Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

POR QUE ESCREVER?

12 de setembro de 2014

Surpreendi-me, hoje, a me perguntar: – Mas... por que escrever?
  

Quando alguém escreve - mesmo se este é apenas um arremedo de escritor -  há sempre uma sensação de medo se o leitor acolherá suas ideias, como se o ato de ler carregasse consigo as palavras e as perdesse do seu contexto, do momento de construção da escrita, da mensagem que se gostaria de “enviar”...

Ninguém escolhe ser escritor ou escritora. Um dia  – talvez ainda cedo ou mais tarde na vida   –  sente-se convidado, como se lhe brotasse na sua profundez um chamado a externar o seu pensar, o seu modo de observar o mundo, as pessoas, os fatos cotidianos, a sua experiência de vida. Ser escritor é como se tornar um mendigo ao reverso: da sua mente brota uma nova visão dos momentos vividos, observados, escrutados, imaginados  e, subitamente sente a necessidade inevitável de entregar aos outros os diálogos consigo mesmo, os seus porquês, a sua compreensão da vida...



O leitor seria um cuidador indeclinável da sua alma, um receptor necessário de um dom que só se tornará real, verdadeiro, se acolhido por outro, mesmo que fosse uma só pessoa. Talvez haja semelhança com a obra de arte – a música, por exemplo, para que serviria não fosse a escuta de alguém que a ama e a recebe como uma carícia, um convite ao silêncio profundo ou mesmo a uma alegre dança?


Há dias atrás retomei um livro da escritora portuguesa e grande poetisa contemporânea, Sophia de Mello[i]. Reencontrei-me na sua escrita que me caiu fundo, convidando-me a caminhar sempre em direção ao outro, como se só com esse movimento pessoal e contínuo eu me pudesse saciar. A sua escrita é verdadeiramente “exemplar”, não tanto porque seus livros trazem poemas e histórias densas de vida, mas especialmente porque a sua arte é cheia de sabedoria, de intensa ternura e de um profundo olhar sobre o jeito cotidiano de amar.

Compreendi, então, que a escrita só atingirá a sua identidade inteira, o seu verbo peculiar como eco da sensibilidade humana, quando ela não pertencer mais àquele que escreve, mas se expressar como um dom de carícia ao outro  –  àquele que talvez não se vê e não se conhece, a quem é oferecido esse ofício que a vida delega ao escritor. Pensando assim, eu me reconheço na raiz funda da alma, ainda aprendiz.  



[i] Sophia de Mello Breyner Andersen (1919/2004): “Contos Exemplares”. Ed. Figueirinhas. 1985. 15ª edição. 


Fonte das imagens:
Mulher escrevendo no batente - Pintor realista iraniano Imán Maleki - imanmaleki.com/en/Galery
Mulher lendo na relva - CanStockPhoto - www.canstockphoto.com.br
Foto de Sophia de Melo - wikipedia.org


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