Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

ENTRE NO CLIMA - COP-21 - PARIS

24 de novembro de 2015


De acordo com a imprensa, 138 chefes de Estado confirmaram presença para a  Conferência sobre Mudança Climática, promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU) - a ser realizada em Paris, no período de 30 de novembro até 11 de dezembro de 2015.  

Reproduzimos aqui, trechos de uma importante análise de advertência a todos os habitantes da Mãe Terra: 

Esta próxima Conferência (COP 21), que se dará em Paris, ainda conseguirá evitar o caos no planeta? 

O texto é de Michael T. Klare | Traduzido por: Inês Castilho

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Convido o leitor a ler com interesse a informação que segue. A situação é, sem dúvida, de muita gravidade, e já está a nos atingir no Brasil, um povo que ainda observa graves situações de conflitos com seus povos indígenas, e que está igualmente envolvido nas questões do clima (na seca, nas enchentes, na escassez de água cada vez mais grave e, também, nos criminosos descuidos poluidores de rios e mares.

A Inês Cartilho, tradutora do excelente texto aqui publicado, peço licença para tentar torná-lo mais compreensível, já que muitos não estamos habituados às questões específicas das Conferências sobre o Clima. 
                                                                        
(Os grifos no texto são nossos).
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No final de novembro, delegações e líderes de cerca 200 países  irão se reunir em Paris, para o que se espera ser o mais importante encontro sobre clima, como nunca antes realizado.

Oficialmente conhecida como a 21a Conferência das Partes (COP-21) da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, esse evento terá o seu foco na adoção de medidas capazes de limitar o aquecimento global a níveis abaixo dos catastróficos. 

Se a adoção de tais medidas falharem, é provável que nas próximas décadas as temperaturas mundiais excedam 2ºC, montante máximo que, de acordo com  a maioria dos cientistas, a Terra pode suportar sem experimentar choques climáticos irreversíveis – entre eles, a disparada das temperaturas e o aumento substancial do nível dos oceanos.

O fracasso em deter as emissões de carbono levaria a outro provável resultado, até hoje menos debatido: trata-se da produção, a longo prazo, não apenas de impactos no clima, mas de instabilidade social, insurreição e guerra no mundo todo.

É neste sentido que a COP-21 pode ser considerada não apenas uma cúpula dos povos sobre o clima mas, uma conferência de paztalvez a convocação pela paz mais significativa da História.

Para entender a importância desse evento, convém considerar as últimas descobertas científicas sobre os prováveis impactos do aquecimento global, em especial o relatório de 2014 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Logo que foi publicado, o relatório atraiu a cobertura da mídia do mundo todo, ao prever que as mudanças climáticas descontroladas resultarão em graves secas, tempestades intensas, ondas opressivas de calor, quebras de safra recorrentes, e inundações das regiões costeiras, acarretando mortes e privações generalizadas. Recentemente se pode observar a seca que castiga a Califórnia (e também o Brasil), e as ondas de calor dramáticas na Europa e na Ásia, que têm concentrado atenção precisamente por seus impactos.

O relatório do IPCC ainda sugere que o aquecimento global terá impactos devastadores – de natureza social e política – incluindo declínio econômico, colapso de Estados, conflitos civis, migrações em massa e, mais cedo ou mais tarde, guerras por recursos. (...)

Aquecimento, escassez de recursos, guerras civis

(...) Sabe-se que os recursos necessários à vida são distribuídos de modo desigual pelo planeta. Não é raro que o abismo entre os que têm acesso a esses recursos e os que estão privados deles provoque divisões de longo prazo em torno de questões raciais, étnicas, religiosas e linguísticas. Entre israelenses e palestinos, por exemplo, há um abismo nas condições de acesso à terra e à água. O estresse das mudanças climáticas, em tais situações, poderá exasperar o aguçamento das tensões já existentes.

(...) Sob a pressão de temperaturas crescentes e secas cada vez mais intensas, a margem sul do deserto do Saara – cujas pastagens hoje sustentam pastores nômades – está se transformando num território vazio, o que força as populações locais a abandonar suas terras ancestrais. Muitos territórios na África, na Ásia e no Oriente Médio terão destino semelhante. Rios que antes corriam o ano todo fluirão apenas esporadicamente ou secarão de todo, deixando às populações um destino áspero e doloroso.

Como aponta o relatório do IPCC, as instituições estatais – que em geral são mais frágeis – sofrerão enorme pressão para ajustar-se às mudanças climáticas e socorrer populações necessitadas de alimento, de moradia e de outras carências emergenciais. Diz o reltório: O aumento da insegurança humana pode coincidir com o declínio da capacidade dos Estados de promover adaptações, o que criará circunstâncias que promoverão um maior potencial de conflitos violentos.”

Um bom exemplo desse risco é a explosão da guerra civil na Síria e o consequente colapso do país, submerso num turbilhão de guerras que produzem uma onda de refugiados nunca visto, desde a Segunda Guerra Mundial. Entre 2006 e 2010, a Síria viveu uma seca devastadora cujo principal fator, acredita-se, eram as mudanças climáticas. Quase 60% das terras do país foram transformadas em deserto. As colheitas foram perdidas, e a maior parte do gado morreu, projetando milhões de fazendeiros na penúria. Desesperados e incapazes de continuar vivendo em sua própria terra, eles se mudaram para as maiores cidades da Síria, em busca de trabalho, quase sempre a enfrentar adversidades extremas e hostilidade das elites urbanas. Se o presidente Bashar al-Assad tivesse respondido com um programa emergencial de emprego e moradia para os deslocados, talvez o conflito pudesse ter sido evitado. Ao invés disso, ele cortou subsídios para alimentos e combustível, o que agravou a miséria dos migrantes e acendeu a revolta. Na visão de vários acadêmicos destacados, “as periferias da Síria, em rápido crescimento, então marcadas por ocupações ilegais, superpopulação, ausência de infraestrutura, desemprego e crime, foram esquecidas pelo governo de Assad e tornaram-se o centro dos distúrbios.

Uma cena similar aconteceu na região do Sahel, na África, na franja sul do Saara, onde secas severas coincidiram com o declínio do habitat e a negligência dos governos locais, que provocou violência armada. A região enfrentou muitos desses períodos no passado, mas agora, com as mudanças climáticas, o intervalo entre as secas é menor – “de dez anos para apenas cinco“, como observa Robert Piper, coordenador humanitário regional das Nações Unidas para o Sahel. “Isso está submetendo a enorme estresse um ambiente já muito frágil, tornando a população altamente vulnerável.”

No Mali, uma das várias nações da região, os nômades Tuaregues têm sido afetados de modo particularmente duro, já que as pastagens de que dependem, para alimentar o seu gado, estão se transformando em deserto.

Os Tuaregues são uma população muçulmana de idioma berbere, que há muito enfrenta muitas hostilidades do governo central de Bamako – antes controlado pelos franceses e agora por africanos negros de fé cristã ou animista. Com seus costumes tradicionais em perigo, e pouca assistência da capital, os Tuaregues revoltaram-se (em janeiro de 2012), tomando metade do Mali, até serem empurrados de volta ao Saara pelos franceses e outras forças estrangeiras (com apoio logístico e de inteligência dos EUA).

Os que ocorreu na Síria e no Mali são antevisões do que é provável acontecer, ainda neste século, em escala muito maior. À medida que as mudanças climáticas se intensificam – provocando não apenas desertificação, mas a elevação do nível dos mares em áreas costeiras, e ondas de calor cada vez mais devastadoras em regiões já quentes – cada vez mais partes do planeta se tornarão menos habitáveis, levando milhões de pessoas à condição de fugas desesperadas.


Os governos mais fortes e ricos, especialmente nas regiões mais temperadas, estariam mais preparados para lidar com tais situações de estresse. Mas é provável que cresça dramaticamente o número de Estados falidos, o que levaria à violência e à guerra aberta pelo que restar de comida, de terra agricultável e de abrigos. O que nos leva a imaginar partes significativas do planeta nas condições em que se encontram hoje a Líbia, a Síria e o Iêmen. (...)

Os possíveis confrontos interestatais pela água

A maioria desses conflitos observados são de caráter interno e civil: seita contra seita, clã contra clã, tribo contra tribo. Contudo, num planeta em mudança climática, não se excluem situações de guerra entre nações, quando os recursos vitais entre eles estiverem mais reduzidos – e, de modo especial, o acesso à água. O aquecimento global chegará a reduzir o abastecimento hídrico em muitas regiões tropicais e subtropicais, comprometendo a agricultura, a saúde, o funcionamento das grandes cidades e, consequentemente, da sociedade.

O risco de “guerras pela água” surgirá sempre que dois ou mais países dependerem da mesma fonte chave de abastecimento. A constante diminuição das águas pode sugerir a oportunidade de um ou mais povos procurarem se apropriar de uma parte desproporcional do suprimento para si, em detrimento de outros,  como poderia acontecer com as populações à margem dos rios Nilo, Jordão, Eufrates, Indus, Mekong e de outros sistemas fluviais fronteiriços. 

(...) Tentativas anteriores – como, por exemplo, de países que construíram barragens ou desviaram o fluxo de água de tais sistemas, – já provocaram escaramuças e ameaças de guerra, como quando a Turquia e a Síria ergueram barragens no rio Eufrates, restringindo o fluxo rio abaixo, que deveria prover outras populações.

Um sistema fluvial que causa uma particular preocupação é o do Rio Brahmaputra, que tem origem na China (conhecido como Yarlung Tsangpo) e passa pela Índia e Bangladesh, antes de desaguar no Oceano Índico. A China já ergueu uma barragem na região e planeja fazer mais, o que produziu considerável mal-estar na Índia, onde as águas do Brahmaputra são vitais para a agricultura. Mas, o que provocou o maior alarme foi o conhecimento de um projeto chinês de canalizar água do Brahmaputra para áreas com escassez hídrica, no nordeste do país.

Os chineses insistem que esse seu projeto não é iminente, mas a intensificação do aquecimento e a seca crescente poderiam induzir a sua realização num futuro breve, pondo em risco o suprimento de água da Índia e, possivelmente, provocando conflitos. “A construção de barragens na China e a proposta de desvio das águas do Brahmaputra devem repercutir não apenas no fluxo das águas, na agricultura, na ecologia, na subsistência daqueles povos e na jusante do rio”, escreve Sudha Ramachandran no The Diplomat: “isto poderia tornar-se também uma nova questão contenciosa, minando as relações sino-indianas.”

Ao se considerar um futuro de estresse maior de povos em busca de água, espera-se que  nem sempre serão pvocoadas situações de um combate armado. É possível que os Estados envolvidos descubram como partilhar os limitados recursos hídricos restantes e, juntos, tentem resolver as situações em benefício de todos. Contudo, a tentação de empregar a força tende a crescer, à medida que o abastecimento for se reduzindo, fazendo com que se amplie a necessidade de medidas desesperadas.

Baixar a temperatura enquanto é tempo


Há, sem dúvida, muita coisa que poderia ser feita para reduzir o risco de conflitos por água — como, por exemplo, a adoção de esquemas cooperativos de gestão hídrica, a introdução do uso de irrigação por gotejamento e outros processos mais eficientes.

Mas, é importante que se comece a entender que a melhor maneira de evitar futuros conflitos relacionados ao clima, é reduzir o ritmo do aquecimento global. Cada  fração   de   grau  de   aquecimento a menos, alcançado nesta próxima Conferência de Paris, poderá significar, no futuro, uma menor possibilidade de prováveis conflitos.

Essa é a razão por que a próxima COP 21 é vista como uma espécie de conferência de paz preventiva. (...) Se os delegados desse evento forem bem sucedidos em criar um caminho que limite o aquecimento global a pelo menos 2ºC, o risco de violência no futuro seria reduzido. 

(...) Para se chegar a tal resultado, os delegados terão que lidar também com os conflitos em curso – entre eles os da Síria, do Iraque, do Iêmen e da Ucrânia –, em busca de  promover a cooperação de todos os interessados, para a concepção de medidas climáticas comuns e obrigatórias entre eles. Neste sentido, a cúpula de Paris poderá ser, também, uma conferência de paz. 

Pela primeira vez, as nações do mundo terão de dar um passo além das considerações dos interesses nacionais, para abraçar um objetivo maior: a segurança da ecosfera e de todos os seus habitantes, independentemente de identidade nacional, étnica, religiosa, racial ou linguística. Nunca foi tentado nada que se assemelhe a este momento, na área ambiental. Será, portanto, um exercício de pacificação do tipo mais essencial – antes que novas  guerras se alastrem entre povos tão sofridos.

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Michael T. Klare é professor de estudos sobre a paz e segurança mundial no College Hampshire e correspondente de defesa no The Nation.
  In:http://fmclimaticas.org.br/?p=2184

Crédito Imagens:

1. Mudanças Climáticas - www.canstockphoto.com.br

2. 21ª COP - mapa mundial - www.canstockphoto.com.br
3. Cuidados com a Mãe Terra - www.canstockphoto.com.br
4. Guerra na Síria - www.ultimosegundo.ig.com.br
5. Região Sahel - www.observer.val.pt
6. Cúpula do Clima - divulgação de anos passados
7. Região de grandes rios e a disputa pela água - www.trebriefing.info
8. Tuaregues nômades no Sul da Argélia - www.wikipedia.org 
9. Rio Brahmaputra - www.cinobrio.over.blog.es
10. A seca no Nordeste brasileiro - www.jconline.interatividade.NE10.uol.com.br
11. Manifestações pelo clima - foto divulgação
12. Pintura - Seca no sertão - www.tmpinturas,blogspot.com/imagens

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