Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

LIÇÃO DE CIDADANIA

25 de maio de 2016


O dia apenas iniciava. A manhã  se derramava sobre a cidade e os trabalhadores caminhavam em direção às avenidas para pegar o seu transporte diário.  O sol era convidativo, e o vento do rio arejava minha varanda, no alto de um edifício entre os muitos arranha-céus levantados ao longo do Capibaribe. Fiquei a observar os que passavam, ainda se tomando ânimo para a retomada do cotidiano viver.


Chamou-me a atenção um jovem homem de roupas aparentemente limpas, a camisa de um time de futebol local e os sapatos tipo “conga”. Tinha, ao lado, uma carroça de mão. Buscava latas vazias numa caçamba pública de lixo exclusivo para restos de construção. 

Ele sabia que nessas caçambas os condomínios também derramam latas e garrafas misturadas aos restos de alimentos. Atravessava a rua, pegava as latas e as jogava na carroça, com a ligeireza de quem adquirira habilidade para essa  colheita matinal, que precede o caminhão de lixo. Talvez fosse apenas um de seus rituais, ao longo de um percurso que garantia o seu ganha-pão.


Resolvi acompanhar os seus gestos, em busca de entender o ofício de um catador especializado nas sobras de um fim-de-semana da classe média, que ainda acordava... Ele ia e vinha do depósito de lixo à sua carroça, a transportar papeis e latas entre os braços miúdos.

Continuei a observá-lo: alguns papelões caíam por terra, mas o catador se agachou, pegou-os novamente e jogou-os na carroça. Um pequeno retalho de papel restara caído no chão. O homem, numa reação espontânea, chutou-o para o canto da calçada e lá se ia em retirada. Mas, alguma coisa o fez largar o seu carrinho e voltar. Abaixou-se, pegou o troço com dificuldade e, decidido, passou um olhar curioso pelos cantos da calçada, ainda catando alguns restos do descuido alheio, até que viu tudo limpo. E se foi, empurrando o seu carrinho, até que eu não lhe pude mais ver. 

Deu-me vontade de descer, correr-lhe atrás para agradecer a oportunidade rara de observar um cidadão consciente. Um profissional cidadão. Daria um vídeo de primeira, uma comunicação em grande estilo, a ser mostrado nas ruas, e especialmente nas telas de todos os jornais nacionais. 

Nem seria preciso falar do que é “cidadania”, nem sobre a responsabilidade que temos de proteger o planeta, na esperança de ainda salvar os nossos filhos e netos da irresponsabilidade de tantos descuidos com a Mãe Terra, não apenas nas ruas, mas dentro de casa também. 

Quantas vezes se deixa a torneira a pingar, largam-se papéis e restos de comidas junto a plásticos e vidros, com a ideia de que "há quem é pago pra cuidar dessas coisas", não é precisa se dar ao trabalho de separar. Deixa-se sempre a responsabilidade social por conta do outro, "tenho coisas mais importantes a fazer"... "pago um imposto caro para a prefeitura fazer isso".

Aquele jovem da carroça me falou claro e bonito sobre o grande aprendizado da  responsabilidade social, tanto  quanto outras pessoas que admiro pelo interesse que têm pelo Meio Ambiente, como é o caso do incansável Leonardo Boff, e do papa Francisco, que escreveu sua primeira encíclica sobre o assunto.  

Não importa se são os mais importantes ou os mais simples da sociedade que nos dão essas lições, mas os que vivem do lado alijado da sociedade, esses nos falam mais bonito com os seus gestos e o seu fazer - como o jovem cidadão das ruas madrugadas do Recife, que me deu a lição maior, e nem sequem falou, nem percebeu que me deu uma grande lição! 

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