Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

MORADORES DE RUA - "É PRECISO TER CORAGEM PARA AMÁ-LOS", DIZ PADRE LANCELOTTI

12 de outubro de 2021


                    

De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), “as estimativas do número de pessoas em situação de rua no Brasil, em março de 2020, era de cerca 221.869. Hoje, levando-se em conta a expansão da pandemia no Brasil, esse número deve ter aumentado de forma significativa.”1 A revista Exame publicou, em 31.01.2020, os seguintes dados da Agência Brasil: “a população de rua em São Paulo aumentou 53% em 4 anos, e chegou a 24 mil pessoas. Dessas, 11,7 pessoas dormiam em abrigos e 12,6 mil estavam em calçadas ou sob viadutos.1

Recentemente o Padre Júlio Lancelotti - que, em São Paulo, é uma presença ativa e comprometida com os moradores de rua - lançou o livro Amor à maneira de Deus, pela Editora Planeta. Num artigo sobre esse livro, o teólogo vicentino Eliseu Wisniewski, cita a opinião da deputada federal Luiza Erundina, a qual diz que Lancelotti é “um profeta do amor nos tempos modernos”. E afirma: “o testemunho de vida de Padre Júlio”, no seu livro, “é um alento nos tempos difíceis que enfrentamos”. O escritor e teólogo Leonardo Boff o qualifica como um pastor no seguimento do Bom Samaritano: cuida com desvelo daqueles que são esquecidos por um sistema perverso, que deixa milhares de pessoas caídas no caminho, doentes, famintas e abandonadas.” Boff enfatiza que Lancelotti “sabe que abraçando um empobrecido está abraçando o Cristo que nele se esconde”.2

Segundo Eliseu Wisniewski, no seu livro, Lancelotti - que leva em consideração a trajetória de sua vida pessoal e ministerial -,  deixa claro que “o Senhor não nos pede grandes discursos sobre o amor. Nem grandes espetáculos de amor. O amor se demonstra no pequeno gesto e se encontra no pequenino que estende a mão para recebê-lo”. Não se trata, portanto, de discorrer sobre o amor, mas vivenciá-lo e testemunhá-lo. Assim em meio às reflexões encontraremos “algumas histórias pessoais que ilustram o amor à maneira de Deus. Não é um guia, é como eu tenho me posicionado em resposta a esse amor na minha história”. (p. 14).

Hoje, reproduzimos uma entrevista do padre Júlio Lancelotti, concedida ao IHU On-Linehá dez anos atrás. A atualidade da sua entrevista, está na transparência com que o autor do livro discorre sobre o sentido e a profundidade da sua visão humanista e espiritual, na sua incansável atividade em defesa daqueles que o papa Francisco chama “os descartados” da sociedade. Na ocasião da entrevista, Lancellotti  já destacava que “as políticas públicas elaboradas para transformar a condição de vida dos moradores de rua precisam fazer parte de um processo socioeducativo, pois não existe solução imediata, como internação compulsória, ações higienistas de limpeza da cidade," para resolver a questão. Segundo ele, a violência contra os moradores de rua tem se tornado comum e demonstra a "incompetência da sociedade, do Estado e das comunidades de acolher e dar um encaminhamento a essas pessoas". E reiterava: "Quem está na rua teve um caminho para chegar lá e agora precisa de um caminho para sair de lá com suas próprias pernas".

Por razões de espaço, fizemos alguns cortes na entrevista, sem que o sentido da mensagem fosse mudado. Boa leitura!

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 IHU On-Line – O que leva as pessoas a se tornarem moradoras de rua?

Júlio Lancellotti  As causas não são fáceis de serem conhecidas e não há uma única causa. Cada pessoa é um mistério que precisamos conhecer. Só vamos conhecer uma pessoa quando convivermos com ela. Se as pessoas não convivem com o morador de rua, não é possível saber a causa que o levou a morar na rua. Ao conhecer as pessoas, percebemos que elas passaram a morar na rua porque tiveram perdas sucessivas, frustrações, desilusões muito fortes, situações econômicas difíceis, e até problemas de saúde mental, ou seja, uma série de situações que desumaniza a vida. A vida fica tão desumanizada que as pessoas acabam abandonadas. Para os moradores de rua, o fato de estar na rua significa que ninguém quis conviver com eles, ninguém soube socorrê-los e, portanto, estão expostos para que todos os vejam.

IHU On-Line – Por que muitas vezes os moradores de rua são agredidos e como eles reagem? Quais são as razões dessa violência e por que esses casos são abordados de maneira sutil pela mídia brasileira?

Júlio Lancellotti –A questão das drogas é um dilema: a pessoa usa drogas porque está na rua ou está na rua porque usa drogas? Essa é uma equação que ainda não podemos afirmar com clareza: as duas respostas são possíveis. Muitas vezes não há como sobreviver na rua sem ser envolvido pela questão das drogas. Em São Paulo, (2011) mais de 13 mil pessoas vivem em situação de rua, número que é mais elevado do que a população de muitos municípios brasileiros. Um levantamento recente fez uma contagem dos moradores de rua nas cidades com mais de 300 mil habitantes; viu-se que esse número pode elevar para mais de 30 mil moradores de rua, sem considerar São Paulo e cidades maiores, que têm um censo próprio. A articulação do movimento nacional da população em situação de rua, e outros grupos, conseguiu que, no próximo censo, o IBGE faça um censo da população de rua porque, até então, isso não era feito.

IHU On-Line –  É possível estimar quantas pessoas vivem nas ruas atualmente? É possível traçar um perfil dos moradores de rua do Brasil? O uso de drogas favorece a vida nas ruas?

Júlio Lancellotti – A população de rua vive no anonimato: ninguém se aproxima deles para saber qual é situação. Eles vivem uma situação de exposição absoluta. Pela sua fragilidade, às vezes são agredidas até de maneira letal. Hoje vivemos no Brasil uma epidemia de violência contra a população de rua. Parece que eles viraram o bode expiatório. Ao atingi-los, as pessoas pensam que estão fazendo um bem, tirando dos nossos olhos aquilo que nos incomoda. Atingir os moradores de rua é um ato que está se tornando comum, mas que demonstra a incompetência da sociedade, do Estado e das comunidades de acolher e dar um encaminhamento a essas pessoas. Há um higienismo embutido em nós, porque não queremos ver aqueles que nos questionam e demonstram o quanto somos frágeis. 

IHU On-Line – Quais são hoje as políticas públicas destinadas aos moradores de rua? Como o senhor avalia as políticas públicas para moradores de rua?

Júlio Lancellotti – Hoje, existe uma política pública nacional para a população em situação de rua. Essa política pública instituída pela presidência da República (Dilma Rousseff) deve ser seguida. O morador de rua é o elo mais frágil e mostra como nós ainda não somos capazes de chegar a todas as pessoas, e o quanto nós ainda temos que aprender com eles para construir conjuntamente as respostas que dignifiquem as suas vidas. Essa política pública prevê uma ação intersetorial, ligando a questão da saúde, do trabalho, moradia, educação, e do acolhimento destas pessoas. Hoje existe o Centro de Atenção Especial de Assistência Social – CREAS, que atende pessoas em situação de rua. As cidades de menor porte têm mais possibilidades de atender a essas pessoas, devido às políticas de assistência social, moradia, aluguel social, repúblicas terapêuticas, trabalhos ligados à saúde mental. Também há possibilidade mais fácil em acolher essas pessoas em pequenos grupos, de ter atividades produtivas, frentes de trabalho, cotas de trabalho para que elas sejam empregadas, etc. Esse é um trabalho que já está com suas diretrizes estabelecidas nesta política nacional da população de rua e precisa ser assumida pelos estados e municípios.

IHU On-Line – Quais as maiores dificuldades enfrentadas pelos moradores de rua?

Júlio Lancellotti – O desprezo, a invisibilidade, o não serem levados em conta, a indiferença, a ausência de políticas públicas que não os tenham como clientes, como pessoas titulares de direitos que devem ser respeitados. Falta um trabalho para lidar com essa questão como um processo socioeducativo. Não existe solução imediata como internação compulsória, ações higienistas de limpeza da cidade. É preciso trabalhar com eles, formar comunidades. O que existe é uma vontade muito rápida de resolver o problema, não levando em conta que quem está na rua teve um caminho para chegar lá e agora precisa de um caminho para sair de lá com suas próprias pernas.

IHU On-Line – Como o senhor vê o contraste existente entre vários prédios públicos e privados abandonados e o alto índice de moradores de rua? O que dificulta a habitação desses locais?

Júlio Lancellotti Poderia haver locação social e a inclusão da população de rua em programas habitacionais. É um escândalo ter prédios públicos e privados abandonados. Isso atenta aos direitos fundamentais da pessoa humana: toda a pessoa precisa ter um local para viver, um local para descansar, para fazer sua alimentação, para viver a sua vida. Ter prédios vazios só serve para especulação imobiliária.

 IHU On-Line – Qual é o conceito de dignidade que os moradores de rua têm?

Júlio Lancellotti  Eles não querem ser humilhados; querem ser tratados com dignidade. Precisam de alguém que seja capaz de lhes dar a mão e olhar nos olhos, saber o seu nome, estar ao seu lado. Precisam ter um lugar digno para deitar e descansar o corpo, ter uma assistência que cuide de suas feridas e dos sofrimentos, que saiba que eles também têm sonhos e pesadelos, que eles também dançam e festejam, buscam companhia, que converse com eles sem ter pressa, sem estar preenchendo apenas uma ficha. De alguém que olhe para eles e os vejam como seres humanos e não uma coisa, um objeto ou um número.

IHU On-Line – O que os moradores de rua lhe ensinaram nesse tempo de caminhada? Na sua experiência de vida, o que mais aprendeu com eles?

Júlio Lancellotti – Muitas coisas, entre elas, que ninguém está livre de viver esta situação. Há pessoas das mais diferentes classes sociais que estão pelas ruas das cidades do Brasil. Eles nos ensinam a ser mais humildes, a viver do essencial, a não buscar o supérfluo e nem a acumulação. Eles ensinam que o pão dividido tem gosto de amor. O morador de rua não pode ser tratado como lixo. Deve ser tratado como pessoa, ter a sua dignidade respeitada. É preciso ter coragem para amá-los.

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Fontes da postagem:

Entrevista - http://www.ihu.unisinos.br/173-noticias/noticias-2011/504712-moradores-de-rua-e-preciso-ter-coragem-para-ama-los-entrevista-especial-com-julio-lancellotti

1.Estatísticas: https://exame.com/brasil/populacao-de-rua-em-sp-aumenta-53-em-4-anos-e-chega-a-24-mil-pessoas/

2. Artigo de Eliseu Wisniewski sobre livro de Lancelotti, em 28.09.2021: http://www.ihu.unisinos.br/613202-amor-a-maneira-de-deus

Créditos das imagens

1. Imagem de abertura - www.viomaundo.com.br.jpg

2. Capa do livro "Amor à maneira de Deus", de Júlio Lancelotti. Foto:Ed.Planeta.

3. Lancelotti com moradores de ruawww.catracalivre.com.br.jpg

4. O trabalho de Lancelotti durante a pandemia - www.El país.com.br,jpg.

5. Lancelotti quebra a marretadas os blocos colocados sob um viaduto de São Paulo para impedir que os  moradores de rua se abrigassem no local. g1.globo.com.br.jpg

6. Foto de Júlio Lancelotti - Univesp.jpg


Júlio Lancellotti é sacerdote, pedagogo, e coordenador da Pastoral do Povo de Rua na cidade de São Paulo. Pároco da paróquia de São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, Zona Leste de São Paulo, Lancelotti é referência nacional na defesa dos Direitos Humanos e dedica-se, há mais de trinta anos, à assistência à população marginalizada. Participou da fundação da Pastoral da Criança e na formulação do Estatuto da Criança do Adolescente (ECA). Tem atuado fortemente junto a menores infratores, detentos em liberdade assistida, pessoas carentes e em situação de rua, imigrantes sem-teto e refugiados. Em 2020, ganhou o 7º Prêmio Dom Paulo Evaristo Arns, de Direitos Humanos, pela Prefeitura da cidade de São Paulo, e o 17º Prêmio USP de Direitos Humanos, na categoria individual.

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