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OSCAR ROMERO: RESSUCITAREI EM MEU POVO

7 de abril de 2015


O arquiteto, ativista, escritor e pintor argentino Adolfo Pérez Esquivel - Prêmio Nobel da Paz em 1980 - está com 83 anos e continua suas atividades internacionais em defesa dos Direitos Humanos e do Meio Ambiente. Tive a alegria de conhecê-lo por ocasião de sua visita a Dom Hélder Câmara, em 1980.  O presente artigo foi traduzido do original em espanhol para este blog. No seu texto, Esquivel traça um perfil de Dom Oscar Romero, conhecido no mundo inteiro por ter sido assassinado durante a celebração da missa, na catedral de San Salvador (em El Salvador), há trinta e cinco anos atrás. Oscar Romero, como Dom Hélder Câmara, estão para entrar na história como santos da Igreja Católica, por suas vidas dedicadas aos pobres e indefesos de seus países. 
A vida de Oscar Romero é um testemunho profético que nos convida a nos posicionar, onde quer que atuemos - na Sociedade, na Igreja e na Política - do lado dos irmãos empobrecidos, alargando o nosso olhar para todo o mundo e nos interessando, de um modo especial, pelo destino dos mais esquecidos como, por exemplo, os povos indígenas dos países latino-americanos. 


"Os mártires são sementes de vida que cultivam a esperança e fortalecem os caminhos da fé. Eles fecundaram o continente de Terra Fecunda – 'Abya Yala' – pela força da palavra profética e pelo testemunho de vida dos que tiveram a coragem e a fé de caminhar com a Igreja Povo de Deus.


Suas vozes se levantaram em todo o continente e no mundo. Foi assim –nos anos oitenta – em nosso país irmão, São Salvador, também submetido à violência com mais de setenta mil mortos, exilados e perseguidos. Dessa dor surgiu uma voz que foi guia e esperança, denunciando a violência e reclamando o respeito à vida e à dignidade do povo submetido à guerra civil e à ditadura militar. Era a voz de Monsenhor Oscar Arnulfo Romero, aquele que viveu a conversão do coração e abraçou o caminho da Cruz, como fala São Paulo: “para alguns é loucura, para outros é vida e redenção”.



Romero suportou muitas incompreensões mesmo dentro da Igreja: sua vozseus seus apelos e denúncias não foram ouvidos no Vaticano. Haviam correntes ideológicas e má informação sobre o que ocorria em El Salvador. O simplismo conceitual e político reduziu toda a polarização Leste-Oeste, entre o capitalismo e o comunismo, baseado na Doutrina de Segurança Nacional imperante. Foram esquecidos os milhões de irmãos e irmãs vítimas da violência. Romero tentou ser ouvido e ajudado pelo Vaticano, mas saiu angustiado e regressou a seu país tocado pela dor. 

Alguns camponeses que o conheceram recordam que seguiam as homilias de Monsenhor Romero, sentiam necessidade de ouvir sua palavra e quando viajavam não precisavam do rádio, pois todos os vizinhos o traziam escondidos e, assim, podiam seguir a palavra do bispo pelo caminho. Romero sabia das ameaças de que era objeto, mas a força do Evangelho e seu compromisso com o povo eram parte de sua própria vida; na oração e no silêncio procurava escutar o silêncio de Deus, o que lhe dizia em seu coração, na sua mente, no seu espírito.



Contam que, em março de 1980, alguns jornalistas diziam que o bispo estava na raia, no limite da mira dos militares e ele, pressentindo, falou: “Sim, tenho sido frequentemente ameaçado de morte, porém, devo dizer-lhes que, como cristão não creio na morte sem ressurreição. Em caso de me matarem, ressuscitarei no meu povo salvadorenho. Afirmo a vocês, sem a menor soberba, com toda a humildade: Oxalá eles estivessem convencidos de que perderão o seu tempo! Um bispo morrerá, mas a Igreja de Deus, que é o seu povo, não perecerá jamais”.  

Há 35 anos, naquele dia 23 de março, Monsenhor Romero falou, na Catedral, sobre um comitê de ajuda humanitária. Criticou "o Estado de Sitio y a desinformação a que nos haviam submetidos” e lembrou as mortes da semana: 140 assassinatos... "O mínimo que se pode dizer é que o país está vivendo uma etapa pré-revolucionária”.

Em seguida continuou sua homilia e disse:... ”Eu gostaria de fazer um apelo especial aos homens do exército, mais exatamente às bases da Guarda Nacional, da Polícia e dos quartéis: Vocês são irmãos do mesmo povo, estão matando os seus próprios irmãos trabalhadores do campo! E diante de uma ordem de matar dada por um homem, deve prevalecer a lei de Deus que diz: ‘Não matarás!’.  Nenhum soldado está obrigado a obedecer uma ordem contra a lei de Deus. Não há que se cumprir uma lei imoral. Já é tempo que vocês recuperem sua consciência e obedeçam antes à sua consciência do que a uma ordem do pecado”.

A Igreja, defensora dos direitos de Deus, da dignidade humana, da pessoa, não pode ficar calada diante de tanta abominação. Queremos que o governo acredite que de nada servem as reformas, quando são banhadas de tanto sangue:Em nome de Deus, e em nome deste povo sofrido cujos lamentos sobem ao céu, cada dia mais tumultuados, eu lhes suplico lhes peço e lhes ordeno em nome de Deus: cessem a repressão!” A voz de Monsenhor Romero foi ouvida com clareza, apesar de todos os inconvenientes e das interferências nos equipamentos sonoros. "A catedral exultou em aplausos, o povo emocionado sentia o clamor em seus corações”. – Assim é o relato de Jacinto Bustilho e de Felipe Pick. (...)

Muitos mártires ofereceram suas vidas em terra salvadorenha, entre eles sacerdotes, religiosos e leigos comprometidos com as comunidades de base, que reclamavam o seu direito de viver sem violência e de construir a paz. Passaram-se muitos anos, e hoje o Santo da América, Oscar Romero, ilumina o caminhar da Igreja, sua palavra e seu testemunho de vida é luz do Espírito, como ele disse, no Natal de 1979:

"O país está parindo uma nova idade e por isso há dor e angústia, há sangue e sofrimento. Mas, como disse Jesus, a mulher no parto tem a sua hora de sofrer, no entanto, quando nasce o novo homem, ela já não se lembra das dores que sentiu. Estes sofrimentos passarão. Sentiremos, mais tarde, a alegria de termos sido cristãos nesta hora de parto, ligados na fé em Cristo, e isto não nos deixa sucumbir no pessimismo. O que agora parece insolúvel, beco sem saída, Deus já está marcando com uma grande Esperança. Esta noite é para vivermos o otimismo, embora não saibamos por onde, mas Deus trará à tona a nossa pátria e na nova hora sempre estará brilhando a grande novidade de Cristo”.


O Papa Francisco decidiu tirar do esquecimento este Mártir e Profeta, e nos trazer de novo o testemunho de Monsenhor Romero, luz da Igreja latino-americana, do Povo de Deus que reconhece os seus profetas em quem devem se inspirar para seguir o caminho da Fé e da Esperança.


É assim que, também agora, vai parindo o espírito do Homem Novo. A memória nos trás de volta os nomes de irmãos e irmãs de caminhada no continente dessa Terra Fecunda, tão presentes na vida dos povos, feito vozes proféticas da Igreja do nosso tempo. Lembramos, por exemplo, a voz de Monsenhor Leonidas Proaño, bispo de Riobamba, no Equador; No México, em Chiapas y Cuernavaca, as vozes dos bispos Samuel Ruiz y Sergio Méndez Arceo.

No Brasil, as vozes proféticas de Dom Helder Câmara  Arcebispo de Olinda e Recife-PE; Dom Paulo Evaristo Arns  Cardeal de São Paulo; Dom Pedro Casaldáliga, bispo de São Felix de Araguaya em Mato Grosso; Dom Tomás Balduino, bispo de Goiás; Dom Antonio Fragoso, bispo de Crateús-CE; Ernesto Cardenal, da Nicaragua; o Cardeal Silva Enriquez, do Chile, e Jorge Manrique  de  La Paz, na Bolivia. 


Outros irmãos e irmãs marcaram o mesmo caminhar na fé, como os  teólogos conhecidos internacionalmente, na época da Teologia da Libertação - como Gustavo Gutiérrez no Peru; Hugo Asmann, exilado na Bolivia; Juan Luis Segundo, do Uruguai; Leonardo Boff, Ivone Gebara e Frei Betto, do Brasil. E outros, ainda, na diversidade de outras vertentes religiosas, como a Igreja Evangélica Metodista com o testemunho dos bispos Federico Pagura, Carlos Gattinoni y Aldo Etchegoyen y seus mártires; e a Igreja Luterana, com o seu compromisso com os mais necessitados. Além do rabino Marshall Mayer, por seu trabalho em defesa dos direitos humanos.

Entre esses irmãos mencionados, muitos assinaram o chamado “Pacto das Catacumbas”, no final do Concílio Vaticano II, em Roma.  Naquela ocasião – em 1965 – eles foram convocados por Dom Hélder Câmara e, juntos, renovaram o seu compromisso de viver o Evangelho ao lado dos pobres.

Vamos, portanto, seguir o rastro daqueles que nos precederam no caminho da Esperança, em lutas de fé e compromisso social pelo reencontro da grande família humana. Todos esses estão presentes no Espírito do Senhor, na vida e na memória desses seus filhos, e na memória de “São Romero da América” que ainda caminha – através de nós – ao lado dos empobrecidos do continente latino-americano.


(*) Monsenhor Oscar Arnulfo Romero
15 de agosto de 1917 - 24 de Março de 1980

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Texto original, em espanhol, in: www.adolfoperezesquivel.org (24/03/2015) 
Tradução: vaniserezende.com.br

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Crédito Imagens:


1. Pintura de Adolfo Perez Esquivel  - www.adolfoperezesquivel.
2. Adolfo P. Esquivel - www.contrainjerencia.com
3. Pintura de Murillo - O filho Pródigo - 
4. Oscar Romero e as crianças - www,gracemeridiahill.org/2011
5. Catedral de San Salvador - www.tripadivisor.com
6. Oscar Romero ao microfone - www.dvkcommentarios.com
7. Dom Leônidas Proânio - www.adolfoperezesquivel.org
8. Dom Pedro Casaldaliga -  www.periodistadigital.com
9. Gustavo Gutierrez - www.brasildefato.com.br
10. Dom Hélder Câmara - Centenário - galeria de fotos.


Nota: As imagens publicadas neste blog - aqui creditadas - pertencem aos seus autores (inclusive aquelas dos arquivos do próprio blog). Se alguém possui os direitos de uma dessas imagans e deseja que e deseja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com

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