Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

UM CORAÇÃO REVOLUCIONÁRIO

6 de setembro de 2014

 MARLUZA CORREA LIMA



Recordo dela como uma ventania permanente e forte, como um sigilo profundo e indelével no coração, como uma densa expressão de plenitude, atenção e afeto, uma presença de vida genuína que se dedicou a cuidar da dura história do seu povo e da história pessoal dos que conheceu na escuridão dos tempos da ditadura militar.

Quando nos conhecemos éramos colegiais no Recife, ambas de famílias abastadas e pais preocupados com a boa educação de seus filhos. Nossas mães tinham muito em comum: simpatia, ternura imensa, capacidade de acolher os amigos dos filhos como fossem os próprios, e de entender a nossa busca contínua de autenticidade e de fraterna convivência. A participação que tinham nas nossas aventuras era a de nos preparar boas comidas e misturas de frutas e verduras, conhecidas como vitaminas.  Mantinham abertas as portas de casa como abrigo carinhoso para o nosso cansaço e o nosso afazer.

De início minha família ainda residia no sertão do Moxotó e eu morava numa pensãona casa dela eu tinha o meu refúgio quando caía doente ou precisava de repouso. Éramos duas grandes sonhadoras, mas com os pés assentados no chão, o nosso chão ainda acarinhado com os mimos e a atenção das nossas famílias.




Até que chegou o tempo em que ambas nos enamoramos de uma ideia inovadora de convivência fraterna: a espiritualidade iniciada por Chiara Lubich, na pequena cidade de Trento, no norte da Itália, chegou aos nossos ouvidos e invadiu a nossa vida – uma notícia auspiciosa trazida por um jovem sacerdote, recém-chegado de seus estudos na Universidade Gregoriana de Roma. Ele nos convidara a abraçar essa novidade: nova não porque já não houvéramos iniciado uma experiência de vida cristã, mas porque nos instigava à vida comunitária, à unidade com pessoas de vários países; em síntese: era uma experiência de comunhão.



Visitávamos o jovem sacerdote todos os dias, a caminho da escola – um estorvo na rotina das freiras do colégio que lhe preparavam o café-da-manhã após a missa: a mesa, agora, era para três. E seguimos em frente, alegremente, para a inquietação da nossa vida adolescente. Logo entendemos que aquela espiritualidade não tanto nos queria levar a frequentar mais a igreja ou a decorar orações fortes para obter favores do céu. Era um novo passo a fazer, que nos exigia um sério empenho de vida, de modo que todas as nossas atitudes fossem inspiradas na recomendação insistente de Jesus: “Eu vos deixo um mandamento novo: amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei!”. 


Foi radical e verdadeira a nossa adesão: os melhores anos de nossas vidas nós os consagramos à vivência e à difusão do ideal evangélico que Chiara Lubich assumira como protagonista e fundadora do Movimento dos Focolares. Inicialmente fomos convidadas a nos preparar à missão que queríamos abraçar, também nós, e viajamos para a Itália onde jovens de outros países se reuniam, como fosse uma escola de vida fraterna – ela seguiu antes de mim, ainda recordo: era julho de 1959. A partir daí os nossos destinos se separaram e foram diferentes os lugares aonde fomos chamadas pelo movimento a viver em missão.




Pouco mais de dez anos depois fui ao seu encontro em Salvador, ambas já casadas e mães – eu, envolvida em atividades pastorais orientadas por Dom Hélder Câmara, no Recife, ela como ativista de um movimento revolucionário que, entre outros, enfrentava a ditadura militar vigente no Brasil. A minha casa, em Olinda, foi mais de uma vez um ponto de apoio à sua perigosa missão, embora ela tivesse as devidas precauções, pois não queria nos comprometer. Mais tarde foi obrigada a fugir para a Argentina e depois a se exilar na França onde conheceu um economista de esquerda que se tornaria, mais tarde, o seu segundo marido. Certa vez perguntei a ele, curiosa, o que o teria feito escolher aquela mulher tão diferente de si:  – “Não fui eu a escolhê-la" – me respondeu. "  Quando percebi, ela já me havia escolhido!”.



Enganei-me em relação aos dois; não eram assim tão diferentes: nos anos oitenta eles decidiram ir para a África como colaboradores diretos do governo de Samora Machel  – um grande revolucionário de inspiração socialista, que conduziu a revolução da independência de Moçambique tornando-se o seu primeiro presidente, em 1975. Fora carinhosamente conhecido como o "Pai da Nação" e morreu num desastre aéreo quando voltava de uma visita a Mandela, na África do Sul. Durante o seu governo lhe foi atribuído o Prêmio Lenine da Paz (1975/1976).



Quando ela voltou ao Brasil, a vida nos permitira apenas encontros fortuitos, a amizade ainda sólida, inteira. Participara do primeiro governo de Leonel Brizola, no Rio de Janeiro (1983/1986), e dera apoio político ao governo do Amapá em ambiciosos projetos populares. Continuávamos a nos falar por telefone. Disse-me que estava a se preparar, com seu marido, a fazer uma viagem à França em visita à família dele. Às vésperas de sua viagem fui surpreendida por um telefonema de sua irmã: Marluza caíra doente de uma enfermidade grave e perversa, e me chamava ao Rio de Janeiro.

Estive com ela a última semana de sua vida. Dividia o quarto de um hospital público com uma aidética desenganada e pobre que quase ninguém visitava; ela a lhe dedicar um cuidado de imensa atenção: as flores, frutas, tudo que lhe traziam era repartido com sua parceira de quarto, em obediência ao seu olhar indicativo, sem pronunciar palavra. 

Durante os dias que lá estive pouco conversamos – havia só que contemplar seus gestos de delicadeza, buscar a escuta do seu olhar atencioso e enxergar a grandiosidade daquela mulher. Recordo que, em silêncio, fazia-lhe massagem nos pés pois percebera que lhe trazia algum alívio. 

Várias pessoas estiveram a visitá-la e havia quem lhe recomendasse alguém que a preparasse aos últimos momentos: com o mesmo respeito recebia a visita de um pastor evangélico, de uma mensageira da Umbanda, de uma benzedeira, de um sacerdote católico – rezava com atenção sincera as orações que lhe traziam. Cheguei e lhe perguntar por que assumia essa atitude: – “É que eles ficam contentes de fazer isto por mim”, me respondeu. E se foi devagar, como se estivesse a nos revelar sua adesão amorosa à dor de partir tão cedo.




[i] Marluza Correa Lima, nasceu em Maceió-Al. Os projetos sociais de que participou, em Macapá, ficaram na memória do seu povo.
Com o seu marido, Phillippe Lamy,  publicou um livro, em francês, sobre Moçambique: Mozambique: Dix Ans De Solitude...  Autoria de: German Velasquez, Phillippe Lamy, Marluza Correa Lima, Cristine Verschuur. Ed. HARMATTAN - ISBN: 9782858027002.
Coleção: Questions Contemporainnes. 

Fontes das imagens: 

- "A Liberdade conduzindo o povo" - Delacroix (Museu do Louvre) - reprodução.

- Foto de Samora Machel - Wikipedia.org.
- Foto de Chiara Lubich - divulgação do Movimento dos Focolares.
-  As outras fotografias são do acervo pessoal de Vanise Rezende.

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