Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

MINHAS TARDES COM MARGHERITTE

27 de janeiro de 2015

Uns quarenta e cinco anos ele poderia ter: gorducho de compleição, desengonçado, analfabeto, vestido quase sempre de macacão, girovagava pela cidade no seu carro de serviço muito bem conservado, a entregar hortaliças orgânicas e viçosas – era o seumétier, ele mesmo as cultivava no vasto quintal da casa onde vivia com sua mãe. Sua característica era assumir para si tarefas de outros, na tentativa de ajudá-los, mas era desajeitado e rude, e assim ficara conhecido na pequena cidade. Os seus problemas eram muitos, se sabia, mas o que não se percebia era que faltava-lhe uma causa raiz na sua história de vida: não se desvendava o porquê daquela sua tristeza fundamental, daquela saudade intensa do que lhe carecera na infância – sua mãe, tremendamente implicante, até debochada, o desmerecia a cada ralho, por qualquer coisa ele fizesse, fosse o que fosse: como se não o pudesse suportar..


Pensando bem, não era só a mãe que o menosprezava: na idade adulta, os comentários habituais dos companheiros – que amigos não havia – eram de depreciação; em muitas situações era ridicularizado, mesmo quando se esforçava para apoiar um deles, demostrando interesse por suas vidas. Toda vez, sem exceção, aqueles gestos de rejeição o faziam retroceder no tempo, lembrando os fatos em que não fora aceito, na infância, insultado que fora até na escola, por ser alto e gorducho e, especialmente, por não conseguir ler qualquer trecho que o professor indicasse; assim, professor e alunos o insultavam, a desmerecê-lo. Ainda lhe soavam os insultos do professor, e as risadas da criançada na sala de aula, a divertirem-se da sua incapacidade, daquele terrível limite que carregava.

Mesmo assim havia alguém que parecia compreendê-lo, pois o escutava, valorizava suas ideias, encontrava nele capacidades de que ele nem se dava conta. Era a sua namorada, uma jovem motorista, com quem Germain se encontrava no final do dia, quando ela saia a recolher o ônibus que dirigia de uma cidade a outra. Era uma mulher bonita e de grande sensibilidade: sabia amá-lo assim como ele era, com aquele jeito tímido e desengonçado.

Todas as tardes, enquanto a esperava, ele ia conversar com "seus" pombos, numa praça recuada: sabia quantos eram e os reconhecia tão bem que os nomeou um a um, por suas características. Uma vez, Germain foi surpreendido, na praça, com a chegada de uma velha de cerca noventa anos, magra, pernas finas e ágeis. Era uma mulher vivaz que, para sua maior surpresa, demonstrara interesse em saber quantos eram os pombos e quais os seus nomes, fazendo-o apresentar-lhe todos. No dia seguinte ela voltara, com seu vestido florido e sua grande simpatia. Nos outros dias também e, então, ficaram sabendo o que cada um fazia, ela vivia num asilo de velhos, ali por perto... Conversavam como se fossem amigos de longa data, era assim que lhe parecia. Cientista que fora à sua época de trabalho, na OMS, Margueritte – assim se chamava, com dois tt – ficou sabendo que Germain sequer havia concluído o curso básico, e pouco a pouco conhecera a sua triste história. Os encontros dos dois continuavam, para sua alegria...

Certa vez Margueritte chegou e, após as costumeiras saudações, colocou seus óculos, pegou um pequeno livro, na sua grande bolsa, e disse a Germain que estava lendo uma interessante história. E, surpreendendo-o mais ainda: perguntou se ele não se incomodava de ouvir a sua leitura em voz alta, pois era assim que ela gostava de ler...


Desde aquele dia Germain escutava as leituras de Margueritte com profundo interesse, e era capaz de lembrar fatos, como aquele da peste de ratos que invadiram uma cidade, do livro “A Peste” de Camus. Depois, ouvira a leitura de um romance... A amizade se firmou e Margaritte convidou Germain para tomar chá no espaço onde vivia. Germain estava envolvido e muito feliz por experimentar, pela primeira vez, o sentimento da amizade: uma pessoa estranha que o considerava, que lhe falava coisas bonitas, e que o fizera descobrir o quanto era bom ouvir as histórias dos livros, lidas assim, em voz alta.  

No dia do chá ele levou um buquê de flores do seu jardim. Chegando à casa que abrigava Margheritte descobriu que ela tinha muitos livros, com histórias maravilhosas... Ela, por sua vez, percebera o quanto ele era capaz de referir frases inteiras dos livros que haviam lido juntos, aquela sua atenção brilhante que ela havia percebido. Até os companheiros de Germain estavam notando que alguma coisa mudava naquele grandalhão... 

Essas são algumas impressões que me ficaram de uma história comovente e carregada de poesia, sobre a vida de alguém que, desde criança, era conhecido por um gordo   amalucado, desnorteado... Uma história criada pela escritora Marie-Sabine Roger, autora do livro que deu origem ao filme La tête en friche.[1]  Uma história que poderia acontecer na vida real, com diferenças de personagens e de lugar, sempre que alguém tiver um olhar atento e sensível, carregado daquela “carícia essencial” que parecia mover a vida da velha Margueritte

Um homem, aparentemente bobo, não escapara ao seu cuidado, à sua atenção sincera e ativa. É o que nos conta o filme, estrelado pelo experiente ator Gérard Depardieu e por Gisèle Casadesus, a comovente velha Margueritte  –  dela, o homem que não era bobo aprende não só o prazer da leitura, mas a responder, com ativa reciprocidade, a atenção que recebera da sua amizade. A surpresa final que Germain teve em relação à sua mãe, também é carregada da mesma lição, que nos alerta como as pessoas nem sempre são “apenas” aquilo que aparentam...

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Crédito Imagens: divulgação pública.

Capa do livro - divulgação.
Foto - palasathenas.org.br



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O filme, dirigido por Jean Becker, é intitulado, no Brasil: “Minhas tardes com Margueritte”, e pode ser visto no site: www.netflix.com.br

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