Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

POR QUE AS CRIANÇAS SOFREM?

23 de dezembro de 2015

Nesse tempo de Natal, trago ao Espaço Poese dois olhares – que, na verdade, se encontram – para nos falar do Natal, essa festividade que nos convida a profundas reflexões. Um deles, já é “de casa” neste espaço,  nosso irmão maior, teólogo, ecologista e escritor, Leonardo Boff
O outro é Mario Sergio Conti, jornalista, apresentador de TV e escritor. 




N A T A L

· Leonardo Boff - 23/12/2015
                                                            Sempre que nasce uma criança
                                                                       é sinal de que Deus
                                                              ainda acredita no ser  humano.                                                                                       

Estamos na época de Natal, mas a aura não é natalina, é antes de sexta-feira santa. Tantas são as crises, os atentados terroristas, as guerras que, juntas, as potências belicistas e militaristas (USA, França, Inglaterra, Russa e Alemanha) conduzem contra o Estado Islâmico, destruindo praticamente a Síria com uma espantosa mortandade de civis e  de  crianças, como a própria imprensa  tem mostrado, a atmosfera contaminada  por  rancores  e  espírito  de  vindita  na política brasileira,  sem falar dos níveis astronômicos de corrupção: tudo  isso apaga as luzes natalinas, e amortecem os pinheirinhos que deveriam criar uma atmosfera de alegria e da inocência infantil que ainda persiste em cada pessoa humana.



Quem pôde assistir o filme Crianças Invisíveis, em sete cenas diferentes dirigido por diretores renomados como Spike Lee, Katia Lund, John Woo entre outros, pode se dar conta da vida destruída de crianças, de várias partes do mundo, condenadas a viver do lixo e no lixo; e ainda assim há cenas comovedoras de camaradagem, de pequenas alegrias nos olhos tristes e de solidariedade entre elas.


E pensar que são milhões hoje no mundo, e que o próprio menino Jesus, segundo os textos bíblicos, nasceu fora de casa, numa mangedoura de animais, porque não havia lugar para Maria, em serviço de parto, em nenhuma estalagem de Belém. Ele se misturou com o destino de todas estas crianças maltratadas pela nossa insensibilidade.

Mais tarde, esse mesmo Jesus, já adulto, dirá: ”Quem receber esses meus irmãos e irmãs menores é a mim que recebe”. O Natal se realiza quando ocorre esse acolhimento, como aquele que o Padre Lancelotti organiza em São Paulo, para centenas de crianças de rua, sob um viaduto, e que contou, por anos, com a presença do Presidente Lula.

No meio desta desgraceira toda, no mundo e no Brasil, me vem à mente o pedaço de madeira com uma inscrição em pirografia, que um internado num hospital psiquiátrico em Minas Gerais me entregou, por ocasião de uma visita que fiz por lá para animar os atendentes. Lá estava escrito: ”Sempre que nasce uma criança é sinal de que Deus ainda acredita no ser humano”.

Poderá haver ato de fé e de esperança maior que este?



O Natal deste ano nos remete a essa humanidade ofendida e a todas as crianças invisíveis cujos padecimentos são como os do menino Jesus que, certamente, no severo inverno dos campos de Belém, tiritava na mangedoura. Segundo lenda antiga, foi aquecido pelo bafo de dois velhos cavalos que como prêmio ganharam, depois, plena vitalidade.


Vale lembrar o significado religioso do Natal: Deus não é um velho barbudo, de olhos penetrantes e juiz implacável de todos os nossos atos. É uma criança. E como criança não julga ninguém. Quer apenas conviver e ser acarinhado. Da mengedoura nos vem esta voz: ”Oh, criatura humana, não tenhas medo de Deus. Não vês que a sua mãe enfaixou seus bracinhos? Ele não ameaça ninguém. Mais que ajudar, ele precisa ser ajudado e carregado no colo”.

Ninguém melhor que Fernando Pessoa entendeu o significado humano e verdadeiro do menino Jesus: ”Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava. Ele é humano que é natural. Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda certeza que ele é o Menino Jesus verdadeiro. É a criança tão humana que é divina. Damo-nos tão bem um com o outro, na companhia de tudo, que nunca pensamos um no outro… Quando eu morrer, filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno. Pega-me tu ao colo e leva-me para dentro de tua casa. Despe o meu ser cansado e humano. E deita-me na cama. E conta-me histórias, caso eu acorde, para eu tornar a adormecer. E dá-me sonhos teus para eu brincar até que nasça qualquer dia que tu sabes qual é”.

Dá para conter a emoção diante de tanta beleza? Por causa disso, vale ainda, apesar dos pesares, celebrar discretamente o Natal.


Por fim, tem alto significado esta última mensagem singela encantadora: "Todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser ‘deus’. Só Deus quis ser menino”.
Abracemo-nos mutuamente, como quem abraça a Criança divina (o puer aeternus) que se esconde em nós e que nunca nos abandonou.
E que o Natal seja ainda uma festa discretamente feliz.

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Aos que desejarem ouvir o "Canto de Natal" de Manuel Bandeira, podem acessar :


https://www.youtube.com/watch?v=fQVSJf7WDbw



O Natal de Stedile

Mario Sergio Conte
22/12/2015

Há muitas formas de se falar do Natal. A maioria se prende ao ideário religioso e cristão. Mas há também formas seculares e poéticas como fez Manuel Bandeira em seu comovedor “Canto de Natal”, e de forma, a meu ver insuperável, por Fernando Pessoa. Agora temos a reflexão política, surpreendente do jornalista e entrevistador de televisão Mario Sergio Conti. De modo secular, ele nos comunica a mensagem de Natal que tem inspirado uma das lideranças mais combativas que é João Pedro Stédile, do MST (Movimento dos Sem Terra). Vale seguir seu raciocínio estimulante. (Lboff)
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Quando menos se espera, o Natal está aí: calorão, filas, tempestades, engarrafamentos, dinheiro curto, sofreguidão de última hora para comprar presentes. Ainda assim, o Natal é um convite à pausa, à reflexão.
Como o ano foi de tumulto, de luta acre no Parlamento e fora dele, de ações espetaculosas da Lava Jato, de xilindró cheio de nababos em Curitiba, a meditação é política.
É tempo também de reflexão religiosa, porque a fé fere cada vez mais o coração da política. As labaredas da jihad, as matanças na França, no Líbano, no Iêmen, no Egito e na Tunísia, fizeram terror e islã fermentar num mesmo caldeirão.
Distante do belicismo redivivo das Cruzadas, nem por isso o Brasil está infenso ao sagrado. Aqui, é a vaga evangélica que transtorna a política. Tanto que Eduardo Cunha, um pentecostal que exala enxofre ao ouvir falar de aborto e casamento gay, quis impor sua dúbia carolice à nação laica.
O Brasil é o país que abriga o maior rebanho católico do mundo. Entre eles está João Pedro Stedile, dirigente do Movimento dos Sem Terra. Ele é primo de Dom Orlando Dotti, bispo de Vacaria, no Rio Grande do Sul, e de vários frades capuchinhos. Os primos párocos marcaram a sua formação franciscana, que considera “mais atual do que nunca”.
Stedile sustenta que o líder religioso da hora, o papa Francisco, “tem um comportamento revolucionário”. O pontífice, disse ele no intervalo de uma peregrinação pelo interior paulista, “teve uma experiência política no peronismo, é um nacionalista que defende os pobres e é contra o abuso do capital”.
Para ele, a encíclica papal sobre o meio ambiente “é uma obra histórica maior do que dez COP21, a conferência da ONU sobre o clima, que não serviu para nada”.
O MST se atualizou na teoria e na prática nos últimos anos. O movimento, diz Stedile, é contra a “reforma agrária burra”, que só se preocupa com a divisão dos latifúndios. Advoga que a agricultura produza alimentos saudáveis para o povo, em vez de exportar commodities. Prega a “agroecologia”, técnicas de cultivo que não vitimem a natureza.
Ele também se insurgiu contra o machismo, disseminado no meio rural, inclusive no MST. O movimento conseguiu que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, o Incra, passasse a entregar títulos de propriedade a casais de sem-terra gays.
Neste Natal, Stedile vê o Brasil numa encruzilhada política, econômica, social e ambiental. A destituição de Dilma Rousseff veio para o primeiro plano: “a pequena burguesia reacionária das grandes cidades quer o impeachment, mas ele não resolve as dificuldades nem representa uma saída para as massas”.
Economista, Stedile não acredita em Papai Noel. Vaticina que “a crise será longa porque, para sair dela, precisamos de um projeto que unifique a maioria das forças sociais. E nenhuma força está conseguindo isso”.
A sua esperança natalina é matizada: “Toda crise é positiva, por obrigar a mudanças. Elas podem demorar, mas virão, e espero que sejam a favor do povo. Serão anos de luta”.
Com prenome dos apóstolos João e Pedro, Stedile parece se nortear pelo Cristo do evangelho de Mateus, aquele que disse: “Não vim trazer paz, mas a espada” (10, 34). Ele nasceu no mesmo dia do Nazareno; fará 62 anos na sexta-feira.
Um feliz Natal a todos.
In: www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/2015/12/1721915-o-natal-de-stedile.shtml
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Crédito das imagens:


1 - Criança é atingida por bombardeio na Síria. www.noticias.uol.com.br/album
2 - Menina com véu - imagem divulgação do filme: "Crianças Invisíveis".
3 - Francisco em Manila (2014), com crianças - www..ihu.usininos.br
4 - Crianças africanas casadas e com filhos - www.eltiempo.com
5 - Mangedoura do Natal do Menino Jesus - arquivo do Espaço Poese
6 - Crianças africanas que vivem a filosofia Ubuntu - divulgação
7 - João Pedro Stedile, entrevista  - www.dercio.com.br
8 - João Pedro Stedile com Papa Francisco - Osservatore Romano
9 - João Pedro Stedile conferencista -  www.consultapopular.org.br


Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens, e deseja que ela seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: 
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