Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

CAPITALISMO X RACISMO

6 de maio de 2015

glover
Recentemente, o site Brasil de Fato publicou uma entrevista com o ator, produtor e ativista norte-americano DANNY GLOVER, mais conhecido por sua atuação no filme Mandela, A Cor Púrpura e Máquina Mortífera. Em 2013 o ator foi homenageado no Brasil, por ocasião do Troféu Raça Negra, o "Oscar Negro" do país.


Este ano (2015),Danny Glover veio participar de um congresso promovido pela CUT - Central Unica dos Trabalhadores - e visitou também o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Na ocasião, ao conhecer a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) - e seus sessenta estudantes provenientes do mundo inteiro - comentou: "É incrível existir um local que prepara as pessoas para lutar por um mundo melhor. É o que essa escola representa. Esse lugar é um sopro de ar fresco  É um presente estar aqui hoje, olhando vocês que são o futuro". 

Na entrevista, o ator fala de racismo, das condições dos trabalhadores nos Estados Unidos e sobre o potencial do cinema para conscientizar o público. Hoje, Danny Glover é produtor de cinema e tem realizado documentários de apoio à Palestina, à Tailândia e também sobre temas específicos para os estadunidenses, como porte de armas e aquecimento global. Abaixo, publicamos apenas alguns trechos da entrevista dada, no Brasil, ao Jornalista José Coutinho Junior:

Você nasceu no período em que os negros eram segregados na sociedade americana. Como era ser negro nessa época?
Danny Glover - Fui nutrido por uma cultura não só daquela época, mas do meu passado. Minha bisavó nasceu em 1853. A emancipação dos escravos ocorreu quando ela tinha 10 anos. Quando a conheci, ainda criança, ela tinha mais de 90 anos. Há uma conexão entre a minha vida, a minha raça e o pensamento político da minha família. Minha mãe foi a primeira pessoa da família e da comunidade a se formar, em 1942, numa universidade. Meus avôs - depois de trabalharem por muito tempo como camponeses - conseguiram comprar uma propriedade rural de 52 hectares. Minha mãe e seus irmãos foram à escola e não tiveram que colher algodão na época da colheita. Isso foi um grande sacrifício para a família, pois eles precisavam de todas as mãos possíveis para colher e pagar as contas. Minha mãe sempre foi profundamente grata aos seus pais por ter ido à a escola. (...) Meus avós, que tinham a educação mais básica, viram que era esse o futuro e fizeram o sacrifício para que seus filhos estudassem. É esse tipo de coisa que moldou minha vida.

Nasci em 1946, oito anos depois a decisão da Suprema Corte Americana de que “igual não é igual”.  A ideia de criar locais e acomodações diferentes para negros e brancos virou lei. Essa segregação, que afetou os meus pais imediatamente, se tornou o catalizador para que eu iniciasse o processo de entender a relação que tenho com o meu país como cidadão. Meus pais eram carteiros, ligados ao sindicato, e, frequentemente, conversavam sobre o trabalho militante deles no sindicato e como isso se conectava aos movimentos dos direitos civis. Eu escutava isso, além de ler muito. Foi a fundação dos movimentos negros que lutaram pelos direitos civis e antissegregacionista.

Sou de São Francisco, California, uma cidade muito radical, progressista. Tinha o sindicato mais progressista do país, formado por trabalhadores de armazéns e portos. Era um dos grupos mais radicais: foi o primeiro a boicotar bens sul-africanos, dizendo que não descarregariam produtos do país do Apartheid. As políticas estudantis, nas duas universidades da Califórnia, a cultura que emergiu com os hippies, os panteras negras, foram parte em especial do meu modo de entender o que estava acontecendo no mundo. (...)

Quando tinha 20 anos, tudo isso estava em mim. Todos esses elementos progressistas se tornaram parte da minha consciência e abracei tudo isso. Em 1987 fui para a "San Francisco State", uma universidade que passou por outro nível de radicalização, com grupos de estudantes negros. Esses fatos me situaram e moldaram a forma como lido com a cultura, o que leio, o que escuto.

Como a arte e principalmente o cinema pode tratar das questões sociais de uma forma transformadora?

Sempre assisti filmes de vários países e cineastas: brasileiros, argentinos, bolivianos, europeus, africanos, japoneses... Os trabalhos de Fellini, Truffaut, Bergman, todos os seus filmes me influenciaram. Quando era jovem (...) , me envolvi no que foi considerado “arte negra”. Eram peças de agitação e propaganda. Curtas que tinham como objetivo transmitir uma mensagem ideológica: como se tornar militante e conseguir emprego. Eram peças muito políticas. Então, eu via o drama como algo político, uma forma de transmitir essas ideias de forma diferente. Esse foi o começo da minha relação com teatro e a arte. E como fui formado assim, o que eu queria fazer com a arte na maioria das vezes diferia da agenda que a indústria me apresentava. Fiz muitos filmes populares e comerciais, mas sempre tive essa inclinação de querer fazer filmes menores, que tenham um significado.

Só nos últimos dez anos consegui fazer o tipo de arte com caráter político similar ao que tinha me formado, com a realização de documentários ou narrativas. Como produtor, já fiz três filmes palestinos, dois tailandeses, um documentário sobre o movimento de direitos civis, um sobre aquecimento global e outro sobre a liberação de armas. São essas experiências que me moldaram como artista, ator e cidadão, e me fizeram pensar em como manifestar essas ideias no meu trabalho.


É possível fazer filmes com um caráter crítico e social em Hollywood?


É difícil dizer. Tento fazer um filme sobre a revolução haitiana por anos. É obviamente uma história sobre negros e tem sido difícil. Por exigir custos, o filme tem que se realizar fora do sistema. Se fizer dentro o custo seria 30% ou 40% maior. Sob esse ponto de vista, é possível. Mas quando se pensa em produções culturais -  a forma como o cinema pode moldar pensamentos em um curto período de tempo - é algo incrivelmente bom para nós, e isso precisa ser explorado.

Como você vê o racismo hoje nos EUA, principalmente após o que
ocorreu em Ferguson?

Ferguson e outros lugares semelhantes são criados pela ausência de qualquer estrutura, além da brutalização da força policial. A questão racial é algo muito enraizado na minha vida, no que faço. O que penso é que muitas vezes se ignora que a raça está ligada, tangencialmente, a muitos outros temas como pobreza, saúde, procura de empregos. Prestamos atenção no racismo explícito, mas acabamos ignorando esse racismo mais sutil. A questão é que a raça é obscurecida por outros problemas programados pelo consumismo. Para manter nosso padrão ou um lugar nas nossas vidas, precisamos manter certas necessidades físicas e psicológicas. Assim, o racismo tem uma relação funcional com o capitalismo, na exploração dos negros como mão de obra barata. E para romper com isso, precisamos pensar em outros sistemas. Que potencial um outro sistema, como o socialismo, poderia ter em relação à questão racial? Como falar de raça com outro ponto de vista e criar uma estrutura que melhore o planeta e a humanidade? Quais seriam as ferramentas e as políticas necessárias para isso?

Você está engajado na luta sindical dos EUA. Qual a situação dos trabalhadores no seu país, em especial os negros?

Estatisticamente, há quarenta anos a renda dos trabalhadores americanos vem diminuindo significativamente. Não só isso, eles trabalham mais horas e o número de mulheres que compõem a força de trabalho mais que dobrou no mesmo período, não por que há novas oportunidades para as mulheres, mas porque o dinheiro que elas ganham é crucial para manter a casa. Os trabalhadores americanos brancos ganham mais que os negros, e os salários das mulheres são menores ainda. É uma situação em que - considerando-se o mesmo trabalho - os negros têm as maiores taxas de desemprego, menores condições de economizar dinheiro e de acumular bens.

Você já visitou o Brasil várias vezes. Como você enxerga o racismo no país? Um garoto negro de 10 anos foi assassinado recentemente em uma favela do Rio pela Polícia Militar...

O racismo e a militarização da polícia nas comunidades negras é algo que ocorre em várias partes do mundo e temos que nos preocupar com isso. Como o Estado, junto com a sociedade, se aproximam desse problema? E qual seria o papel da polícia na sociedade? Por que não houve uma comoção no espaço público causada pela morte desse menino? A morte desse garoto é emblemática. As pessoas da favela estão excluídas economicamente da sociedade, mas também psicologicamente. Esse tipo de violência acontece com tanta regularidade que o Estado deve ser responsabilizado. Não me interessa se o Estado é de direita ou de esquerda, ele deve tomar medidas, desenvolver políticas públicas para melhorar a vida das crianças negras e pobres, valorizando a vida delas.

Para terminar, você pensa  em fazer um dia um filme sobre o Brasil?

Claro! Adoraria fazer um documentário sobre o Brasil. Não tenho planos ainda, mas, provavelmente, é algo que vou fazer.

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Crédito Imagens:

1. Dany Glover - foto publicada em: www.brasildefat0.com.br
2. Operários - www.trofeuracanegra.com.br/2013
3. Ruth de Souza - foto divulgação 


Nota: As imagens publicadas neste blog - aqui creditadas - pertencem aos seus autores (inclusive aquelas dos arquivos do próprio blog). Se alguém possui os direitos de uma dessas imagans e deseja que e deseja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com


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