Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

A DELICADEZA DO AMOR

14 de agosto de 2015

No carro, os quatro seguiam em animada conversa, enquanto Sérgio dirigia com atenção procurando a entrada da cidade praieira. Era o primeiro fim de semana de lazer que tiveram, no congresso em que discutiam sobre as atividades sociais das organizações civis latino-americanas.

–  Finalmente vamos conhecer uma praia brasileira! – comentou Fernando, ao fazerem a curva de entrada em Paraty, uma encantadora cidade costeira do Rio de Janeiro, nas proximidades da Serra da Mantiqueira. 

Soy curiosa, disse Mirella, tentando ser agradável. Cada um perscrutava a seu modo, a fim de conhecer um pouco mais os companheiros de viagem. 


Na semana que passaram, de trabalho intenso, não houve tempo para se conhecerem. As noites de folga foram ocupadas com apresentações musicais – um ou dois violões acompanhando as cantigas mexicanas e paraguaias, os sambas brasileiros, e as melodias inusitadas da chacarera boliviana que também é dançada em regiões da Argentina e  no sul do Brasil – lenços esvoaçantes e coloridos, levam os parceiros a se achegarem, e em seguida a se retirarem para trás numa brincante conquista entre os pares. Embora o interesse maior fosse forró nordestino, difícil de aprender talvez pela pouca habilidade dos que ousavam demonstrar os passos.  

Entre os quatro viajantes Sérgio, o brasileiro, era o mais conhecido por ser um dos colaboradores do evento na organização dos grupos de trabalho. Os outros, – Michelle e Fernando, do Chile, e Estés, do Equador – entraram no carro às pressas, com apenas o tempo de pegarem um nécessaire e a toalha, e de vestirem a roupa de praia por baixo da bermuda. Fora uma decisão de última hora, e os quatro se encontraram ao acaso, pois os outros já se haviam dispersado. Sérgio conseguira o carro emprestado da dona da pousada. E cá estão eles, embarcados numa conversa informal das primeiras apresentações: – Cómo te llamas?  – Estás disfrutando el Brasil?    


Logo chegaram à cidade de Paraty, exultantes com a beleza das ruas de casas pequenas e coloridas. Depois...    aquele  mar  de  águas  onduladas  pinceladas de sol. Algumas famílias já estavam apeadas com os seus pertences, as crianças e as bolsas de lanches, num piquenique empoeirado de areia úmida. Estacionaram o carro à sombra da primeira árvore e correram felizes, a se banharem de água e sol. Sérgio ainda não conhecera a cidade, embora vivesse no Rio de Janeiro.

Não demorou a perceberem a extensão inteira do mar e as ilhas que surgiam ali e acolá, num inquietante convite a alcançarem suas pedras rochosas carcomidas pela força das ondas. Mais pareciam adolescentes de férias pela primeira vez longe dos pais. Na praia se depararam com um dos condutores dos barcos ali acostados – tinha o rosto bronzeado, pele seca e descuidada, usava chapéu de palha e deixava a ver a sagacidade de seu olhar à espreita dos primeiros turistas do dia.
Bom dia, cómo se puede facer un paseo no mar? ousou perguntar Estés, em portuñol.
Sim, Senhora, passeio no mar... Quantos são?
Somos sólo cuatro, pero hasta dónde podemos llegar? E os outros riam de Estés que não desistira de continuar o diálogo com o barqueiro, do qual agora sabiam o nome: “Seu Chico”, um intermediário de passeios turísticos naquela praia escancarada!   


O barqueiro falou do tempo necessário para se chegar a uma das ilhas mais próximas, ele próprio podia alugar aquela, – e apontava à esquerda, dedo em riste, mostrando os braços queimados, a pele ressecada coberta de pelos dourados – vinte a trinta minutos até lá... (O grupo demonstrou interesse!). O barqueiro frisou: a volta da ilha tinha que ser antes das 17h, precisava respeitar a maré, ele iria buscá-los.

Pareceu-lhes que o barqueiro era uma pessoa de confiança. A decisão fora tempestiva: embarcaram cheios de espanto e curiosidade. No caminho, – enfeitiçados pelo doce balanço do mar, silenciosos e imersos na paisagem exuberante – ouviram Sérgio sugerir, após um bate-papo com Seu Chico, que poderiam passar a noite na casa branca da ilha, e voltariam no dia seguinte cedinho, menos perigoso, a maré nunca se sabe, podia subir mais cedo... Os outros se entreolharam, cada vez mais deslumbrados no ambiente ondulante da ensolarada manhã.

Por que no? disse Estés animada. Concordaram. Não seria um final de semana de lazer?  E havia o celular – uma inovação, na época – que Sérgio carregava sempre consigo. Um homem de contatos internacionais como ele não esquecia esse detalhe. Negociaram: o custo da viagem e da permanência na ilhota – com a casa carcomida e alguma mobília – cabia na soma do dinheiro que eles traziam, e mais: fazia parte, agora, da expectativa vibrante de uma aventura sequer imaginada.

Foi Fernando quem lembrou, no caminho, que precisariam da provisão de alimentos e de água, se quisessem pernoitar. Permaneceram algum tempo a olhar o entorno: alguns barcos circulavam na área, o que apagava a impressão primeira de uma ilha deserta e isolada. Estés se adiantou: - Puedo volver a comprar alimentos!...  No perdamos esta idea!, completou Fernando decidido. – Me voy con usted a la playa y pronto vamos a traer el necesario.




Os dois voltaram à cidade com o barqueiro, este agora animado por ter toda a manhã ocupada com aqueles turistas alegres. Era ele mesmo o encarregado do aluguel da “Ilha do Cachorro” – era este o nome, assim garantiu Seu Chico. Sérgio e Michelle subiram na direção da casa da ilha, que ficava mais acima, os passos cuidadosos para não tropeçarem no caminho – um chão coberto de pedregulhos, matizado pela vegetação nativa e enxuta dos trópicos. Encontraram a casa limpa e o indispensável para hospedá-los.


No caminho de volta à ilha – já com as compras de víveres para a jornada –Fernando e Estés se sentiram atingidos por um   sentimento mágico e suave (uma empatia, quiçá!) como a paisagem que os cobria de um azul profundo, misturado ao verde incendiado de um mar imenso. Era tudo tão inesperado, e ainda aquele inebriante mistério de uma ilha perdida no  borbulhento mar tropical... Michelle e Sérgio os esperavam: ela a tomar sol sobre uma pedra, enquanto ele contemplava sereno o infinito, o chapéu sobre o rosto para não se queimar. 


A estada na ilha fora agradável e surpreendente. Os quatro fizeram passeios por vários recantos em diferentes latitudes, e cuidaram de preparar a  comida a vários temperos, de acordo com as suas parcas experiências culinárias. À noite, ao luar, cantarolaram músicas populares brasileiras que todos conheciam, ao tempo em que contemplavam os sinais luzentes das barcaças que passeavam nas ondas escuras. Sérgio sustentou, solícito, o ritmo e as notas básicas do acompanhamento ao violão.  


Mais tarde, distendidos sobre o tapete  do chão selvagem, sob uma plácida lua minguante, Fernando e Estés conversaram – como se já se conhecessem de longa data – até que puderam se deleitar com a explosão de um vibrante amanhecer. Ambos percebiam, com clareza, o sentimento que agora os perturbava.   

Após o café da manhã, os quatro se deitaram na areia úmida para tomar sol  mais uma oportunidade para o bronzeado  enquanto esperavam o retorno combinado do barqueiro. De volta à cidade não deixaram de passear nas lindas ruelas coloridas calçadas de pedras, observando a vistosa presença de turistas a passear com suas desvestidas  brancuras sob o sol. Quando anoiteceu, já haviam chegado à pousada da Mantiqueira para a retomada dos trabalhos no dia seguinte. 

A semana que se iniciava trouxera novas surpresas. Um dia, cedinho, Fernando convidou Estés para irem conhecer a cachoeira. Na longa subida ensolarada, colheram preciosas flores nativas. O calor das mãos entrelaçadas tornava mais agradável e fascinante a caminhada. Finalmente se davam conta que estavam hospedados numa das mais belas serras do Rio de Janeiro. Aqui e ali trocavam algumas palavras... (um cuidado sutil ao expressar o sentimento que fluía!). 

 Não tenho condições de seguir as plenárias!, disse Fernando, como se estivesse a falar consigo mesmo. 
– Fico a pensar que depois se parte, e isto me traz muitas interrogações... 
– É assim também para mim, Fernando - replicou Estés. E completou, serena: 
– Mas, já o sabemos, não?! Partiremos...



Seguiram em silêncio, as mãos ainda apegadas num aconchego de ternura. Ao chegarem à cachoeira  se prepararam para ir à grande bica que fluía do paredão: a força da água caía constante na pedra, e deslizava na parede em declive da serra. Banharam-se felizes, ele prestimoso em ajudá-la a equilibrar-se  sob o forte jato d´água. 


E se aquietaram ali, envolvidos no fluxo restaurador da água corrente, sem que ele percebesse as lágrimas de Estés que se misturavam à carícia líquida do abraço. 

As despedidas musicais da última noite, agora com todos, pareciam esconder a expectativa do dia seguinte. De manhã fez-se a plenária de encerramento. Sérgio se despedia alegremente: Michelle decidira acompanhá-lo na sua missão a Costa Rica. No fundo da sala Fernando e Estés estavam distraídos e desinteressados. Saíram durante o alvoroço final para as fotografias dos participantes. Precisavam fazer as malas; ambos partiriam após o almoço. Já pressentiam a dificuldade de se deixarem, e a despedida foi  carinhosa e intensa. Por fim, um comentário incisivo de Estés: – Não esqueças, Fernando, que poderás ser feliz! Basta que ames assim mesmo como és, e desse modo que sabes!... É possível redescobrir o amor que um dia se foi... Precisas acreditar em ti!



Quando ele partiu, os novos amigos o viram pegar o ônibus para o aeroporto sem conseguir despistar as lágrimas. Estés chamou um táxi mais tarde. Ao buscar na bolsa o bilhete aéreo para o embarque, encontrara a cópia de um poema do chileno Manuel Magallanes Moure que Fernando lhe havia recitado, em espanhol, na noite que estiveram juntos, na ilha.                      
                      

                RECORDAS?      
              
                 
                 Lembras? Uma linda manhã de verão
                 A praia vazia. Um vento de asas grandes e lerdas.
                 Sol e vento. O mar azul, florido. Recordas?
                 Minha mão apertava suavemente a tua mão.

                 Depois, a um só tempo, nosso lento olhar
                 pousou na sombra de um barco a surgir, num instante,
                 sobre o cansado limite do azul distante
                 recortando no céu suas velas a balançar.

                 Fecho os olhos agora, a realidade é distante,
                 e a visão daquela manhã luminosa 
                 no cristal obscuro de minh´alma é transbordante.

                 Vejo a praia, o mar, o veleiro de então,
                 e é tão viva, tão viva a ilusão prodigiosa,
                 que a tatear, como um cego, busco a tua mão.(*)                

Aqueles versos a encheram de saudade! Também ela fizera o seu aprendizado, exercitando sua força e a segurança que demonstrara junto a Fernando. Sabia que precisava aprender a amar com gratuidade...

No avião, mais tranquilo, Fernando se percebera uma pessoa enriquecida e, quem sabe, mais madura.  Conversara sobre isto com Estés, na ilha. Entendera que o aprendizado daquele período do congresso fora o de experimentar ser capaz de uma relação afetiva espontânea, permeada de pequenas atenções... 

Mais uma vez abriu o e-mail para ver as últimas notícias da família. Estava para nascer o filho tão esperado, e seria uma menina! Se chamará Luíza, pensou – é um nome de mulher forte e sensata. Será Luíza! Luminosa!...E fez um leve sorriso. Uma sensação de completude assomava-lhe dentro... Percebia que já não era aquele que há poucos dias chegara ao Rio de Janeiro!  

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(*) "Recuerdas?" - soneto de Manuel Magallanes Moure, poeta chileno.
      In: Poesía Chilena Contemporánea - Organizadores: Miguel Arteche, 
       Juan Antonio Massone e Roque Esteban Sacarpa - Editora Andres Bello - 2ª edição -                  Santiago (Chile), 1984.p.14 - Versão portuguesa de Vanise Rezende - Agosto, 2015.



Recuerdas?

Recuerdas? Una linda mañana de verano.
La playa sola. Un vuelo de alas grandes y lerdas
Sol y viento. Florida la mar azul. Recuerdas?
Mi mano suavemente oprimia tu mano.

Después, a un tiempo mismo, nuestras lentas miradas

posáronse en la sombra de un barco que surgía
sobre el cansado limite de la azul lejana
recortando en el cielo sus velas desplegadas.

Cierro ahora los ojos, la realidad se aleja,

y la visión de aquella mañana luminosa
en el cristal oscuro de mi alma se refleja.

Veo la playa, el mar, el velero lejano,

y es tan viva, tan viva la ilusión prodigiosa,
que a tientas, como un ciego, vuelvo a buscar tu mano.

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Créditos das imagens:

1. Paraty - www.zampo.com.br
2. Dança Chacarera - www.elperiodico.com.ar - Festival de dança chacarera em 2009.
3. Carro com pessoas - www.canstockphoto.com.br
4. Praia de Paraty - www.indoviajar.com.br
5. Ilha  - www.canstockphoto.com.br 
6. Barcos em Paraty - www.epochtimes.com.br
7. Rua de Paraty - www.porondevamos.com.br/2015
8. Ilha com casa branca - www.canstockphoto.com.br
9. Amanhecer - foto de Armando Schlindwein
10. Casal de mãos dadas - www.canstockphoto.com.br
11. Queda d´água -  www.canstockphoto.com.br
12. Casal na praia, de chapéu - www.canstockphoto.com.br
13. Jovem rapaz no avião www.canstockphoto.com.br
14. Mapa de  acesso a Paraty - www.paraty.com.br



Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens e deseja que ela seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com












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