Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

VITÓRIA DA COLÔMBIA - BOAVENTURA DE SOUZA SANTOS

23 junho, 2022

 


Após um longo período ausente, neste espaço -- para finalizar um romance que ousei escrever -- é com alegria que volto para registrar mais uma viravolta democrática na América Latina; desta vez na Colômbia. Para comentar esse fato, ninguém mais autorizado do que o reconhecido sociólogo português, Boaventura de Souza Santos.

Quanto ao romance, que se dá nos anos 70 - período da ditadura militar, no Brasil, e das grandes mudanças na Europa - logo mais farei a devida apresentação.

Boaventura de Sousa Santos é doutor em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale e Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa.

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Boaventura: como a Colômbia venceu


Eleição de Petro-Francia abala décadas de domínio das oligarquias. Resultado mostra: para enfrentar direita antissistema, é preciso expor seu vazio programático, mobilizar ruas, dialogar com jovens e apostar num projeto radical de mudanças.


  • Por: Boaventura de Souza Santos

  • Publicado em 21/06/2022  
  • Em: OUTRASPALAVRAS

 

Pela primeira vez na história da Colômbia um candidato de esquerda ganhou as eleições presidenciais. Pela primeira vez, uma mulher negra e da classe trabalhadora (mineira e empregada doméstica) foi eleita vice-presidente. O continente latino-americano não cessa de nos surpreender e, se as surpresas por vezes nos deprimem, outras vezes enchem-nos de esperança. Neste caso, a esperança é decisiva porque a alternativa, tanto na Colômbia como no continente, seria o desespero e o possível colapso da já frágil democracia. É, pois, importante analisar as causas desta vitória e o que ela significa.

Neste país de 49 milhões de habitantes, em que um quarto dos eleitores tem 28 anos ou menos, a grande maioria dos jovens votou em Gustavo Petro e Francia Marquez (sobretudo os de idade entre 18 e 24 anos). É na juventude que está mais viva a necessidade de mudança. Foi ela uma das principais forças da mobilização nacional que em 2021 parou o país para reclamar o fim das políticas neoliberais de austeridade. Foi o famoso Paro Nacional de que resultaram 46 mortos em confrontos com a polícia e o exército. A energia inconformista que o Paro gerou foi canalizada com êxito para estas eleições. Para isso contribuíram decisivamente dois fatores: o uso persistente e competente das redes sociais que seduziu a geração TikTok e logrou desmontar a argumentação fraudulenta, elitista, misógina e racista do candidato de direita, ao mesmo tempo que expôs os “esqueletos no armário” de muitos (incluindo jornalistas) que o apoiavam; a mobilização de artistas e intelectuais que transformaram a eleição de Petro e Francia num ato de cultura contra a barbárie.

As principais reformas estruturais propostas por Petro e Francia são as seguintes: mobilizar a sociedade colombiana como sociedade cuidadora que reconheça e recompense o trabalho de cuidado das mulheres; estabelecer uma nova relação entre a sociedade e a natureza que dê prioridade à defesa da vida sobre os interesses econômicos, promova a transição energética e democratize o conhecimento ambiental; passar de uma economia extrativista a uma economia produtiva que diminua a desigualdade na propriedade e uso da terra mediante a reforma agrária que inclua o acesso e uso da água e transforme o mundo rural colombiano em peça-chave da justiça social e ambiental; garantir o cumprimento dos acordos de paz de 2016, promovendo um novo contrato social que garanta os direitos fundamentais, em particular os direitos das vítimas do conflito armado, e estimule uma política de convivência pacífica e de reconciliação.

É a primeira vez no continente em que uma agenda feminista centrada no cuidado tem tanta prioridade. Não se trata do feminismo de classe média, tantas vezes falsamente radical e politicamente equivocado (por exemplo, no caso do golpe de 2019 contra Evo Morales), mas antes do feminismo negro consciente da multiplicidade das opressões (sexistas, racistas, classistas) na esteira de Ângela Davis. É igualmente a primeira vez que a agenda ambiental assume tanta prioridade num programa de governo. Em qualquer destes casos não se trata de improvisações de última hora, mas de políticas e convicções construídas ao longo de anos e testadas na prática da atividade política anterior tanto de Petro como de Francia.

Estas eleições terão impacto no continente. Contribuirão certamente para fortalecer o momento de soberania e de autonomia em relação aos EUA que o continente vive em vésperas do endurecimento das relações entre os EUA e a China e da luta pelo controle dos recursos naturais e do comércio internacional que daí decorrerá. A partir de hoje, os presidentes do México e da Bolívia sentir-se-ão menos sós (e mesmo recompensados) na luta que recentemente travaram contra a farsa da última cimeira das Américas convocada pelos EUA, com as suas habituais exclusões unilaterais. Além disso, a democracia colombiana pode contribuir para desarmar os golpes antidemocráticos que se preparam no continente. É reconfortante ver o candidato perdedor, que se afirmara como antissistema, apressar-se a reconhecer os resultados eleitorais e a felicitar o candidato vencedor. E o mesmo se pode dizer do atual presidente Ivan Duque, com o seu telefonema a Petro, convocando-o para reuniões nos próximos dias de modo a garantir uma transição tranquila e transparente. Por outro lado, as eleições na Colômbia mostram a fragilidade dos candidatos da direita antissistema. A obsessão de Rodolfo Hernández com a corrupção apenas pretendia esconder que ele próprio estava acusado de corrupção. Talvez a obsessão de Bolsonaro com a possibilidade de fraude eleitoral pretenda apenas esconder que a fraude é ele próprio.

O impacto real destas eleições na Colômbia vai depender de muitos fatores. Para já, voltou a respirar-se paz, o que não sucedia desde 2018. No final do mês, a Comissão da Verdade entregará o seu relatório final. Será certamente um documento importante com recomendações que a nova equipa política não deixará de tomar em conta. Surge num momento de esperança e estou certo de que contribuirá para a fortalecer e lhe dar consistência. Não será, como se temia, um documento contracorrente. Será um documento que impulsará a corrente. Com o peso do chumbo da guerra enterrado, a navegação será mais leve.

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FONTE:

https://outraspalavras.net/descolonizacoes/boaventura-como-a-colombia-venceu/
 

Crédito Imagem - divulgação: foto integrada ao artigo.

 

É PRECISO DESARMAR A RAZÃO ARMADA - ADOLFO PÉREZ ESQUIVEL

17 maio, 2022


Não seria necessária uma apresentação do autor deste artigo, pois se trata de um dos latino-americanos mais queridos e respeitados da atualidade - escultor argentino, ativista dos Direitos Humanos e Prêmio Nobel da Paz nos nebulosos anos de 1980. Com a sua abrangente visão da realidade mundial, Adolfo Pérez Esquivel comenta sobre guerras e violência com fundamentos éticos e grande sensibilidade. E aponta a espantosa cegueira e insensibilidade para com o sofrimento humano, não só nos países em guerra, mas com a violência da fome, a extrema pobreza e a dor dos refugiados espalhados em todo o mundo.
 

PAPA FRANCISCO EM ENTREVISTA A BIANCHETTI: AS MULHERES SÃO A RESERVA DA HUMANIDADE. ESTOU CONVENCIDO DISSO.

29 abril, 2022





Na entrevista concedida por Papa Francisco à jornalista Lorena Bianchetti, para a Raiuno, vários temas foram abordados: o drama da guerra, não só na Ucrânia, o importante papel das mulheres na construção da paz, a questão dos refugiados e dos sem pátria, o mundanismo no âmbito da Igreja e fora dela e o cainismo. O papa sublinhou a importância do perdão, do silêncio diante da dor e da força da esperança para se ir adiante. A entrevista é longa, mas lhes garanto que o diálogo é solto, espontâneo, atual e muito humano. Tem a característica de uma conversa, com excelentes questões colocadas a Francisco, e suas respostas coerentes e muito profundas.

FREI BETO: QUANDO DEUS SE CALA

20 fevereiro, 2022

Um caro amigo me enviou um precioso texto de Frei Beto, muito atual para esses dias carregados de aflições. Fala de uma amiga que, como a maioria dos brasileiros, sente-se angustiada por tais aflições. Ela desabafa. Diz que não consegue mais suportar o silêncio de Deus diante de tudo isso.

No seu texto, Frei Beto chega a afirmar: “convém assinalar que Deus também é evocado pelos terroristas, pelos autocratas, como Bolsonaro, e seu nome é amplamente tomado em vão e utilizado para justificar as mais terríveis atrocidades.”

É sobre o silêncio de Deus diante das nossas aflições que Frei Beto nos fala, trazendo um sopro de conforto ao nosso coração tão angustiado.         

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Por: Frei Betto*

ÓDIO, UMA PATOLOGIA ESTÚPIDA

02 fevereiro, 2022

                


Por:  Vitor Mancuso


Da crônica à política vivemos circundados deste “sentimento” que, na realidade, é uma doença, porque na natureza existe apenas o conflito.

 

O presente artigo foi originalmente publicado no jornal italiano Il Foglio. Embora datado de 2019, a preciosa análise de Vito Mancuso tem muito a dizer, hoje, a nós brasileiros, nesse tempo carregado de graves tensões, devaneios governamentais e primeiros rebuliços políticos pré-eleitorais.

Vito Mancuso é um reconhecido escritor italiano, doutor em teologia, que iniciou sua carreira como professor de Teologia Moderna e Contemporânea na Universidade San Raffaele de Milão, e, em seguida, foi professor de História das Doutrinas Teológicas na Universidade de Pádua. Logo tornou-se um dos escritores mais lidos na sua área de conhecimento, pela sua abordagem sobre o sentimento humano como o amor, o ódio e o desejo, com uma linguagem clara e contemporânea, e, certamente, por colocar-se contra a corrente teológica tradicional. Em 2014, a Editora Paulinas publicou o seu livro: “Eu e Deus: um guia para os perplexos”, em português. 

A tradução original do artigo é de Moisés Sbardelotto, para o portal IHU-Usininus. Para os leitores deste blog, tomamos a liberdade de fazer pequenos ajustes na tradução, a partir do texto original italiano.  Segue o artigo.

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