Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

AMOR DE MÃE

6 de julho de 2015


O céu de luz intensa explodia num azul tropical pincelado de nuvens em brancura de anil. Adiante, ajuntadas feito arroubas de algodão chamuscado de um intenso verniz dourado, outras nuvens pareciam desenhar misteriosas figuras.   

Aos olhos de Luzia parecia uma casa enorme de portas e janelas escancaradas. Imagens de pessoas em grupos ocupavam espaços sem paredes nem forma... Uma festa – assim ela contemplava – as pessoas trocavam presentes... Ela em estado de sonho e interrogação. 

Uma mulher se achega dizendo-lhe algo que lhe parecia falar de afeto e cuidado, e lhe entrega um misterioso embrulho de panos, desaparecendo em seguida. Eis que um choro de criança escapa do embrulho mal arrumado. A luz se faz intensa. No movimento das nuvens vê-se a figura de Ayres – sua cara cornuda, de grandes olhos repuxados – que parecia  dizer-lhe alguma coisa, mas suas palavras eram inaudíveis. Dias depois Luzia entendera aquele misterioso sonho-visão!

A cidade real onde ela vive é pequena e calma e situa-se numa árida paisagem sertaneja. Lá existem as pessoas importantes que todos conhecem – o político, a dona de casa tão alegre e cheia de filhos, o chefe da difusora, o farmacêutico e o prefeito... Há também as figuras símbolo da cidade: o rapaz do pirulito que passeia com seu tabuleiro colorido, anunciando-se com um apito do qual só ele sabe tirar aquele som tão doce! Há também o homem do quebra-queixo, a doceira, a professora...

Mas, ali, nenhuma mulher é mais conhecida do que Maria Louca, a viver pelas ruas e dormir quem sabe onde, as famílias a cuidarem da sua comida e, vez por outra, de uma roupa velha para lhe cobrir o corpo enxuto e esguio, de rosto ovalado e pele negra, mais queimada na aridez do sol sertanejo.  

Luiza conhece todos eles, é uma das professoras do município. Começou a ajudar Maria Louca quando ela apareceu grávida – a cidade inteira a se perguntar: quem é o pai?! – ela a se fazer de boba, pois os loucos também sabem se defender da má-língua dos que não têm o que fazer. E a barriga a crescer, agora as outras mães a prover-lhe de leite e favas pro menino nascer sadio. E nasceu!

A mãe não deixava ninguém se aproximar nem cuidar da sua criança. Ela mesma o banhava nas vazantes dos sítios próximos à cidade, de onde a água era distribuída para os moradores, que ainda usavam carroças puxadas por burricos a subir as ladeiras com imenso esforço. Também o menino vestia-se do que lhe davam. 

Aqui e acolá  – sem que fosse por escolha consciente – Maria recebia das mulheres da cidade uma muda nova para a criança, e jogava no saco onde tudo ela carregava. Luiza era uma dessas mulheres, uma jovem professora do município. Cuidara de Maria e do seu filho, arranjara um lugar para que dormissem sossegados, pois às vezes chovia, o sertão é clima árido e incerto, e as chuvas quando veem são fortes, clarões e trovões que fazem medo a qualquer um.

Aquele menino bem que assemelhava à criança da história que há muito tempo se conta, de Belém de Judá, nascido nas palhas de uma manjedoura em companhia de cavalos e burricos. O filho de Maria Louca – que veio a se chamar Severino mais tarde – cresceu em sabedoria, saúde e graça. Não era ele também um filho de Deus?! Talvez movida por esse sentimento a jovem Luiza o protegia,  levava-o muitas vezes à sua casa para lhe dar um banho de sabonete e tirar-lhe os piolhos – que era feito peste na cabeça das crianças do sertão, a quentura ajudava a multiplicá-los que nem formiga no doce.



Certo dia Maria Louca chegou a casa dos pais de Luiza, procurou-a e lhe falou: – Você cuida dele... Eu dou pra você cuidar! E sem papel nem carimbo – mesmo sendo Luiza a filha do tabelião da cidade – Severino veio acrescer a fileira dos sete irmãos de Luíza. Quanto foi amada aquela criança!, e como as pessoas do lugar a acompanhavam, a se perguntarem como podia ser que Maria, tão louca, viesse a conceber um moleque tão esperto e sadio!

Mais tarde Severino foi morar na capital com toda a família de Luíza. Vez por outra Maria Louca perguntava: cadê meu filho?, e se contatentava com as notícias que lhe davam, a sua vida nas giravoltas pela cidade. 

Severino se dava bem na escola e nas amizades que fizera com o jornalista vizinho, filho da família ao lado, e com os irmãos mais velhos de Luiza. Concluíra a escola média. Até que um dia um irmão de Luiza – engenheiro de minas –  levou Severino para trabalhar no norte, na perfuração de poços da Petrobrás. Ali, ele aprendeu muito e se profissionalizou, depois casou e constituiu família. Acompanhou, de longe, ainda através de Luiza, a vida da sua mãe. Um dia ele soube que ela havia morrido. 

Agora, envelhecida e viúva – contemplando, entre as nuvens, a face de Ayres – Luiza lembrou: é o signo de Severino! Como sinto saudades dele, o filho predileto e único que a vida me quis dar! 

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Créditos Imagens:

Pintura de dois garotos brincantes - Abelardo da Hora, 2014 - obra fotografada em exposição do autor, no Recife (Brasil).

Outras imagens -  www.canstockphoto.com.br

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