Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

A CULTURA DO TER

29 de abril de 2015


Economista brasileiro e professor universitário, o Prof. Marcus Eduardo de Oliveira é especialista em Política Internacional e mestre em Estudos da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP). É colaborador da "Agência Zwela de Notícias" (Angola) e do portal "Notícias Lusófonas" (Portugal). 

Sua opinião, sobre a cultura do ter nos põe em alerta, para ensaiarmos atitudes de melhor convivência com a Mãe Terra e - por que não dizer - definir uma atitude pessoal, familiar e social de preservação do ambiente que nos acolhe, neste planeta do qual tão pouco nos interessamos.  Segue seu artigo. 


A noção de limites - principalmente em relação à disponibilidade de recursos naturais e energéticos - foi completamente perdida por parte da atividade econômica. Extrapolou-se, por consequência, as fronteiras daquilo que se convenciona chamar de razoável, ponderável, aceitável, em termos de respeito à biosfera. Não por acaso é sintomática a percepção de que a raça humana desenvolveu mecanismos com mais facilidade para a "destruição” do que para a "preservação”, tendo em vista que, para a realização dessa última, é imprescindível o desenvolvimento de uma consciência coletiva.

As provas incontestes dessa falta de parcimônia para com o meio ambiente, contidas na completa ausência de um tipo específico de consciência planetária, talvez estejam presentes na prática e hábitos enraizados em diversas culturas que enaltecem, sobremaneira, o consumo excessivo, fazendo da aquisição material espécie de dogma para a promoção pessoal, verdadeiro cabedal paradigmático da conquista do progresso e do bem-estar.


Essa cultura do "ter”, vinculada intimamente ao ato de consumir, constantemente se sobrepõe e, por isso, afronta acintosamente a cultura do "ser” que, por sua vez, se liga às questões morais, éticas e mesmo de conduta pessoal. No caso específico do "ter”, é a materialidade que se expressa com força ímpar, penetrando no consciente dos mais vorazes consumidores, naqueles chamados suntuosos compradores, nos que estão (ou nunca estiveram) pouco preocupados com as consequências ao planeta de um consumo ostensivo. Em outras palavras, daqueles que pouco se importam se essa busca pelo progresso econômico e pelo bem-estar material será ou não inimiga da preservação ambiental; afinal, o que importa em matéria de respeitar as leis do mercado de consumo passa longe, mas muito longe, da necessidade em preservar o meio ambiente.


Esse excesso de produção/consumo – causador em primeiro plano da dilapidação dos recursos naturais – está expresso nos 20% da humanidade residente nos países mais avançados que se apropriam de 80% de toda a produção material mundial. Isso faz com que, em larga medida, não haja uma adaptação das atividades econômicas às leis da natureza. Se houvesse, os níveis de produção e consumo seriam indubitavelmente mais cônscios e menos agressivos.

Contudo, como a ordem que vem do mercado aponta para a "necessidade” de se produzir (sempre mais e mais), para com isso promover o crescimento econômico, a única "consciência” que parece se estabelecer, se dá em torno de fazer com que o "ter” prevaleça sobre qualquer condição. Por isso se constata o confronto latente entre o sistema econômico (que se expande sem limites) e o sistema ecológico (que decreta os limites não respeitados pela atividade econômica).

Disso decorre afirmar, igualmente, que os processos econômicos e sociais nunca estiveram essencialmente a serviço da vida, dificultando assim a criação dessa consciência planetária em torno de se buscar, primordialmente, a partir da ação individual, o compromisso com o planeta (nossa Casa Comum – Gaia, no dizeres dos gregos), com a preservação das espécies (parceiros de nossa convivência) e com o cuidado específico em relação à não dilapidação frenética dos serviços ecossistêmicos (indispensáveis ao nosso viver).

Essa falta de consciência planetária – especificamente em relação aos serviços ambientais – enaltecida  pela cultura do "ter”, leva a graves distúrbios. Por isso, é comum que muitos saibam até mesmo explicar os valores dos produtos, mas são incapazes de mensurar os valores da natureza. Em geral, sabe-se com facilidade o preço (custo) de uma mesa feita de mogno, mas não se sabe o "custo” que representa a derrubada de um Jequitiba de 200 anos.

O que passa a "valer mais” são as mercadorias, não a natureza e os recursos dela extraídos para a fabricação dessas mercadorias. Lamentavelmente, tem-se aqui uma acintosa inversão de valores. "Ter” vale mais que "Ser”. "Comprar” vale mais que "Preservar”, e "Produzir” se torna sinônimo de "Progredir”, mesmo que isso custe "Destruir” o meio ambiente, o "Eco” (casa).

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Foto de Marcos Eduardo de Oliveira - http://alagoasnanet.com.br/blog 
Outras imagens - canstockphoto


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