Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

LIBERDADE, JUSTIÇA, FRATERNIDADE

7 de dezembro de 2014



O sistema de alerta policial do município do Recife, em Pernambuco (Brasil), montou um serviço de registro visual de lugares estratégicos, com maior movimento, de modo a controlar situações de furto, roubo ou atos de maior violência contra os pedestres que circulam no centro da cidade. Após alguns dias, o grupo responsável se reuniu para estudar os registros mais significantes que sugerissem alguma nova estratégia para o policiamento local.

As cenas da filmagem os surpreendeu: um jovem rapaz dava a mão a uma velha senhora, ajudando-a a atravessar a rua; outro, que caíra da bicicleta na calçada movimentada, era ajudado por um passante; o detalhe curioso é que, cada um deles vestia a camisa de um dos dois times adversários da cidade; mesmo assim, um ”adversário” acudiu o outro prontamente. O registro demonstrava detalhes de uma população de rua cordial e solidária nas calçadas do Recife. Um jornalista da TV Globo local procurou a psicóloga Letícia Rezende, solicitando que ela explicasse aos expectadores, por ocasião da apresentação do vídeo, esse fenômeno – pelo menos aqui, no nordeste brasileiro – nas relações de pessoas geralmente mais pobres, como se define o povo que costuma caminhar pelas ruas do centro da cidade. 

A consideração que se ouviu da psicóloga foi igualmente instigante: se os registros falam de uma população geralmente atenciosa uns com os outros, está aí o resultado: “a gentileza gera gentileza”, ela enfatiza, no vídeo divulgado inclusive no Jornal Nacional, como uma “descoberta” merecedora de divulgação.[i]  E o era. No Youtube podem ser encontrados inúmeros vídeos com esse enfoque. No entanto, fiquei a pensar: se a pesquisa pudesse registrar os “diálogos” – de gestos e palavrões – entre algumas pessoas que se movimentam de automóvel, no mesmo território, o comentário seria bem outro: mau humor e desrespeito às leis de trânsito; latinhas de bebidas e sacos de pipoca jogados da janela dos carros em movimento; fezes de cachorrinhos bem tratados deixadas nas calçadas do próprio edifício onde vivem (por que seria "eu a limpar isso?)... E quantos outros aborrecimentos... 

A atenção ao outro é um gesto cada vez mais instigante e necessário nas relações humanas do nosso tempo, pois desperta a sensibilidade do outro que se sente atendido, respeitado, escutado, apoiado, considerado, valorizado. Valores, esses, que se integram na dinâmica do cuidado, ou – para entrarmos no espírito do Natal que se aproxima – no espírito da fraternidade. Mas, a nossa contemporânea sociedade contemplada pelo bem-estar, tem-se distanciado cada vez mais da benevolência, e assumido atitudes mais irmanadas com o sentimento do poder e do ter. O “ser” se empobrece, e vai criando uma camada de estremecimento e de limitação para o diálogo com o outro, o diferente de si. Já ouvi de uma pessoa muito querida uma significante afirmação neste sentido: “Nós, os ricos, estamos melhor entre os ricos”. 



Um olhar sobre a recente história das lutas dos povos, no ocidente, nos trazem alguma luz, pois foram mobilizadas por grandes ícones que levaram o seu povo a empunhar as bandeiras da liberdade e da igualdade. Na história mais recente do século XX é-nos espontâneo lembrar Manrathan Ghandi, o pacífico mobilizador político inglês, na conquista da independência da Índia; Martin Luther King, foi um líder pacífico do movimento negro nos Estados Unidos; sem esquecer os ilustres estadistas africanos: Samora Machel, de Moçambique, e Nelson Mandela, da África do Sul. Na América do Sul, guardamos a lembrança viva de centenas de revolucionários que lutaram contra as ditaduras militares da época, especialmente no Chile, no Brasil e na Argentina. Os líderes mais lembrados são Maringhela, no Brasil, e Miguel Allende, na Argentina.



Entre as lideranças citadas, alguns se sobressaem por sua tentativa de instaurar valores que proveem do conceito da fraternidade, no processo da conquista da liberdade e da igualdade do seu povo. Manhatan Ghandi, por exemplo, (1869/1948), vivenciou o espírito da luta pacífica e ativa, dando ênfase a grandes e pequenos gestos ao longo do processo da independência da Índia. Os africanos Samora Machel (1933/2013) e Nelson Mandela (1918/2013) também optaram em construir, com o seu povo, a liberdade e a igualdade fundamentadas em uma tradição de cordialidade: Samora Machel, por ter conseguido – após a revolução da independência de Moçambique – construir o equilíbrio democrático na convivência e na organização política das inúmeras tribos presentes na ilha; Mandela, por ter liderado e integrado, com equidade, as forças representativas dos negros e brancos que formam o povo da África do Sul. Sem a referência da fraternidade, a liberdade e a igualdade perderiam a força e a mobilização do sentimento de pertença, de semelhança, de de partilha fraterna. Nelson Mandela encontrou essa referência em sua adesão total à espiritualidade “Ubuntu” que exprime, na sua prática, vivências e valores também encontrados na fraternidade cristã.[ii] 

Che Guevara – o revolucionário que se tornou um ícone incomum na história das lutas pela liberdade e pela igualdade dos povos latino-americanos – deixou-nos um legado no seu testemunho pessoal e nas inúmeras citações da sua filosofia de vida, que geralmente causam um grande impacto: “Todos los dias hay que luchar por que ese amor a la humanidad viviente se transforme en hechos concretos,  en actos que sirvan de ejemplo, de movilización”. Em outra ocasião, ele fala do seu método de conservar o amor à humanidade: “Todos los dias la gente se arregla el cabello, por que no el corazón?[iii]






Em Portugal, na Europa, após a longa ditadura salazarista, a conquista pacífica da democracia foi uma forte demonstração da dignidade de suas lideranças e da vontade do povo de construir a paz, o que promoveu uma esfuziante mobilização no continente e nas colônias africanas da época. Mario Soares (1924), foi um dos grandes líderes do movimento, e se tornou o primeiro ministro do novo governo republicano.



A campanha dos portugueses culminou com um entusiasmado e histórico movimento chamado de “a revolução dos cravos” (1974), quando se via pelas ruas mulheres e homens entregando cravos aos militares, que se misturavam com todos nas ruas de Lisboa. Em 2014 Mário Soares, aos 90 anos, comemora, em Lisboa, os 40 anos da "revolução" portuguesa, ao lado do amigo Lula da Silva.




[i] www.youtub/gentilezageragentileza
[ii] https://plus.google.com/+VaniseRezende/posts
[iii] www.quemdisse.bom.br/frases.asp?

Tradução das citações de Che Guevara: 

= "Todos os dias há que lutar para que esse amor à humanidade vivente se transforme em fatos concretos, em atitudes que sirvam de exemplo, de mobilização".
=  "Todos os dias as pessoas arrumam os cabelos, e por que não o coração?"

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Créditos das imagens:

1. Centro do Recife - fotografia de Luna Markman/G1 in: www.jailsonrecifemobilidade.blogspot.com
2. Duas amigas - arquivo do blog.
3. Mobilização de estudantes no Chile, em 2011. In: wikicommons - www..sul21.com.br
4. Mural comemorativo das primeiras eleições na África do Sul com a participação dos negros - Foto de 
    Carwill James - 27/04/1994 - Cabo, Africado Sul. in: www. commom.wikimedia.org.br
5. Che Guevara - fotografia de divulgação in:www.quemdisse.com.br
6. Revolução dos Cravos - Lisboa-Portugal. In: www.outerpaces.terra.com.br
7. Revolução dos Cravos - 40 anos.. Lisboa, 25/04/2014. Fotografia de Ricardo Strecket/Instituto Lula  In: www.institutolula.org/mariosoares



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