Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

A TOLERÂNCIA

5 de fevereiro de 2015

Trago a este blog mais um artigo de Leonardo Boff - publicado no seu site em 22/01/2015 - por me parecer uma excelente visão sobre a atitude da intolerância, tão enraizada em nossa cultura e tão distanciada do gesto fraterno da compreensão, da inclusão e da condescendência com as nossas diferentes diferenças - que "diferentes" somos todos, isto o sabemos muito bem. Como sempre, este homem iluminado - acolhido no Brasil, há muitas décadas, como um brasileiro entre nós - nos convida a refletir,  sem rodeios e em profundidade, sobre um assunto que nos questiona a todos. 


LEONARDO BOFF wordpress.com (*)
Publicado em 22/01/2015
  
O assassinato dos chargistas franceses do Charlie Hebdo recentemente, e a última eleição presidencial no Brasil trouxeram à luz um preconceito latente no mundo e na cultura brasileira: a intolerância. Restrinjo-me a esta, pois a outra, a do Charlie Hebdo foi abordada num artigo anterior.
A intolerância no Brasil é parte daquilo que Sergio Buarque de Holanda chama “cordial”, no sentido de ódio e preconceito, que vem do coração como a hospitalidade e simpatia. Em vez de cordial eu preferiria dizer que o povo brasileiro é passional.

O que se mostrou na última campanha eleitoral foi o “cordial-passional”, tanto como ódio de classe (desprezo do pobre) como de discriminação racial (nordestino e negro). Ser pobre, negro e nordestino implicava uma pecha negativa e aí o desejo absurdo de alguns de dividir o Brasil entre o Sul “rico” e o Nordeste “pobre”. Esse ódio de classe se deriva do arquétipo da Casa Grande e da Senzala introjetada em altos setores sociais, bem expresso por uma madame rica de Salvador: ”os pobres não contentes com receber a bolsa família, querem ainda ter direitos”. Isso supõe a ideia de que se um dia foram escravos, deveriam continuar a fazer tudo de graça, como se não tivesse havido a abolição da escravatura. Os homoafetivos e outros da LGBT são hostilizados até nos debates oficiais entre os candidatos, revelando uma intolerância “intolerável”.

Para entender um pouco mais profundamente a intolerância importa ir um pouco mais a fundo na questão. A realidade assim como nos é dada é contraditória em sua raiz; complexa, pois é convergência dos mais variados fatores; nela há caos originário e cosmos (ordem), há luzes e sombras, há o sim-bólico e o dia-bólico. Em si, não são defeitos de construção, mas a condição real de implenitude de tudo que existe no universo. Isso obriga a todos a conviver com as imperfeições e as diferenças. E a sermos tolerantes com os que não pensam e agem como nós. Traduzindo numa linguagem mais direta: são polos opostos mas polos de uma mesma e única realidade dinâmica. Estas polaridades não podem ser suprimidas. Todo esforço de supressão termina no terror dos que presumem ter a verdade e a impõem aos demais. O excesso de verdade acaba sendo pior que o erro.

O que cada um (e a sociedade) deve sempre saber é distinguir um e outro polo e fazer a sua opção. O indicado é optar pelo polo de luz, do sim-bólico e do justo. Então o ser humano se revela um ser ético que se responsabiliza por seus atos e pelas consequências boas ou más que deles se derivam.

Alguém poderia pensar: mas então vale tudo? Não há mais diferença? Não se prega um vale tudo nem se borram as diferenças. Deve-se, sim, fazer distinções. O joio é joio e não trigo. O trigo é trigo, não joio. O torturador não pode ter o mesmo destino que sua vítima. O ser humano não pode igualar a ambos nem confundi-los. Deve discernir e optar pelo trigo, embora o joio continua existindo, mas sem ter a hegemonia.


Para fazer coexistir, sem confundir estes dois princípios, devemos alimentar em nós a tolerância. A tolerância é capacidade de manter, positivamente, a coexistência difícil e tensa dos dois polos, sabendo que eles se opõem, mas, que com-põem a mesma e única realidade dinâmica. Impõe-se optar pelo polo luminoso e manter sob controle o sombrio.

O risco permanente é a intolerância. Ela reduz a realidade, pois assume apenas um polo e nega o outro. Coage a todos a assumir o seu polo e  anula o outro, como o faz de forma criminosa o Estado Islâmico e a Al Qaeda. O fundamentalismo e o dogmatismo tornam absoluta a sua verdade. Assim, eles se condenam à intolerância e passam a não reconhecer e a não respeitar a verdade do outro. O primeiro que fazem é suprimir a liberdade de opinião, o pluralismo, e impor o pensamento único. Os atentados como o de Paris têm por base esta intolerância.


É imperioso evitar a tolerância passiva, aquela atitude de quem aceita a existência com o outro não porque o deseje e veja algum valor nisso, mas porque não o consegue evitar. Há que se incentivar a tolerância ativa que consiste na coexistência, na atitude de quem positivamente convive com o outro porque tem respeito por ele, e consegue ver os valores da diferença e assim pode se enriquecer.

A tolerância é, antes de mais nada, uma exigência ética. Ela representa o direito que cada pessoa possui de ser aquilo que é e de continuar a sê-lo. Esse direito foi expresso universalmente na regra de ouro: “Não faças ao outro o que não queres que te façam a ti”. Ou formulado positivamente: ”Faça ao outro o que queres que te façam a ti”. Esse preceito é óbvio.

O núcleo de verdade contido na tolerância, no fundo, se resume nisso: cada pessoa tem direito de viver e de conviver no planeta Terra. Ela goza do direito de estar aqui com sua diferença específica em termos de visões de mundo, de crenças e de ideologias. Essa é a grande limitação das sociedades europeias: a dificuldade de aceitar o outro seja árabe, muçulmano ou turco e, na sociedade brasileira, o afrodescendente, o nordestino e o indígena. As sociedades devem se organizar de tal maneira que todos possam, por direito, se sentir incluídos. Daí nasce a paz que, segundo a Carta da Terra, é ”a plenitude criada por relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, com outras culturas, com outras vidas, com a Terra e com o Todo maior da qual somos parte” (n.16 f).
A natureza nos oferece a melhor lição: por mais diversos que sejam os seres, todos convivem, se interconectam e formam a complexidade do real e a esplêndida diversidade da vida.

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 (*) Leonardo Boff é teólogo e filósofo - colunista de: Carta Capital , Carta Maior e JBonline.

Crédito Imagens: www.canstockphoto.com.br

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