Vanise Rezende - clique para ver seu perfil

UM PASSEIO PELO MORRO

11 de agosto de 2014


 “... A ostentação de luxo dos palácios e dos prédios modernos
e das favelas, às vezes a cem metros do luxo, agarradas ao flanco dos morros, sem água nem luz, onde vive uma população miserável, negra e branca... Nunca o luxo e a miséria me pareceram tão insolentemente mesclados”.1



Há certos dias que a gente sonha mesmo com os olhos bem abertos, mas o coração bombeando de alegria e o olhar deslumbrado.

Sonhei que estava num morro como esses que circundam a cidade do Recife, cidade em que - desde os anos cinquenta – o povo foi subindo morro acima, deixando os espaços mais nobres aos arranha-céus que ladeiam o Rio Capibaribe.


No meu sonho a escadaria do morro, ascendente e irregular, era ladeada de ciprestes aromáticos com folhagens brilhantes e casinhas pintadas de um colorido vivaz, a surpreender o olhar como um arco-íris. Ao lado da escadaria abria-se um pátio amplo com o piso em lajotas rústicas de cimento, as crianças a brincar em uniforme azul e branco e leves sapatos emborrachados, cabriolando em escorregadores, balanços e pistas enfeitadas com balões festivos. Professoras e auxiliares conversavam sentadas em banquinhos cimentados; outras ajudavam as crianças menores a usar os brinquedos do pátio. A escola dividia-se em salas com abertura para um amplo pátio, com duas saletas laterais e uma carreira de pequenos banheiros de tijolos pintados.



As crianças passavam a manhã e uma parte da tarde na escola. Durante esse período eram realizadas aulas de letramento, complementadas por outras de música e dança (cirandas, passos de carnaval e rodas de danças circulares, motivadas por cantigas regionais); também aprendiam artesanato para a produção de brinquedos e objetos caseiros, enquanto ouviam cantadores nordestinos e cantigas de crianças. Tinha os dias de passar vídeos com aventuras de bichos e de personagens infantis.

Ao lado da escola, um galpão coberto servia de espaço para aulas de educação física e cursos de formação para jovens. Os cursos serviam para a iniciação ao primeiro trabalho e ainda para o aprendizado da autonomia. Aprendiam a pregar botões, passar roupa e cuidar da higiene corporal. A iniciação ao trabalho incluía os diferentes enfoques da aprendizagem, de acordo com a orientação da UNESCO.2 



Outro local fora construído para a alfabetização de adultos: em lugar das carteiras escolares convencionais, as pessoas estudavam sentadas diante de máquinas de costura fechadas, organizadas em grupos circulares; era ali que homens e mulheres faziam turnos de aulas de costura. Alguns até aprendiam a produzir bolsas e peças de panos costurados para o serviço da casa.  





Continuei a subida do meu encantamento: uma feira popular ocupava um espaço cheio de barraquinhas cobertas de lona com a marca da Associação dos Moradores. Nas barracas eram vendidos produtos alimentícios produzidos pela comunidade: farinha de milho, farinha de mandioca, hortaliças diversas, frutas e doces caseiros - arrumados em vasos com tampa de pano xadrez - e, ainda, o pão saindo de um forno comprado pela Associação com o apoio do município. 

A farinha de mandioca lavada e ensacada, os doces e os pães eram produtos preparados no galpão da Associação: os grupos faziam rodizio para cobrir os horários do trabalho. 



Mais além, algarobeiras e jaqueiras assombreavam um recanto cercado com algumas casas de tijolos cimentadas: eram espaços para o repouso diário de pessoas idosas,  aos cuidados de enfermeiros da comunidade contratados para o serviço.  A limpeza dos ambientes era feita em rodízio pelos jovens que ainda não trabalhavam, sob a vigilância de membros da Associação dos Moradores.

Na base da subida do morro abria-se uma praça ovalada, com um pequeno centro onde professores de educação física orientavam os exercícios físicos e tomavam a pressão das pessoas que faziam caminhadas.

Meu sonho foi adiante, adiante... Mas hoje recordo só esses detalhes!




1) Trechos de comentários do fotógrafo francês Pierre Verger (1902/1996), que passou parte da sua vida na Bahia. 
2) Educação – Um tesouro a descobrir. UNESCO. Ed.Cortez. São Paulo-SP. 1998.

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Crédito das Imagens 

1.Morro: www.canstockphoto.com.br

2.Comunidades organizadas no Nordeste do Brasil:        www.vencerjuntos.org.br - Um excelente exemplo de sonhos possíveis! 

Nota: As imagens publicadas neste blog pertencem aos seus autores. Se alguém possui os direitos de uma delas e deseja que seja removida deste espaço, por favor entre  em contato com vrblog@hotmail.com 

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