Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

A GRATUIDADE DO AMOR

24 de abril de 2015


Por vezes reproduzo, aqui, coisas escritas nas minhas agendas de anos atrás... Mas desta vez as anotações que encontrei são de uma pessoa que amei muito e que já fez sua viagem definitiva. 

Trata-se de uma breve reflexão sobre a "Comunhão", essa expressão tão significante na vida de cada um de nós: a comunhão com Deus, a comunhão com a pessoa amada, a comunhão com os amigos, com a família, com o povo da minha região, do meu país, e dos países pelo mundo afora... A comunhão nos momentos de dor e de alegria, a comunhão no silêncio e na escuta das preocupações e das alegrias do outro, a comunhão no amor. Segue o texto:

A comunhão não é um produto, é um acontecimento. 

A primeira condição para que a comunhão aconteça, é que a pessoa que ama consiga curtir e viver plenamente, na centralidade, a sua solidão. Viver é viver simplesmente e, portanto, é também estar só.

A segunda condição para a comunhão acontecer é que a pessoa que ama ame simplesmente, gratuitamente: 'No amor o que vale é amar'. 

A terceira condição para acontecer a comunhão é que 'aconteça' que a pessoa amada também proceda assim - no que diz respeito à vida na solidão e ao amor gratuito, como um dom ao outro.

A graça de se achar - de flutuar sem ansiedade nas ondas da vida - a graça de se sentir viver acontece quando alguém se abre gratuitamente para a vida. E esse estado de espírito também é, surpreendentemente, uma graça.

'Deus é paciência. O contrário é o diabo', é o que se lê em Grandes Sertões Veredas, de Guimarães Rosa: 

"Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há de gente perdida no vai-e-vem, e a vida é barra... Tendo Deus é menos grave se descuidar um pouquinho pois, no fim, tudo dá certo. Mas se não tem Deus, então a gente não tem licença nenhuma". 

Ao ler essas notas fiquei pensando quanto é verdadeira a ideia de que a comunhão é a unção que se dá pela presença do divino entre nós, dessa inefável e inexplicável presença que imanta a vida de uma leveza indizível, bem diferente da ideia de um deus que conhecemos talvez na infância e, quem sabe, descuidamos de atualizar. Um Deus que faz as contas contigo para te dar alguma coisa, que negocia as trocas, que pesa a força ou a grandeza de uma oração, que calcula o valor da oferta.  É o que muitos ainda cogitam ainda hoje, apesar da palavra de um homem que inundou de sabedoria e profundeza a história da humanidade e que se apresentou ao mundo como o Filho de Deus. Quando lhe perguntaram quem ele era, respondeu: "Eu sou aquele que sou". E, falando sobre a nossa relação com ele, sentenciou: "Eu quero a misericórdia e não o sacrifício".  


Ora, bem sabemos que o sentido da misericórdia é a compaixão, a piedade, o perdão, a indulgência, a clemência, enfim, a gratuidade do amor. E, mais uma vez, lembro a feliz expressão de Leonardo Boff para esse gesto: a 'carícia 
essencial'



Não seria essa a prece essencial e mais resolutiva para todas as enfermidades das relações humanas? 

A carícia essencial: o cuidado de agir - nas diferentes circunstâncias da vida - feito um dom para o outro. De tentar acolher o outro tal como ele é no momento presente; amanhã será 
outro dia. 

Com o meu gesto indulgente e pleno, talvez eu contribua para que o outro experimente a carícia de Deus. É assim que a gente descobre o quanto Ele parece "precisar" da nossa atitude amorosa, do nosso agir fraterno e compassivo para chegar ao outro. Sem interesse de retorno. Se o retorno vier, será a celebração da plenitude. 

Estou certa que essas não são coisas de aprender nem de ensinar. São realidades que precisam ser experimentadas na simplicidade do dia a dia, recomeçando a cada momento. Assim, possivelmente se chegue a saborear a infinitésima sensação da presença indizível do Inominável. 


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Créditos das imagens:

1. Omens of Hafez - detalhe. o.s.t. 134x100. Imán Maleki: pintor indiano - 2003. 


2. As garças - reprodução de um dos painéis decorativos do salão nobre do Teatro Amazonas, em Manaus, reproduzido no artigo "Natureza e Civilização" de Ana Maria Lima Daou - Instituto de Geociências da UFRJ -  in: www.scielo.br


3. Idem - Painel borboletas azuis - detalhe.



Nota: As imagens publicadas neste blog - aqui creditadas - pertencem aos seus autores (inclusive aquelas dos arquivos do próprio blog). Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens e deseja que e deseja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com

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