Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

BRASIL - O RECOMEÇO NECESSÁRIO

7 de junho de 2015

Sempre é possível uma autocorreção e o recomeço -


Leornardo Boff continua sendo a voz que não cansa de analisar as questões de nosso maior interesse, ora defendendo a reorientação das políticas ambientais, ora apontando a nós, cidadãos, os passos de conversão e de atitudes para a conquista do bem comum, ora buscando as melhores sugestões e ideias para afrontar a crise por que passa o mundo político e, com ele, também nós, os brasileiros. Neste seu artigo recente, que reportamos abaixo, (com retoques na edição do texto, a fim de promover um    melhor entendimento) Leonardo Boff aponta as possibilidades para a crise de      governabilidade, hoje, no Brasil. Segue o seu artigo.

Nem toda crise, nem todo caos são necessariamente ruins.  A crise acrisola, funciona como um crisol que purifica o ouro das gangas e o libera para um novo uso. O caos não é só caótico; ele pode ser generativo. É caótico porque destrói certa ordem que não atende mais as demandas de um povo; é generativo porque a partir de um novo rearranjo dos fatores, instaura uma nova ordem que faz a vida do povo melhor. Dizem cosmólogos que a vida surgiu do caos. Este organizou internamente os elementos de alta complexidade, que desta complexidade fez eclodir a vida na Terra e, mais tarde, a nossa vida consciente (Prigogine, Swimme, Morin e outros).


A atual crise política e o caos social obedecem à lógica descrita acima. Oferecem uma oportunidade de refundação da ordem social a partir do caos social e dos elementos depurados da crise. Como no Brasil fazemos tudo pela metade, e não concluímos quase nenhum projeto (independência, abolição da escravatura, a república, a democracia representativa, a nova democracia pós ditadura militar, a anistia) há o risco de que percamos novamente a oportunidade atual de fazermos algo realmente profundo e cabal – ou continuaremos com a costumeira ilusão de que, colocando esparadrapos, curamos a ferida que gangrena a vida social já por tanto tempo.

Antes de qualquer iniciativa nova, o PT – que hegemonizou o processo novo na política brasileira – deve fazer o que até agora nunca fez: uma autocrítica pública e humilde dos erros cometidos, de não ter sabido usar do poder realmente como instrumento de mudanças – e não de vantagens corporativas – e de ter perdido a conexão orgânica com os movimentos sociais. Precisa fazer o seu mea-culpa, porque alguns – com poder  traíram milhões de filiados por ter maculado e rasgado sua principal bandeira: a moralidade pública, e a transparência em tudo o que faria. Aquele pequeno punhado de corruptos e de ladrões do dinheiro público, dentro da Petrobrás – que atraiçoaram os mais de um milhão de filiados do PT, e envergonharam a nação – deverão ser banidos da memória.

Cito frei Betto, que esteve dentro do poder central e que ideou o (Programa) Fome Zero. Ao perceber os desvios, deixou o governo comentando: ”O PT, em 12 anos, não promoveu nenhuma reforma da estrutura nem agrária nem tributária nem política. Havia alternativa para o PT?. 



Sim, se não houvesse jogado a sua garantia de governabilidade nos braços do mercado e do Congresso; se tivesse promovido a reforma agrária 
 de modo a tornar o Brasil menos dependente da exportação de commodities – e favorecido mais o mercado interno; se ousasse fazer a reforma tributária recomendada por Piketty  priorizando a produção e não a especulação; se houvesse, enfim, assegurado a governabilidade, prioritariamente pelo apoio dos movimentos sociais, como fez Evo Morales na Bolívia… Se o governo não voltar a beber na sua fonte de origem – os movimento sociais e as propostas originárias do PT – as forças conservadoras voltarão a ocupar o Planalto”.

E agora concluo eu: temos posto a perder a revolução pacífica e popular feita a partir de 2003, quando ocorreu não a troca do poder, mas a troca da base social que sustenta o Estado: o povo organizado, antes à margem e agora colocado no centro. O PT pode suportar a rejeição dos poderosos. O que não pode é defraudar o povo e os humildes, que tanta confiança e esperança colocaram nele. E muitos  como eu e Frei Betto, que nunca nos inscrevemos no PT (preferimos o todo e não a parte que é o partido) mas, sempre apoiamos sua causa, por vê-la justa e afim às propostas sociais da Igreja da Libertaçã sentimos abatimento e decepção. Não precisava ser assim. E foi pela imoralidade, pela falta de amor ao povo e pela ausência de conexão orgânica com os movimento sociais.
Nem por isso desistiremos. No espectro político atual, não vislumbramos nenhum projeto que fuja da submissão ao capitalismo neoliberal, que faça a sociedade menos malvada, e que apresente lideranças confiáveis que tornem melhor a vida do povo. A vida nos ensina, e as Escrituras cristãs não se cansam de repetir: quem caiu, sempre pode se levantar; quem pecou, sempre pode se redimir, depois de clara conversão para o primeiro amor. Até se diz que quem estava morto pode ser ressuscitado, como Lázaro e o jovem de Naim.
O PT tem que recomeçar lá em baixo, humilde e aberto a aprender dos erros e da sabedoria do povo trabalhador. Valem ainda os ideais primeiros: inclusão social de milhões de marginalizados; desenvolvimento social, com distribuição de renda e redistribuição da riqueza nacional; cuidado para com a natureza, com seus bens e serviços ameaçados; e a sempre ansiada justiça social. Mas tudo isso não terá sustentabilidade se não vier acompanhado por uma reforma política e tributária, e por pesado investimento na agroecologia, na impossibilidade atual de se fazer a reforma agrária.

Para que isso ocorra, precisamos acreditar na justeza desta causa; fortalecer-se face à batalha que será travada contra o PT – por aqueles que vivem batendo panelas cheias – porque nunca querem mudanças, por medo de perder benefícios; mas, jamais usar as armas que eles usam – mentiras e distorções – usar aquelas que eles não podem usar: a verdade, a transparência, a humildade de reconhecer os erros, e a vontade de melhorar dia a dia, de querer um Brasil soberano e um povo feliz, não mais destinado a penar nas periferias existenciais, mas a brilhar. Vale  o que Dom Quixote sentenciou: “não devemos aceitar as derrotas sem antes dar as batalhas”.

----------------------------------------------------------

Créditos das imagens:

Manifestações políticas 2015 - www.2.camara.leg.br/agencia/noticias

O crisol - www.canstockphoto.com.br
Jogo de Xadrez www.canstockphoto.com.br
1º congresso do PT - csbh.fpabramo.org.br
Cartaz do PT - divulgação
Lula presidente - 2003 - www.teorianodebate.org.br
Manifestação - 2015 - Valter Campanato - Agência Brasil

Nota: As imagens publicadas neste espaço pertencem aos seus respectivos autores. Se alguém possuir os direitos autorais de uma dessas imagens e deseja que não sejam publicadas neste espaço, por favor entre em contato com: 
vrblog@hotmail.com
























Posts + Lidos

Desenho de AlternativoBrasil e-studio