Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

A MALEDICÊNCIA

20 de fevereiro de 2015

Foi mesmo assim, como estou te dizendo... Fiquei boquiaberta! Ela me contou que a sua vizinha lhe garantiu, assim, por baixo dos panos, que a coisa é séria... Todos da família estão preocupados – foi a amiga da tia dela que confirmou: a menina saiu de casa, durante o carnaval, e nem sequer telefonou pra dizer onde estava; certamente andando por aí... Deus me livre! A coisa vai embananar, quero só ver! Coitados, também, vivendo daquele jeito, como se o mundo fosse deles, né?... Tenho muita pena, estou rezando pela coitada da mãe, tão sofredora... 

Rezando pela coitada da mãe... Uma atitude tão piedosa e tão cheia de boas intenções quanto de palavras jogadas ao vento. É uma doença muito perigosa: falar da vida alheia, passar adiante o que fulano contou do que sicrano disse sobre a vida de beltrano... Espalha-se o fogo ardente do mexerico, que um bom dicionário chama de babado, bisbilhotice, boato, calúnia, detração, disse que disse, enredo, difamação, falatório, fofoca, futrica, fuxico, indiscrição, injúria, intriga, mexericada, tecedura, trica... O que já nos dá uma ideia de quanto seja antiga e alastrada essa prática tão substantivada, que se poderia sintetizar com um só verbete: maledicência.

E não se dá conta de como essa prática está prenhe de semancol – nos telefonemas informais, nas curtições do facebook, nos recadinhos do WhatsApp ou nas twitadas do dia a dia. Chega-se mesmo a pensar que o fuxico é "informação" ou "troca de impressões" bem intencionadas. É assim que se escorrega na ladeira da intriga e do boato, sem calcular o gesto discriminador, sem diferençar o público do privado, sem discernir o lado “do outro” ou “dos outros” atingidos pelo desacerto de uma fala inconsequente.

Para os brasileiros nordestinos, um exemplo foi o “troco” que se deu aos cidadãos paulistas, com gozações, desenhos, piadinhas de mau gosto, logo que a mídia noticiou a falta d´água que eles estão sofrendo, especialmente os tantos pobres que vivem na periferia. Chegou-se até a esquecer a nossa realidade, da secura do sertão, como se a secura de lá fosse diversa da nossa, porque “eles, sim, estão a merecer, pelo que já desdenharam de nós”.

A intriga adquire, portanto, o sabor do revide, da desforra. E lá se foi ao brejo a nossa consciência cidadã, empobrecida pelo estreitamento de uma visão aparentada com a maledicência não só na linguagem, mas na leitura dos fatos, na falta de discernimento, ao nos apartar do diferente de nós, generalizando a mesmice de quem não consegue enxergar além de si mesmo, da sua máscara, do seu quintal.


Se não se está atento, se não se cuida de exercitar os valores de uma civilidade que busca lançar pontes (“faz a ponte, faz a ponte”, canta Lenine), se o meu olhar não aprende a espraiar-se para além das diferenças, o que se poderá legar às gerações que virão de nós e dos filhos de nossos filhos?
Mas, talvez não baste apenas lançar pontes de boa convivência, muitos ainda querem mais, aspiram não apenas a grandeza de caráter, mas o gesto acolhedor de quem descobre nas diferenças aquilo que lhe falta, que o enriquece, que agrega valor ao seu aprendizado, e o enobrece.

É indispensável que se mantenha um cuidado permanente com a educação da nossa atenção cidadã, com a prática da escuta acautelada e as distraídas curtições, no Facebook, para não se escorregar no descuido do falatório impensado. E, se alguém desejar ir mais além, experimente a reciprocidade: a troca de ideias e saberes, a partilha de talentos e atenções, a oferta de serviços e competências, a doação de si mesmo pelo bem comum.

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Créditos Imagens: 

1. Cantores de Francisco Brennand - Entrada da Offcina (Memorial)Recife-PE
2. Gesto solidário - www.canstockphoto.com.br
3. Jesus - Pintura de Rembrand - vejabril.com.br

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma dessas imagens e deseja que ela seja removida deste espaço, por favor entre em contato com: vrblog@hotmail.com


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