Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

A POBREZA E OS POBRES

18 de novembro de 2014


Na sociedade consumista contemporânea, a porção que pode consumir para além das necessidades fundamentais  com o ganho do próprio trabalho ou com a sua riqueza – jamais está satisfeita com o que tem. Há, no entanto, uma maioria de necessitados endógenos que não fazem parte dessa porção: esses são os miseráveis  uma invenção do sistema econômico capitalista  que dependem de soluções da gratuidade social ou do beneplácito de projetos governamentais.  

A porção dos que vivem da benesse, da renda do seu trabalho ou do salário mínimo (no caso do Brasil) é atingida por uma surreal sensação consumista que os bancos, os shoppings centers e a propaganda compulsiva insistem em acelerar e infiltrar, sutilmente, como verdadeiras bombas subliminares, para que haja sempre mais consumidores, sempre mais desejo de abundância e até mesmo de ostentação. O que se constata é que os estragos poluentes dessa bomba consumista atingem, igualmente, ricos, medianos e a chamada "classe c" dos consumidores. Nós, os da classe média alta brasileira, sabemos muito bem o que isto significa. E se não cuidarmos de nos manter ligados à nossa escolha pessoal da sobriedade, mandamos “ao brejo” os nossos melhores ideais de um estilo de vida coerente com a sociedade que desejamos.

É bem verdade que a riqueza e a pobreza – nos seus significados etimológicos e linguistas de verbetes universais – assim como a felicidade e a infelicidade, o ser e o ter, o bem e o mal, o amor e o desamor são dicotomias que dependem da realidade e da cultura de cada época, de cada povo, de cada movimento, de cada grupo e, de consequência, do entendimento de cada indivíduo por esse mundo afora. Estão aí os economistas e os idealistas de todos os tempos para nos estimular, ajudar ou confundir.

Mesmo se nos detivermos apenas ao universo da história do Brasil, teremos visões geográficas, antropológicas, filosóficas, econômicas e sociológicas da “pobreza” que nos deixarão em dificuldade de encontrar a designação mais apropriada. 


Bastaria que considerássemos nossas raízes aprofundadas no período colonial, berço do povo que hoje somos: inicialmente representado por diferentes povos indígenas, cujas tribos foram perseguidas e muitas delas dizimadas; e, mais tarde, enriquecido pela miscigenação dos índios e negros africanos com os portugueses, holandeses e franceses. Somos, portanto, um povo nascido da “colonização” e da “escravidão”, dominado por tal sentimento de submissão que, como afirma Leonardo Boff, chegamos a “assumir as formas políticas, a língua, a religião e os hábitos do colonizador português”. 




Assim continua Boff – “criou-se a Casa Grande e a Senzala. Como bem mostrou Gilberto Freyre, não se tratam de instituições sociais exteriores. Elas foram internalizadas na forma de um dualismo perverso: de um lado o senhor que tudo possui e manda e do outro o servo que pouco tem e obedece”. O que gerou “a hierarquização social que se revela pela divisão entre ricos e pobres”. “Cabe recordar – enfatiza Boff  – que houve uma época, entre 1817-1818, em que mais da metade do Brasil era composta de escravos (50,6%). Hoje, cerca de 60% do povo brasileiro possui algo em seu sangue de afrodescendentes. O catecismo que os padres ensinavam aos escravos, era o da ‘paciência, da resignação e da obediência’; aos escravocratas se ensinava ‘moderação e benevolência’, coisa que, de fato, pouco se praticava”.


E conclui: “As consequências dessas duas tradições estão no inconsciente coletivo brasileiro, não tanto em termos de conflito de classes (que também existe), mas, antes, de conflito de status social. Diz-se que o negro é preguiçoso, quando sabemos que foi ele quem construiu quase tudo o que temos em nossas cidades; que o nordestino é ignorante porque vive no semiárido sob pesados constrangimentos ambientais, quando é um povo altamente criativo, desperto e trabalhador. Do Nordeste nos vêm grandes escritores, poetas, atores e atrizes. No Brasil de hoje o Nordeste é a região que mais cresce economicamente, na ordem de 2-3%, portanto, acima da média nacional. Mas os preconceitos o relegam à inferioridade”.[i] 

Compreende-se porque a pobreza não se restrinja a um conceito, mas represente a vida real de populações ‘desfuturalizadas’, sem condições de sonhar com moradia adequada, trabalho formal, escola, esgoto e saúde.
           
O economista italiano, professor Luigino Bruni, responsável internacional do projeto “Economia de Comunhão”, escreve:


" Antes de poder falar da boa pobreza é necessário olhar bem nos olhos da pobreza ruim e, possivelmente, experimentar um pouco da sua realidade. Mas, a consciência do risco sempre real de cair na retórica burguesa do louvor da boa pobreza (a dos outros, nunca conhecida nem tocada), não nos deve impelir ao ponto de cancelar uma verdade ainda mais profunda: o processo de saída das ciladas da miséria e da indigência, começa sempre por valorizar aquelas dimensões de riqueza e de beleza presentes nos ‘pobres’ que se gostaria de ajudar. Porque quando não se parte do reconhecimento desse patrimônio, quase sempre escondido, mas real, os processos de desenvolvimento e de ‘capacitação’ dos ‘pobres’ são ineficazes ou mesmo danosos, porque inexiste a estima do outro e das suas riquezas, e, portanto, falta a experiência da reciprocidade das riquezas e da pobrezas". (Grifo nosso).
       
Existem muitas pobrezas dos ‘ricos’  continua Bruni  que poderiam ser curadas pelas riquezas dos ‘pobres’, se pelo menos se conhecessem, se encontrassem, se tocassem. E se não recomeçarmos a conhecer e a reconhecer a pobreza - todas as pobrezas - não poderemos voltar a fazer a boa economia que ressurge da fome de vida e de futuro dos seus pobres“.[ii]

O pensamento de Bruni toma corpo e vida nas palavras de papa Francisco, dirigidas aos representantes de movimentos sociais de todo o mundo, recentemente reunidos em Roma:

"(...) Os pobres já não se contentam com promessas ilusórias, desculpas ou pretextos. Também não estão esperando, de braços cruzados, a ajuda de ONGs, planos assistenciais ou soluções que nunca chegam e, se chegam, vêm com a intenção de anestesiá-los ou domesticá-los. Isto é meio perigoso. Vocês sentem que os pobres já não esperam, mas querem ser protagonistas, se organizam, estudam, trabalham, reivindicam e, sobretudo, praticam essa solidariedade tão especial que existe entre os que sofrem, entre os pobres, e que a nossa civilização parece ter esquecido ou, ao menos, tem muita vontade de esquecer...". E enfatiza: “A cultura do descarte se estabelece quando no centro de um sistema econômico está o deus dinheiro e não o homem”.[iii]


Esta é a reflexão que venho fazendo nesse período em que o brilho da "árvore de Natal" nesse nosso país tropical  e a sacola de presentes do sorridente "papai Noel" estão cada vez mais a deixar anuviada, diria quase ao esquecimento, na sociedade contemporânea, a celebração do aniversário do filho do carpinteiro que revolucionou o grande império romano.

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[i]  Boff, Leonardo."Quão cordial é o povo brasileiro?" -  In: LeonardoBoff.wordpress.com - 31.10.2014
[ii] Bruni, Luigino. La Profezia e la Ingiustizia. In: Avvenire, 27.10.2013.
[iii] Francisco, papa. Discurso aos participantes do evento "Terra" dos Movimentos Sociais de todo o mundo, reunidos no Vaticano (28.10..2014).
     In: HIU - Instituto Humanitas Usininos (31.10.2014).


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Créditos imagens:

1. Mesa festiva - www.recantodasletras.com.br-ceia
2. Debret - in:bahia.ws
3. Pintura:Casa Grande e senzala - mec.materialescolar-domínio-público.
4. Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), + de 20 mil participantes na capital paulista. 
     In: Carta Capital.9.06.2014. Fotografia de Alex Silva (Estadão Conteúdo).
5. João Pedro Stédile - um dos principais líderes do MST que envolve cerca de 1,5 milhão de membros, cumprimenta o papa Francisco, no Vaticano, em 28/10/2014.


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