Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

LITERATURA — EDUARDO GALEANO

6 de setembro de 2015

Aqui, no Espaço Poese, expresso apenas uma brisa da força e da leveza das ventanias que carregam as palavras deixadas por Eduardo Galeano, ele que aparentemente não mais está entre nós, mas continua estando. Uma presença mais que a centelha das "fogueirinhas" que ele inventou. No coração, e na coleção de seus livros que me convidam sempre a novos aprendizados, a grande mensagem que ele nos deixou de sua vida e de suas crenças.
                                                                   

                                                                                     
                                                                           LADRÕES DE PALAVRAS


De acordo com o dicionário contemporâneo, uma boa ação já não é o nobre gesto do coração, e sim a ação bem-cotada na Bolsa, e a Bolsa é o cenário onde acontecem as crises de "valores". 

O  mercado já não é aquele cálido local onde a gente compra frutas e verduras no bairro. Agora se chama Mercado um senhor terrível que não tem rosto, que diz ser eterno e nos vigia e nos castiga. Seus intérpretes avisam: O Mercado está nervoso, e avisam: Não se deve irritar o Mercado. Comunidade internacional é o nome dos grande banqueiros e dos chefes guerreiros. Seus planos de ajuda vendem salva-vidas de chumbo aos países que eles próprios afogam, e suas missões de paz pacificam os mortos.


Nos Estados Unidos, o Ministério de Ataques se chama Secretaria da Defesa, e são chamados de bombardeios humanitários seus dilúvios de mísseis contra o mundo. Num muro escrito por alguém, escrito por todos, leio: "Estou com dor até na voz." (i)

             

Na minha biblioteca, há um recanto especial para os livros desse expressivo escritor uruguaio - falecido em abril passado, aos 75 anos. Sua escrita, carregada de intensa poesia e vida, apresenta-nos - como fazem os artistas da gravura - pequenas e incisivas histórias da grande história do povo latino-americano.

Foi na segunda metade do século passado que Eduardo Galeano tornou-se mais conhecido no mundo literário, com "As Veias Abertas da América Latina, um livro ainda hoje atual, com um expressivo registro da história latino-americana. Trata-se de uma densa obra que "propõe um rigoroso inventário da história de um continente que deu ouro e prata, açúcar e diamantes, café, minerais estratégicos e vidas humanas aos colonizadores de plantão, recebendo em troca pouco mais que um subdesenvolvimento crônico e controlado", como escreveu Jorge Escorteguy, na revista "Veja", por ocasião do lançamento do livro, no Brasil. Em 1978, a editora Paz e Terra apresentava a sua 5ª edição. Naquele ano publicou, do mesmo autor, o romance: A Canção de Nossa Gente, em cuja abertura o autor cita um dizer de Van Gogh: "O moínho já não existe; o vento continua, todavia". 


Vieram muitos outros livros, todos de histórias miúdas, entrechadas entre si em delicada poesia de contemplação do cotidiano, com dizeres de mulheres e homens de múltiplas culturas, em seus jeitos diferentes de pensar, de escrever e de viver. A trilogia Memórias do Fogo: Nacimentos; As Caras e as Máscaras e O Século do Vento - são livros que falam da "geologia da alma americana", na opinião de Jorge Enrique Adoum, em "Nueva", Equador. (ii)

É assim, a editora Nova Fronteira apresenta o livro As Caras e as Máscaras:

"Em lugar  de uma exposição metódica, o autor vai traçando pequenas vinhetas em que descreve episódios e situações curiosas, valendo-se para isso da consulta a uma enorme bibliografia de 361 títulos, entre os quais estão autores como Machado de Assis, Antônio Vieira, Euclides da Cunha, Bolívar, Lautréamont, José Martí, Marx e Engels, entre muitos outros. As lutas pela libertação, o desbravamento do território, a escravidão, a dívida externa dos paises sul-americanos, são alguns do muitos temas focalizados nessa deliciosa crônica das Américas".(iii)



E é assim que o próprio Galeano, no "Livro dos Abraços", fala da escrita dessa trilogia: 

"Eu já estava há um bom tempo escrevendo Memórias de Fogo, e quanto mais escrevia mais fundo ia nas hitórias que contava. Começava a ser cada vez mais difícil distinguir o passado do presente: o que tinha sido estava sendo, e estava sendo à minha volta, e escrever é a minha maneira de bater e abraçar. Supõe-se, porém, que os livros de histórias não são subjetivos.

Comentei isso tudo com José Coronel Urtecho: neste livro que estou escrevendo, pelo avesso e pelo direito, na luz ou na contraluz, olhando do jeito que for, surgem à primeira vista minhas raivas e meus amores. E nas margens do rio San Juan, o velho poeta me disse que não se deve dar a menor importância aos fanáticos da objetividade: - Não se preocupe - me disse. É assim que deve ser. Os que fazem da objetividade uma religião, mentem. Eles não querem ser objetivos, mentira: querem ser objetos, para salvar-se da dor humana".(iv)



O seu livro "As Palavras Andantes" - publicado no Brasil pela LP&M, em 1994, traz ilustrações do excelente gravurista brasileiro J.Borges (de Bezerros, Nordeste do Brasil). Nas primeiras páginas há uma citação contundente de Caetano Veloso: "Visto de perto ninguém é normal".





O ar e o vento

Pelo caminho vou, como o burrico de São Fernando, um pouquinho a pé e outro pouquinho andando. Às vezes me reconheço nos demais. Me reconheço nos que ficarão, nos amigos abrigos, loucos lindos de justiça e bichos voadores de beleza e demais vadios e malcuidados que andam por aí e que por aí continuarão, como continuarão as estrelas da noite e as ondas do mar. Então, quando me reconheço neles, eu sou ar aprendendo a saber-me continuado no vento. Acho que foi Vallejo, César Vallejo, que disse que às vezes o vento muda o ar.



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Seguem as URL de duas entrevistas com o escritor. Há muitas outras, com seus comentários vibrantes, sinceros, cheios de palavras que caminham em busca de nós mesmos.


https://youtu.be/w8OUoc_xKc

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(i) Ladrões de Palavras, Eduardo Galeano in: Bocas do Tempo, Coleção LP&M Pocket, vol. 841, Tradução de Eric Nepomuceno -  Porto Alegre, 2010, p.254
(ii) Comentários copiados da segunda capa do livro: As Veias Abertas da América Latina, Ed. Paz e Terra, RJ, 1978. 
(iiiComentário, na segunda capa do livro: As Caras e as Máscaras - Ed. Nova Fronteira, 1985.
(iv) Celebração da subjetividade, Eduardo Galeano in: O Livro dos Abraços, Coleção LP&M Pocket, vol.465, Tradução de Eric Nepomuceno - Porto Alegre, 2005 (reimpressão em 2015), p.118.
(v) Janela sobre a memória (II) - Eduardo Galeano, in: As Palavras Andantes, tradução de Eric Nepomuceno - Porto Alegre, LP&M, 1994, p.96
(vi) O ar e o Vento - Eduardo Galeano in: O Livro dos Abraços, Coleção LP&M Pocket, vol. 465, Tradução de Eric Nepomuceno - Porto Alegre, 2005 (reimpressão em 2015), p.269.

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Créditos Imagens:

1. Eduardo Galeano ao microfone - www.aviagemdosargonautas.net
2. Eduardo Galeano - www.celebridades.uol.com.br
3. Fotos da capa de quatro livros - www.lp&m.com.br - divulgação
4. Eduardo Galeano - www.revistaforum.com.br
5. Velório Eduardo Galeano no Uruguay - Helena, sua mulher, com José Mujica - www.entretenemento.uol.com.br



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