Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

BRASIL - ALTERNATIVA AINDA NÃO ENSAIADA

5 de abril de 2016

 

Mas uma vez reproduzo aqui um artigo de Leonardo Boff, de quem não carece apresentação. Desta vez Boff nos traz ideias de uma alternativa a ser oportunamente ensaiada: "formular outro pacto social, via uma constituição ecológico-social, fruto de uma constituinte exclusiva, uma reforma política radical, uma reforma agrária e urbana consistentes e a implantação de um novo design de educação e de serviços de saúde". 

Uma tarefa histórica a cumprir para nós, para nossos descendentes e para a própria humanidade.

 


Leonardo Boff (*)



Há   uma   discussão    pelo   mundo   afora   sobre   a  sociedade do cansaço”. 
Seu formulador principal é um coreano  que  ensina filosofia  em  Berlim,  Byung-Chul Han,  cujo  livro com o  mesmo  título  acaba  de  ser lançado  no  Brasil (Vozes 2015). O  pensamento  nem sempre  é  claro e, por vezes, discutível, como  quando se afirma  que  o “cansaço fundamental”  é dotado de uma capacidade especial  de  “inspirar e fazer surgir o espírito” (cf. Byung-Chul Han, p. 73).

Independentemente das teorizações, vivemos numa sociedade do cansaço. No Brasil, além do cansaço sofremos um desânimo e um abatimento atroz.

Consideremos, em primeiro lugar, a sociedade do cansaço. Efetivamente, a aceleração do processo histórico e a multiplicação de sons, de mensagens, o exagero de estímulos de comunicações, de modo especial pelo marketing comercial, pelos celulares com todos os seus aplicativos, e pela superinformação que nos chega pelas mídias sociais, produzem, dizem alguns autores, doenças neuronais: causam depressão, dificuldade de atenção e uma síndrome de hiperatividade. Efetivamente, chegamos ao fim do dia estressados e desvitalizados. Nem dormimos direito, desmaiamos.



Acresce ainda o ritmo do produtivismo neoliberal que se está impondo aos trabalhadores no mundo inteiro.   Especialmente  o  estilo  norte-americano, que cobra, de todos, o maior desempenho possível. Isso é regra geral também entre nós. Tal cobrança desequilibra emocionalmente as pessoas, gerando irritabilidade e ansiedade permanente. O número de suicídios é assustador. Ressuscitou-se o dito da revolução de 68 do século passado, agora radicalizado. Então se dizia: “metrô, trabalho, cama”. Agora se diz: “metrô, trabalho, túmulo”. Quer dizer: doenças letais, perda do sentido de vida e verdadeiros infartos psíquicos.

Detenhamo-nos no Brasil. Entre nós, nos últimos meses, grassa um desalento generalizado. A campanha eleitoral foi turbinada com grande virulência verbal, acusações, deformações e reais mentiras, e o fato de a vitória do PT não ter sido aceita, suscitou ânimos de vendeta por parte das oposições. Bandeiras sagradas do PT foram traídas pela corrupção em altíssimo grau, gerando decepção profunda. Tal fato fez perder costumes civilizados. 

A linguagem se canibalizou. Saiu do armário o preconceito contra os nordestinos e a desqualificação da população negra. Somos cordiais também no sentido negativo, dado por Sergio Buarque de Holanda: podemos agir a partir do coração cheio de raiva, de ódio e de preconceitos. Tal situação se agravou com a ameaça de impeachment da Presidenta Dilma, por razões discutíveis.


Descobrimos um fato, não uma teoria, de que entre nós vigora uma verdadeira luta de classes. Os interesses das classes abastadas são antagônicos aos das classes empobrecidas. 

Aquelas, historicamente hegemônicas, temem a inclusão dos pobres e a ascensão de outros setores da sociedade que vieram a ocupar o lugar antes reservado apenas para elas. 

Importa reconhecer que somos um dos países mais desiguais do mundo, vale dizer, onde mais campeiam injustiças sociais, violência banalizada e assassinatos sem conta, que equivalem em número à guerra do Iraque. Temos ainda centenas de trabalhadores vivendo sob uma condição equivalente à escravidão. Grande parte desses malfeitores se professa cristãos: cristãos martirizando outros cristãos, o que faz do cristianismo não uma fé, mas apenas uma crença cultural, uma irrisão e uma verdadeira blasfêmia.

Como sair deste inferno humano? A nossa democracia é apenas de voto, não representa o povo, mas os interesses dos que financiaram as campanhas, por isso é de fachada ou, no máximo, de baixíssima intensidade. De cima não se há de esperar nada, pois entre nós se consolidou um capitalismo selvagem e globalmente articulado, o que aborta qualquer correlação de forças entre as classes.

Vejo uma saída possível, a partir de outro lugar social, daqueles que vêm de baixo, da sociedade organizada e dos movimentos sociais que possuem outro ethos e outro sonho de Brasil e de mundo. Mas eles precisam estudar, se organizar, pressionar as classes dominantes e o Estado patrimonialista, se preparar para, eventualmente, propor uma alternativa de sociedade ainda não ensaiada mas que possui raízes naqueles que no passado lutaram por um outro Brasil, e com projeto próprio. 



A partir daí formular outro pacto social via uma constituição ecológico-social, fruto de uma constituinte exclusiva, uma reforma política radical, uma reforma agrária e urbana consistentes e a implantação de um novo design de educação e de serviços de saúde. Um povo doente e ignorante nunca fundará uma nova e possível bio-civilização nos trópicos. 


Tal sonho pode  nos  tirar do cansaço e  do desamparo social  e  nos devolver o ânimo necessário para enfrentar os entraves dos conservadores e suscitar a esperança bem fundada de que nada está totalmente perdido, mas que temos uma tarefa histórica a cumprir para nós, para nossos descendentes e para a própria humanidade. 

Utopia? Sim. Como dizia Oscar Wilde: “se no nosso mapa não constar a utopia, nem olhemos para ele, porque nos está escondendo o principal”. Do caos presente deverá sair algo bom e esperançador, pois esta é a lição que o processo cosmogênico nos deu no passado e nos está dando no presente. Em vez da cultura do cansaço e do abatimento teremos uma cultura da esperança e da alegria.

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(*) Artigo publicado no site: leonardoboff.wordpress.com  em 05/01/2016.

Leonardo Boff é teólogo, escritor, colunista do JB on line, e escreve em vários idiomas no seu blog: leonardoboff.wordpress.com

Créditos das imagens

1. "Painel Abelardo da Hora - Recife-PE
2.  Sociedade do Cansaço" - www.editorasaraiva.com.br
3. Pessoas reunidas, separadas pelo celular - www.canstockphoto.com.br
4. Resiste Estelita - Manifestação social no Recife - divulgação.
5. Painel Brennand - Aeroporto do Recife - PE - imagem deste blog.


Nota:  As  imagens  publicadas  neste  blog  pertencem  aos   seus autores.  Se alguém possui os direitos de uma destas, e deseja que   seja  removida  deste  espaço,  por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com











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