certamente, por colocar-se contra a corrente teológica tradicional. Em 2014, a Editora Paulinas publicou o seu livro: “Eu e Deus: um guia para os perplexos”, em português. 

A tradução original do artigo é de Moisés Sbardelotto, para o portal IHU-Usininus. Para os leitores deste blog, tomamos a liberdade de fazer pequenos ajustes na tradução, a partir do texto original italiano.  Segue o artigo.

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Um prefeito de política aberta e solidária é esfaqueado até a morte na cidade do Movimento Solidarność (em Gdańsk, na Polônia). Um terrorista criminoso chega à Itália, e muitos rangem os dentes, e, se pudessem, se atracariam com ele até dilacerá-lo. Nas arquibancadas dos estádios, gritam-se inutilmente hinos racistas e antissemitas. Alguns garotos são capazes de pegar um cachorro para fazer explodir um rojão em sua boca.

São apenas alguns exemplos de uma paixão destrutiva e assassina que permeia a nossa história: Caim mata Abel, Rômulo mata Remo, Estéocle e Polinices matam-se um ao outro, Sócrates é morto pelos democratas, Jesus é morto pelos teocratas e pelos imperialistas, os sicários de Antônio decepam as mãos e a cabeça de Cícero, e depois? Depois, as guerras sem fim, pulsões atávicas de vingança, execuções capitais que reúnem multidões aos gritos de um prazer sádico, e nem sequer vou abrir o capítulo da história do século XX, porque todos já sabemos quanto sangue e quanto ódio ela contém. Precisamente o ódio. Depois vem a sua versão fria, aquela que corresponde aos círculos infernais em que os condenados são aprisionados no gelo, e se expressa naquela voz maligna que diante de um navio de seres humanos com a pele de diferentes matizes apenas suplicam para desembarcar sussurra friamente: que morram todos afogados, ou de fome, de frio, que se lasquem!

Nas estrelas, nos quasares das galáxias, nas pulsar, nos buracos negros e nos seres viventes que lutam pela vida, e que se nutrem da vida de outros seres, não existe o ódio. A este ponto a questão que se põe é simples:

Que papel tem o ódio na estrutura do mundo? É algo congênito, estruturalmente presente e, portanto, natural? Ou é algo não congênito, inesperado e, portanto, inatural? O que tem a ver o ódio com a lógica da vida no mundo? A minha resposta vai contra a corrente, é inatual, é um desafio, porque defende que ódio não é natural, mas é uma patologia, e, portanto, a sua dissolução - que também podemos chamar de perdão é um retorno à fisiologia, ou melhor, a uma cura.

De que o ódio se constitui uma patologia? Daquela condição estrutural que Heráclito chamava polemosEmpédocles neîkos. Segundo Heráclito, “o conflito (polemos) é o pai de todas as coisas e de tudo é rei” [i] afirmação que concorre à consciência complementar da harmonia, segundo a qual: “O que contrasta favorece, e a partir de elementos que discordam alcança-se a mais bela harmonia”.[ii] Para Empédocles, o mundo físico e humano é regido por duas forças contrastantes, denominadas por ele de philòtes e neîkos, isto é, concórdia e discórdia, entendimento e desentendimento, amizade e rancor. Decorre, portanto, que tanto os elementos naturais quanto os seres humanos “às vezes contribuem, pela concórdia, com um único cosmos, às vezes, cada um segue arrastado por si próprio, pelo desafio do rancor” ("Poema físico", 22).  Empédocles e Heráclito foram os primeiros, no Ocidente, a trazer à consciência a condição antinômica e conflituosa que, estruturalmente, é inerente ao ser. Hoje a ciência confirma essa visão. Na natureza existe o conflito, a partir da condição própria da matéria. [...] Se, no entanto, voltarmos a nossa atenção para a história da vida, as coisas não mudam, ao contrário, tornam-se até mais perturbadoras, porque entra em cena o sangue, o elemento da vida e, ao mesmo tempo, da morte. [...]

Mas atenção: nas estrelas, nos quasares, nos pulsares, nos buracos negros, assim como nos seres vivos que lutam pela vida e que se nutrem da vida de outros, não há ódio. O leão não odeia a gazela, assim como a gazela não odeia a relva; as bactérias, os vírus, as células cancerígenas e qualquer outro ente natural também não são capazes de ódio. Não há ódio nem mesmo naqueles comportamentos animais que um professor de zoologia da Universidade de Pádua, Giuseppe Fusco, descreve em termos de escravismo em relação a certas formigas, de fratricídio para muitas aves de rapina, de matricídio para algumas aranhas, de uxoricídio para os louva-a-deus, até mesmo de violência sexual para certos insetos. O estudioso explica: “Esses comportamentos, sob nenhuma circunstância, devem ser classificados sob o rótulo de ‘comportamentos desviantes’, porque, para as espécies animais que os praticam, eles fazem parte do seu ciclo vital normal”.[iii]

No mundo natural não há ódio porque nele não existe a condição necessária para o ódio, ou melhor, a evolução da mente, sendo o ódio justamente uma patologia da mente, e, mais precisamente, uma patologia de um conflito que é estruturalmente inerente ao ser humano. De fato, uma coisa é ter um adversário, outra é odiá-lo. A primeira obra da literatura ocidental, a “Ilíada”, ensina que também se pode cantar a epopeia vitoriosa de uma guerra sem odiar o inimigo; o mesmo ocorre no ideal da cavalaria medieval. O adversário é, sim, objeto de aversão, mas não necessariamente de ódio; o inimigo é, sim, objeto de inimizade, mas não necessariamente de ódio. Onde estaria a diferença?  

A diferença está no fato de que se quer ganhar, vencer, derrotar o inimigo, o adversário, até mesmo de forma grosseira, mas não o queremos extingui-lo ou aniquilá-lo. Não só. No entanto, se refletirmos com ponderação, entenderemos que, sem o adversário ou seja, sem o adversus que representa o polo oposto em relação ao nosso versus –, a nossa própria identidade seria completamente diferente ou até não existiria: como a esquerda sem a direita, os ateus sem os crentes, ou a Inter sem a Juventus (no futebol italiano). O ódio, ao contrário, quer aniquilar. E, no furor cego torna-se ignorante, não compreende que a exterminação do inimigo significaria a aniquilação de si mesmo, da sua própria identidade que, sem o inimigo, não teria mais o polo de referência para se fortalecer e se motivar.

Quem é capaz de ódio? Só o espírito pode odiar, isto é, a liberdade. O termo “espírito” em latim (spiritus), em grego (pneuma) e em hebraico (ruah) significa, exatamente, “vento”, “ar que se move”, e foi escolhido pelas civilizações com base na nossa tradição, para indicar precisamente a nossa capacidade de ser livre. A liberdade não nos chega pelo fato de sermos corpo, nem de sermos psique. Todavia, se a admitirmos (entendendo por liberdade a possibilidade de se ter consciência, criatividade e responsabilidade), é preciso individuar qual a condição que nos permite ser livres. Portanto, se não é o corpo e se não é a psique, ela requer outro nome. A tradição nos entrega o termo “espírito”.

Pois bem, o ódio é uma doença do espírito: não por acaso a tradição cristã, e, também, a judaica e a islâmica, consideram que Satanás (que o Alcorão chama de Iblis) seja um anjo decaído, e o anjo é precisamente puro espírito. Quando a liberdade adoece, põe a consciência e a criatividade não mais a serviço da responsabilidade, mas do seu contrário, isto é, da negação, da aversão, da destruição. Assim, tem-se a malignidade, que é a lúcida vontade do mal.

Essa vontade maligna pode ser dirigida contra uma pessoa, um grupo, um povo, uma instituição, ou pode ser endereçada contra o mundo, de uma forma genérica e conduzida pelo mero prazer do mal, pelo gosto sádico e pernicioso de infligir sofrimento, destruição e morte. A personificação dessa força é o chamado Demônio, cuja essência é exatamente a divisão, a dilaceração, o esquartejamento do ser: o contrário da harmonia.

Normalmente, não se pensa que o ódio seja uma patologia, ao contrário, o ódio se contrapõe ao amor como uma força de igual e contraposta potência. Não só, chega-se a considerar que o ódio ajude a compreender bem melhor o amor, e que tenha uma sua invejável lucidez, uma penetração inteligente e aguda. É verdade que se diz “ódio cego”, mas essa é mais uma referência à raiva, enquanto o ódio, no seu gélido distanciamento, é visto como frio, lúcido, penetrante. Sami Modiano, um sobrevivente de Auschwitz, afirmou: “Não é verdade que o ódio é cego. Ele tem a visão muito aguda, a de um atirador de elite, e, se adormece, o seu sono nunca é eterno, retorna”.

Eu não subestimo a força do ódio, mas não creio que ele seja realmente inteligente. Pelo contrário, penso que o ódio, na realidade, saiba ver apenas a si mesmo, e não o outro na sua efetiva realidade; mesmo quando vê o outro, na verdade está vendo apenas o que ele prejulga, que o impede de reconhecer o bem e o belo do outro, e lhe confirmará infalivelmente que o outro é tão só o mal e a deformidade. O ódio enxerga, mas não vê com um olhar reto, relaxado, que faz com que os olhos pousem no outro para captar aquilo que ele realmente é.  Não, seus olhos veem com um olhar flectido, deformado pela energia negativa que o anima, pelo desejo de destruição que emana do seu olhar.

De que coisa o ódio se constitui uma patologia? Daquela condição estrutural que Eraclito chamava polemos e Empedocle neîcos. O ódio não enxerga com o olhar reto. A “reta visão” gera abertura mental e abertura do coração, ou melhor, empatia. Pois a verdadeira compreensão requer retidão, antes de tudo no sentido de um olhar reto, de “reta visão”, como diz a primeira disposição do nobre caminho óctuplo ensinado por Buda.[iv]  Daí gera-se a abertura mental e a abertura do coração, ou empatia –, “a capacidade de sentir as emoções alheias, de compreender aquilo que o outro está pensando ou sentindo”, condição que só é possível quando uma pessoa é capaz de “compartilhar o estado afetivo de outro indivíduo”,[v] isto, obviamente, quando não odeia.

O ódio, portanto, não é inteligente, mas estupidamente circunscrito. Resta uma última questão: o ódio é forte? É claro, o ódio é forte, às vezes fortíssimo. Mas o câncer também o é, as células cancerígenas podem ser muito mais vitais do que as células sadias; são esfaimadas, violentas, agressivas. Porém, o que resulta? A morte do organismo e, portanto, também das células, o que significa a máxima impotência.

Isso se explica pelo fato de que o ser é regido pela lógica do sistema, ou melhor, pela relação harmoniosa; o que é regido por tal lógica promove o florescer da vida. Assim, o que não se rege por essa lógica faz a vida desvanecer, introduzindo a morte. Platão escreve que até mesmo “um bando de delinquentes e de ladrões ou qualquer outra força que se forme no intento de delinquir,” não poderia fazer nada “se se comportasse internamente fora de todos os princípios de justiça”.[vi]

Assim, não se trata de sermos necessariamente bons, ao escolher de combater o ódio. Trata-se, mais simplesmente, de ser inteligentes, de entender a lógica que nos trouxe à existência e nos mantém nela, e de nos conformar a ela (como um capitão de um barco à vela que entende o jogo dos ventos e das correntes e dispõe o seu barco em prumo). Portanto, combater o ódio no seu interior mantendo o conflito, mas não odiando, significa permanecer saudáveis, rejeitar o mal fora de si. E, antes de tudo, por um ato de benevolência para com o outro, não deixar que as células cancerígenas do ódio criem raízes é um grande gesto de cuidado para consigo mesmo.

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Fonte do artigo:

https://www.ilfoglio.it/cultura/2019/01/20/news/lodio-una-stupida-patologia-233228/

A imagem é integrada ao texto original de Il Foglio.

Tradução original, em português:

https://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/586166-odio-uma-patologia-estupida-artigo-de-vito-mancuso

Notas de rodapé:

[i] Fr. 14, ed. Diano.

[ii] Fr. 24

[iii] Competizione e cooperazione, em L’altruismo, Udine: Forum, 2018, p. 37.

[iv] Nota da presente tradução: O Nobre Caminho Óctuplo é, nos ensinamentos do Buda, um conjunto de oito práticas que correspondem à quarta nobre verdade do budismo. Seria um treinamento para erradicar a ganância, o ódio e a ilusão, vistos como as raízes do sofrimento.

[v] Franco Fabbro, Eric Pascoli, L’empatia e l’altruismo alla luce delle neuroscienze, in: L’altruismo, cit, pp. 119-120),

[vi] "República", I, 351 D [trad. portuguesa: Maria Helena da Rocha Pereira, ed. Fundação Calouste Gulbenkian].

 










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