Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

FILME — QUE HORAS ELA VOLTA?

21 de setembro de 2015



Tenho a convicção que a ética carece de um lastro de educação, não tanto aquela "ensinada" nas prescrições escolares ou na família, mas a educação do gesto cordial e do testemunho, em casa, na escola, no trabalho, nas instituições e nos serviços públicos e privados. 

Isto vem a propósito do lançamento do filme Que horas ela volta?’ da cineasta brasileira Anna Muylaert, de quem apresento trechos de uma entrevista aos jornalistas Claudia Rocha e Guilherme Weimann, reportada no site Brasil de Fato, em 18/09/2015.[1]

Fui verificar no telão esse filme que vem impactando críticos e cinófilos, quase todos de regozijo – entre alguns poucos desgostosos – pela exuberante sensibilidade da diretora de inserir-se na linha divisória do compromisso social, que atinge a inércia de muitos da classe alta brasileira.

É extremamente verdadeiro o comentário dos jornalistas citados, quando dizem que o filme coloca o dedo na ferida das relações entre empregados e patrões. Fiquei impressionada quando, no cinema do Plaza, em Recife, muitos espontaneamente bateram palmas de aprovação, ao terminar o filme.  


Fui assistir com a minha empregada – uma estudante do último ano do magistério – a quem tenho apoiado para que possa concluir o curso médio após muitos anos longe da escola, embora as aulas sejam pela manhã. 

Na minha decisão, não me pareceu haver diferença se os serviços da casa são feitos ao longo da manhã ou da tarde, especialmente se com este meu gesto o país ganha mais uma candidata à universidade e à profissão de educadora. Após o filme, ela me confirmou sua decisão de trazer sua única filha – que vive com a avó, no interior – para estudar no Recife.  Há de se prever que também ela entrará na faculdade.




O filme alcança um lugar especial ao lado de produções brasileiras como o “Central do Brasil” (Walter Salles – 1998) estrelado pela grande atriz Fernanda Montenegro. Considero que Regina Casé (a empregada Val, na história) por sua experiência artística, e também por ser uma nordestina enraizada, tenha contribuído para que a obra chegasse a um feliz resultado. Anna Muylaert conseguiu expressar a beleza e a força da cultura nordestina, e também os vícios do preconceito e da insensatez da classe alta encantada de si mesma.

Os comentários da mídia por vezes enxerga em Jéssica – Camila Márdila, a filha de Val –  uma pessoa metida, que não sabe perceber o seu lugar... A diretora do filme fala sobre isto, em alguns trechos da entrevista citada:

“Brasil de Fato SP - Quando você teve a ideia do filme, o objetivo era ter o foco no retrato das relações humanas ou a ideia já era debater questões políticas?


Anna Muylaert - Eu não pensei em política enquanto estava construindo o roteiro. Queria dar um destino melhor para a filha da empregada. Na minha cabeça de dramaturga, eu queria tirar o clichê da maldição da repetição. Durante muitos anos o caminho era igual, a filha vinha para cá ser cabeleireira e acabava como doméstica, assim como a mãe. Eu me determinei a mudar isso. A partir do primeiro dia em que apresentei a ideia, a associação com o retrato do período pós-Lula foi imediata. O filme estava mais enraizado na realidade do que eu achava. Ganhador do Festival de Berlim e com premiação também em Sundance (Sundance Festival Films – USA), o filme é a representação brasileira na disputa pelo Oscar.

Brasil de Fato SP - Falando um pouco sobre essa nova realidade, que foi alterada devido aos diversos programas sociais implantados na última década, você acredita que houve uma mudança na autoestima do brasileiro?

Anna Muylaert - A partir do Lula, sem dúvida, houve um trabalho de melhoria da autoestima, tanto pelo Bolsa Família e pelas cotas raciais nas universidades, como também pela Copa do Mundo e Olimpíadas. Acho que se há algo que o Lula fez foi subir a autoestima das classes menos favorecidas. Mas isso é um pequeno começo, a questão da educação ainda está muito atrasada em relação aos países europeus, por exemplo, que são socialmente mais democráticos. Aqui (no Brasil) demos um pequeno passo para o direito à cidadania.

Brasil de Fato SP - Uma jovem, que também se chama Jéssica, publicou um artigo no blog  “Nós da Periferia” relatando as semelhanças da sua história com a Jéssica do filme. Como está sendo a recepção do público?

Anna Muylaert - Está incrível. Estou recebendo uma mensagem a cada cinco minutos. Ontem, um menino me escreveu relatando um episódio que ocorreu após a publicação de uma crítica muito bonita que fez sobre o filme. A patroa da sua mãe, que é empregada, achou seu texto em um blog, se reconheceu lá, e afirmou que mudaria completamente a sua postura. Isso, pra mim, já é um Oscar. 
Além disso, um pessoal da periferia me convidou para participar de um debate e, no final da mensagem afirmou que ‘somos todas Val’. Enviei como resposta que também ‘somos todas Jéssica’. No geral, a periferia também quer ver o filme, mas ele ainda não chegou lá. 


No início, eu tinha a intenção de oferecer desconto para domésticas que apresentassem o cartão de trabalho. Mas, na primeira reunião, meu distribuidor descartou a ideia porque a patroa se sentiria mal em sentar ao lado da empregada. No mercado capitalista, Que horas ela volta? é um filme de arte. Apesar disso, estamos provando o contrário.
Brasil de Fato SP - Você afirmou em algumas entrevistas que o roteiro começou a ser elaborado logo após o nascimento do seu segundo filho. Como foi esse processo?
Anna Muylaert - O roteiro nasceu do amor pelo meu filho. Eu já tinha feito Castelo Rá-Tim-Bum e vários outros trabalhos, mas quando eu tive o bebê surgiu uma força que me fez decidir que não iria mais trabalhar por um tempo. Eu fiquei dois anos sem trabalhar, mas felizmente vieram os livros do Castelo Rá-Tim-Bum, que me renderam quatro ou cinco vezes mais do que o salário na TV Cultura, e me possibilitaram continuar trabalhando em casa. Eu senti que o processo da maternidade me faria crescer e me entreguei completamente. (...) Mas, por que a maternidade não é valorizada? Justamente porque a nossa sociedade exalta apenas o masculino. Muita mulher, e acho que eu não tive isso porque havia acabado de fazer sucesso, fica agoniada em casa enquanto o mundo lá fora está girando. Porque o sinônimo do mundo é sucesso, poder e riqueza, enquanto o da maternidade é amor, carinho e espiritualidade. Senti que isso é um tema muito forte, porque o mundo inteiro é regrado pelas leis masculinas, que são machistas”.
Os jornalistas comentaram que os prêmios até agora conferidos à cineasta Anna Muylaert rompem a hegemonia, por trinta anos consecutivos, de indicações masculinas nos festivais cinematográficos, e abrem o debate sobre o machismo nesses eventos internacionais.
Considero  que  o  filme   não apenas aponta o rompimento de uma hegemonia machista no que tange os prêmios cinematográficos. A expressiva aceitação do filme “A que horas ela volta?”  no Brasil e no âmbito internacional  parece-me ter sustentação na densidade e na delicadeza com que foi tratada a questão cruciante dos empregados domésticos aqui no Brasil.


A cineasta brasileira soube tocar nesse tema com apreciável solidariedade e profunda compreensão. Não só por ser mulher, mas por ter demonstrado profundeza, sensibilidade e sabedoria de enxergar os caminhos históricos e políticos que percorremos, no Brasil, em que os pobres estão podendo assumir suas escolhas - por eles próprios - alcançar seus direitos antes negados.  Assim, também eles estarão a contribuir - a partir de sua própria experiência - na construção da solidariedade e da fraternidade no mundo contemporâneo.

[1] www.brasildefato.com.br

Créditos imagens:

1. Foto de Anna Muylaert - Guilherme Weinmann


2. Fotos do filme - imagens de divulgação.



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